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24 maio 2019

Celebrar a rebeldia feminista em defesa da educação. Sobre o 23M rumo ao 30M.

Muitas amigas tem discutido a situação mundial de nossos povos e a avançada de setores ultraconservadores em diversos países. Não, mulheres não discutem apenas “questões de gênero”. Nós temos opinião sobre tudo aquilo que se pode opinar, com a diferença de que nossas ideias são geralmente secundarizadas, usurpadas ou apagadas.

No Brasil – o país do futuro – atravessamos já há meses toda a orquestrada confusão do governo de Bolsonaro e as escandalosas rixas intra-burguesas que se desenrolam nas manchetes diárias dos jornais. Um governo como o de Bolsonaro não significa o surgimento das opressões e genocídios, mas significa que essas coisas agora encontram nas principais figuras de poder um discurso tão preconceituoso e reacionário quanto elas são; um discurso que as legitima, fortalece e intensifica, ignorando os protocolos da maquiagem democrático-burguesa.

Para quem é pobre, de quebrada, negro, indígena ou afroindígena, o cerco aperta. É como se a gente estivesse como xs secundaristas na manifestação de ontem, dia 23 de maio: cercados pela repressão, sem apoio de grandes estruturas e sentindo as paredes do cerco se aproximarem, espremendo as nossas vidas e sufocando nosso fôlego.

Os indígenas apontaram um caminho de lutas e iniciaram o ano realizando ações diretas de enfrentamento que buscavam lutar contra a já enorme precarização da vida a que estão submetidos, com pouquíssimas demarcações ao longo dos anos, sucateamento dos órgãos públicos responsáveis por questões indígenas e sofrendo todo tipo de violência genocida brutal.

Olhar para os povos indígenas em luta nos ajuda a ter um horizonte, muito mais do que olhar para as estruturas, organizações e entidades engessadas burocraticamente.

Há meses educadores e educadoras tem lutado: contra o SAMPAPREV, contra as reformas e agora a luta em defesa da educação e contra os cortes assume a forma de uma onda soma também estudantes universitários, pesquisadores, trabalhadores das universidades e estudantes secundaristas.

A principal unidade que devemos buscar, nós que somos ativistas contra o capital, é aquela que se constrói nas relações de confiança edificadas com nosso povo, com aqueles e aquelas que mais sofrem e que com mais urgência precisam de uma revolução porque estão sendo exterminados.

A manifestação de ontem foi difícil; as entidades não apoiaram de corpo presente e muitas chegaram mesmo a desanimar secundas, dizendo que eles estariam dividindo nossa unidade. Que unidade? É o que gostaria de perguntar.

Nesse sentido, concordar ou não com os e as secundaristas é algo que qualquer um de nós pode fazer e sustentar argumentos, mas não estar ao lado quando se mobilizam sabendo o quanto a juventude das escolas públicas tem sido oprimida é um erro, um erro que não aponta para a construção da unidade que nós buscamos, ao contrário.

Mas as novas gerações parecem nos dar mais lições do que gostaríamos de enxergar e mesmo com o abandono e falta de apoio ao ato de ontem, o bloco secundarista vai estar presente no ato do dia 30, porque eles sim estão a buscar unidade, na prática, não em retóricas vazias que, na realidade querem dizer: Se não estamos no controle do que pode acontecer então não vamos participar.

O movimento feminista também tem construído tentativas de unidade muito preciosas, tentativas que recuperam para as lutas muitas mulheres machucadas pelo silenciamento e invisibilização machistas que acontecem mesmo em espaços de esquerda e de militância.

Uma importante lição que o movimento secundarista pode aproveitar para fortalecer suas lutas é de pensar e perceber sempre se as estudantes estão à vontade, se estão se sentindo respeitadas e ouvidas nos fóruns onde a resistência e os debates são construídos. Se as estudantes se sentirem bem na luta, a nossa força aumenta nas manifestações de rua e também no trabalho cotidiano dentro das escolas.

Que a gente possa aprender uns com os outros.

Que a gente possa fortalecer umas às outras.

Que a gente esteja melhor preparados para mais uma chance que a luta nos traz de revolucionar a nós mesmos, ao modo como fazemos as coisas e ao mundo ao nosso redor.

[No dia 25/05 as 16:30 horas, a Revista Amazonas comemora um ano e realiza o debate CELEBRAR A REBELDIA FEMINISTA EM DEFESA DA EDUCAÇÃO com a voz de minas secundaristas autônomas, professoras da rede e universitárias periféricas no espaço CITA em São Paulo]

[A concentração secundarista no ato do 30M acontecerá em frente à igreja do Largo da Batata em SP]

Por Helena Silvestre – Ativista favelada e afroindígena, fortaleço as lutas pela libertação de corpos e territórios através da militância com o povo sem-teto, sem-terra, negro e indígena dos quais sou parte. Escritora autoproclamada, estudante de Saúde Pública e educadora clandestina. Marxista por reivindicação, antropóloga por gosto de conhecer diferenças, chorona porque leonina e aprendiz da agroecologia, da astrologia e da cultura dos orixás. Uma das editoras da Revista Amazonas e parte do movimento Luta Popular.

0 Comentário

  • Eva Ganc disse:

    Helena,sou antiga militante tanto feminista quanto entre nós. Estou passando por problema de saúde sério,o coração , se eu sair dessa vou aí de ônibus…
    Está no final um processo jurídico de minha família contra mim. Esse é o motivo de estar há um tempo afastada.A última atividade feminista que pude participar foi no Sindicato dos metroviarios. Nunca conversamos pessoalmente. Saudações, abraço Eva Ganc

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