Entrevista com a Sandra da ocupação Jardim da União

Sandra Silva é coordenadora da ocupação Jardim da união, que fica no extremo sul de São Paulo, Sandra é mãe e avó, cabeleireira de profissão e guerreira por vocação. Essa entrevista foi realizada por Gabriel Silva em fevereiro de 2019, por isso a situação atual da ocupação descrita durante a entrevista já passou por modificações.

Como você começou a fazer parte da Ocupação Jardim da União?

Foi em meados de junho, julho de 2013. Eu tava fazendo faculdade, tinha acabado de montar meu salão, tava super feliz. Só que eu pagava aluguel da minha casa e do salão. Um dia, minha prima ligou e disse “Sandra, invadiram um terreno aqui, o Dedê pegou um pedaço, falou pra você vir, pra você sair do aluguel”. Eu faltei no salão no dia seguinte para ir lá, fiquei super feliz, comecei a idealizar, pensar em como seria a casa… Eu não sabia como funcionava isso. Lembro daquele monte de gente limpando, trazendo madeira, lona… E eu fui me familiarizando.

Uma semana depois que a gente ocupou o Noronha, ocuparam um terreno da prefeitura em Itajaí. Meu filho participou dessa Ocupação, pegou um terreno pra mim e colocou meu nome no muro. Todos os dias a minha rotina era passar nos dois: se não desse em um, dava no outro. Eu coloquei na minha cabeça que não ia mais pagar aluguel. Nisso eu entreguei o salão e continuei pagando aluguel no lugar que eu morava no Itajaí.

Mais ou menos um mês depois – já tinha gente morando lá – a Globo foi e fez uma reportagem. No outro dia veio o despejo. Até hoje o pessoal lá tem ódio da Globo – até então, ninguém tinha percebido que a gente estava lá. Foi quando nós nos aproximamos da Rede Extremo Sul.

As reuniões eram na minha casa, que era do lado, e nós fomos articulando como a gente ía recuperar o terreno. Aí eu fui me envolvendo… A gente ocupou outra vez, foi despejado de novo, nisso foram cinco vezes, todas em um curto período de tempo. Na quinta, 16 de setembro, teve o despejo violento do Itajaí, teve a tropa de choque, pessoas presas, apanharam, confiscaram todos os pertences. A partir daí, as coisas foram ficando mais sérias. Algumas pessoas desistiram, outras quiseram ficar, e a gente decidiu procurar outro terreno para ocupar porque lá não dava mais. Foi quando viemos para o Jardim da União, dia 12 de outubro, nesse terreno, que é do CDHU. Aqui, nós nos envolvemos mais ainda. Eu me mudei pra cá no final de janeiro, porque eu não conseguia mais pagar aluguel mesmo, tive que entregar a casa. Aí eu me apeguei muito ao terreno.

Como aconteceu a aproximação com a Rede Extremo Sul?

No Itajaí tinha um rapaz que cismou que não ía sair porque ele tinha uma criança de 4 meses. Ele encheu a casa de móveis – que ele nem tinha – e a Prefeitura não pôde derrubar, mas eles iam voltar segunda. No sábado teve reunião na outra Ocupação, que a Rede Extremo Sul estava ajudando. Eu contei pra eles essa história e eles se interessaram e falaram para eu voltar lá e reunir quem tivesse no dia seguinte, domingo, às 10h. A gente se reuniu em umas 30 pessoas, tava o Mariano, a Rose… Foi como a gente voltou. Na segunda eles estavam lá registrando o momento em que eles chegaram para despejar o menino. Foi a primeira filmagem do Itajaí.

Como foi esse período inicial da Ocupação?

A gente fazia ato praticamente toda semana, a gente conseguia mobilizar a galera porque tava todo mundo com o sangue fervendo de junho de 2013. Também a capacidade de mobilização que o pessoal da Rede tinha dentro da Ocupação era muito grande. Eles ensinaram tudo que sabiam pra gente, faziam reunião periódica, formação… Conseguiam envolver os moradores de uma forma impressionante. Sempre falavam que isso aqui era nosso, que quem tinha que lutar era a gente, eles vinham só ajudar. A gente tinha formações que pegavam vários fins de semana seguidos e enchiam o barracão.

Mas acho que um problema grande foi que a Rede era anarquista, então a gente não tinha contato com partidos políticos ou outros grupos que não fossem anarquistas. Era como se fosse criar um condado. Depois que eles foram embora, a gente não teve opção, toda a porta que a gente batia, ninguém queria ajudar a gente.

Como foi a saída da Rede?

Ficamos com eles até abril de 2015, foi quando a Ocupação chegou no auge, tinha muita gente. Ao longo desse tempo, a gente começou a se organizar realmente, também politicamente. Mas eles foram embora em abril de 2015 e a gente tinha conseguido 180 dias que terminava em 1 de julho de 2015, então pra gente era uma coisa perdida. Foi mesmo, muita gente simplesmente encostou o caminhão e foi embora. A Ocupação caiu pela metade.

Naquele momento, a gente achou que a Ocupação ia cair mesmo. Eu me senti perdida, tinha gente chorando… Aí veio a minha revolta e eu falei “vamo abrir um barracão”. Falaram para esperar que a Rede iria voltar na segunda, mas eu falei pra fazer naquela hora porque o pessoal estava completamente perdido, já chamando caminhão de mudança. A gente abriu o barracão e subiu todo mundo pra conversar. Vários grupos com opiniões diferentes se formaram. Eu segui muito a linha deles de critérios, mas voltei atrás na parte de se envolver com outros movimentos, não tinha como, porque ninguém queria ajudar a gente e só tinha 3 meses. 

Essa é uma raiva que eu tenho da Rede. Pra sair, precisa ir paralelo, ajudando a continuar, passar o bastão. Quando a gente chegou no CDHU, a Rede tinha mandado um email falando que estavam fora. Acabou a negociação. Empurrou a gente para baixo. Tanto que, pra gente conseguir conversar, a gente teve que ocupar o CDHU, e como eles já sabiam que a Rede tinha saído, o Lajarin simplesmente chamou a tropa de choque pra gente, coisa que nunca tinha acontecido antes. Foi muito ruim, imagina, a gente tava começando do zero. Eu sempre estava nos bastidores, de repente tinha que estar ali na frente, e o povo olhando para minha cara – o que é que você vai fazer? Eu tive que enfiar o dedo na cara do Lajarin falando que a gente não ia sair dali. Foi uma briga ferrenha, eu enfiava o dedo na cara dele, ele na minha. Imagina o terror. Aí você olha pra trás e tem uma multidão dependendo de você. Você se sente impotente mas você tem que demonstrar que você é um gigante, que você sabe o que tá fazendo, mas você não sabe nada, aprendeu na marra.

Hoje em dia, eu acho que eles foram porque eles se sentiram seguros, que eles sabiam que a coisa não ia cair porque eles ensinaram tudo o que precisava. Mas eu fiquei magoada porque de cara eu virei militante deles. Eu fui pra cooperativa, virei coordenadora da cooperativa e, através disso, eu representava a Ocupação em vários pontos, feiras, essas coisas, fui no Cedeca falar também… Então eu comecei a militar através da rede, extra-oficialmente.

Quando eles foram embora, eu me senti muito magoada. Primeiro que a gente já cortou relações porque dentro da Ocupação se viu que tinha uma elite que podia comprar terreno e outros que não podiam, e eu era dos que não podiam. E eu acho que eles se perderam um pouco nisso de sair daqui pra comprar terreno coletivamente, isso ia dar uma treta danada… Só ia quem tinha dinheiro. Eles fizeram uma reuniãozinha fechada, só com o pessoal que participava das reuniões de compra de terreno. Aí quando estourou a bomba, tudo, o pessoal chorando… Eu falei poxa, foi uma puta sacanagem que eles fizeram, eles nem deram tchau.

Hoje eu entendo os dois lados: eles se perderam nesse ponto, mas sabiam que a Ocupação ía caminhar porque eles ensinaram tudo que eles sabiam, essa é a realidade. Mas o momento em que eles saíram não foi um momento bom e a minha crítica a eles é essa: eles saíram em um momento que não foi apropriado e a forma como saíram, como se estivessem saindo pela porta dos fundos. A gente tem todo respeito pelo que eles fizeram, mas a forma como eles saíram foi muito ruim.

E depois disso vocês começaram a se aproximar de outros movimentos e partidos?

Uma militante do PSTU entrou em contato comigo e chamou para uma reunião na Apeoesp do 1 de maio de 2015 aqui no Socorro. A gente participou do ato, e passamos a ter contato com eles. Foi bem difícil porque todo mundo olhava com bastante desconfiança pros partidos, mas foi a nossa única opção e os militantes do PSTU que vieram respeitaram muito e foram caminhando junto com a gente.

Foi em agosto que o Luta Popular entrou e a partir daí a gente passou a se organizar de outra forma. Tivemos contato com vários outros movimentos, partidos, PT, PSOL, PSTU, PCdoB… Quem quis realmente ajudar ficou. Quem não quis, viu que não ia ter brecha pra se apropriar e foi embora…

Eu cheguei a me candidatar pelo PSTU, pra mim foi uma coisa absurda que eu fiz porque eu não acredito que a gente vai transformar o mundo através de eleição. Eu acompanho alguns que tentam falar, mas é como se eles estivessem falando sozinhos. Eu acredito que por mais que você tenha princípios, tenha vontade, você é dragado, você é engolido pelos demais porque você é sozinho. Então não acredito que vai ser dessa forma. Foi um momento em que, infelizmente, eu fui envolvida, “tem que ir, a Ocupação vai aparecer mais”. Eu fui, mas não consegui fazer campanha, não pedi voto, e ainda assim consegui ter 300.

A galera da ocupação votou em peso?

Acho que nem foi tanto daqui, acho que foi mais de fora, de militantes. As pessoas me conhecem pelas mídias sociais por causa da Ocupação. Querendo ou não, essa Ocupação tem um espírito forte – tudo que nós fizemos… Lá no Itajaú a gente ocupou a Secretaria do Verde, passamos o dia inteiro lá, das 6 da manhã às 6 da tarde. Não tinha nem 50 pessoas lá dentro e a gente conseguiu segurar, o pessoal do lado de fora perguntava quantas pessoas tinha e a gente dizia 200. Subiram lá em cima e colocaram aquela bandeira linda “Grajaú quer moradia”. E ocupar o CDHU, fritar sardinha, cozinhar ovo e repolho dentro do prédio que não é só do CDHU – tinha várias secretarias do Estado e empresas privadas lá dentro. Isso dá orgulho, e isso chama a atenção lá fora. Então esses votos não foram por conta “da Sandra”, são da Ocupação

E como estão as coisas agora? A assembléia que eu colei aqui estava bem menor do que eu lembrava.

É verdade, tem vários fatores. A galera de antes veio no gás de 2013. Metade foi embora quando a Rede foi. Quando a gente recomeçou e o pessoal viu que a gente não ia sair, não ia abandonar, a gente abriu espaço pra mais famílias, então todos os dias aparece gente pedindo, e a gente foi aceitando todo mundo, explicando como funciona e aceitando. Foi assim que a gente conseguiu repovoar ela. Metade da galera não é do começo e acho que daqui a 5 anos não vai ter nem 10% que começou.

Hoje a gente tem o apoio do PSTU, PCdoB, algumas pessoas do PSOL. O PSOL e muita gente do PSTU se afastaram mesmo com o racha do PSTU, que a galera do MAIS (atual Resistência) foi pro PSOL, mas esse racha não teve nada a ver com a gente.

É isso que eu tento falar pras meninas, se a gente não continuar… É difícil chamar o pessoal sempre pras mesmas coisas, e uma coisa que o pessoal reclama muito das assembléias é que tem política demais. Tudo o PSTU quer falar na assembléia, chamar pra ato disso, ato daquilo, etc. Tira o foco do povo da luta. A reforma da previdência é importantíssima, atinge todos nós, mas não é um ponto pra assembléia, é pra chamar a galera um dia no barracão e falar “vamo conversar sobre isso”. Agora, falar na assembléia tira o foco e as pessoas ficam desmotivadas “só fala de política”.

Se conseguisse se reunir de forma periódica, trazendo mais as pessoas, você conseguia tirar o foco do PSTU de revolução. Quem você acha que vai fazer a revolução no Brasil? Não vai ser o operário. Quem você acha que vai ser?

Eu nao sei, acho que os trabalhadores vão ter um papel porque tem que ter. Mas no Brasil, sem essa massa de desempregados, de negros, mulheres, que estão na margem, não vai ter revolução. Por que é o que Marx fala mesmo “aquele que não tem nada a perder a não ser suas correntes” – esse, no Brasil, não é o operário.

Eu tenho acordo com o programa do PSTU. São muito idealistas, etc, mas é uma coisa meio surreal. O programa deles, essa coisa de ter uma revolução, de ter uma revolução operária, só é possível se o pessoal estiver empregado, né? Senão não tem operários. (risos)

Teve a assembléia de greve geral. Aí perguntam “quem aqui tá desempregado?” 90% estava desempregado. A gente pode travar uma rua? Sim, mas a gente não vai conseguir ter esse peso todo na greve geral. Greve geral só é possível se o operário não for trabalhar, se o ônibus, o trem e o metrô não saírem. Você não consegue greve geral chamando desempregados.

Esse caso na da Crisintos [1], chamaram a gente, a gente foi. Entrou como uma troca. Através do PSTU a gente conseguiu o apoio pra voltar a negociar no CDHU.

Eu fico puta, quando eu tava no PSTU, eles só falam com os operários. E os desempregados, os trabalhadores informais, que é a maioria que tem hoje? Eles até fizeram uma mudança e começaram a se envolver mais com os ambulantes. Mas continuam focando no operário porque eles têm a ideia de que vai acontecer que nem aconteceu na Rússia. Gente, a Rússia foi de operários e camponeses. Hoje, no Brasil, o que menos tem é operário.

E a ideia de escrever um livro sobre a Ocupação?

Eu quero muito escrever um livro sobre a Ocupação. O pessoal da Rede, quatro anos depois, está contando a experiência daqui lá pra uns caras que nunca vão vir, enquanto nós continuamos a história e nenhum de nós é lembrado.

Isso é um problema porque se a Ocupação durar 15, 20 anos, ela vai mudar. Todos esses anos vão mudar esse processo, e a história dela vai mudar também. Não é só aquela história, aquela é só uma primeira fase, os dois primeiros anos. De 2015 a 2018 veio outra fase e 2019 é outra fase porque eu não quero mais estar tão à frente como eu estava e quem virá no meu lugar vai assumir de uma outra forma. Pode ser que a Ocupação melhore politicamente, pode ser que a história seja diferente, ou pode ser que degringole tudo de uma vez. Não que eu queira abandonar, eu vou continuar aqui, mas eu não quero estar à frente.

Sendo o pessoal da Rede, eu, ou qualquer um, a Ocupação vai continuar existindo.

Qual é a perspectiva futura?

Se aparecer alguém que vai manter os mesmos princípios, mantendo a Ocupação como ela é, eu vou dar todo apoio, mas não tão presente quanto antes. A Ocupação, pela história dela, cresce muito os olhos de oportunistas. Tem muita gente que eu tenho certeza que, se vier, vai mudar totalmente. E dinheiro mata a fome de quem tá com fome, mata a sede de quem tá com sede, dá teto pra quem não tem, é complicado.

Antes não tinha associação, mas como a gente negociava moradia, a gente precisava ter uma associação habilitada no Ministério das Cidades. Quando a Rede saiu, a gente conseguiu abrir a associação. Se a gente tivesse ela desde o início, talvez a história tivesse sido outra, foi um dos erros da Rede, não queria de jeito nenhum a associação. E a gente perdeu a oportunidade de entrar no Minha Casa Minha Vida.

Então abrimos a associação vai fazer 4 anos agora. Tem que mudar a diretoria. Eu quero ser uma militante normal, não quero ser presidente da associação. Isso não mudou em nada minha vida, só me trouxe mais responsabilidades e mais problemas. Aqui eu já fui ameaçada de morte, eu e meus filhos…

O problema é sempre dinheiro. Quem vier e não tiver os princípios, simplesmente vende o terreno. Eu tenho como princípio que a Ocupação tem que continuar porque muita gente aqui precisa. Eu preciso entregar pra alguém que tenha os mesmos princípios. Se cair na mão de algumas pessoas, vende em um ano.

A gente conseguiu 180 dias, com a nova diretoria, a nova gestão da associação. Eu to entre a cruz e a espada por causa do impasse como militante de querer que a Ocupação de certo e continue, mas tenho os meus problemas pessoais que eu preciso resolver.

Entre os próprios moradores tem pessoas ligadas a partidos. Eles podem bancar a chapa, comprar o povo e ganhar. E se eles ganharem? É tudo política, é tudo visando voto, mas ninguém vai enfrentar o governo pra falar “entrega o terreno pra esse pessoal”. Não vai. É só um medo que eu tenho, porque eu não vou entrar nessa.

Isso aqui não vai se resolver tão cedo. A única certeza que eu tenho é que o governo não vai entregar esse terreno facilmente. Você acha que eles entregariam? Você acha que o Dória assinaria?

Quando acabou o Minha Casa Minha Vida Entidades, a gente ficou sem saber o que fazer porque a ideia era essa. A gente tinha um acordo afirmado que a gente ia pro projeto que era da Associação de Mulheres do Grajaú que tinha um terreno mas não tinha demanda. Nisso arquivou o processo, acabou o MCMV pro faixa 1 – porque tem o faixa 2, faixa 3, que é pra quem ganha de 2000 pra cima, mas a maior parte aqui é faixa 1. O que acontece? a gente ficou sem saber o que fazer. Aí veio a ideia da urbanização por causa da MP 765 no final de 2016, dizendo que era possível urbanizar favelas. Hoje o objetivo é lutar para autorizar essa urbanização.

O que barra hoje é a Cetesb, que é área de manancial. Só que uma é estadual e a outra é federal, então sobrepõe. O terreno é para construção de moradia mesmo, mas a Cetesb não aceita como a gente fez porque a gente ocupa todo o terreno, eles preferem construções verticais que sobra mais espaço. Pagamos assessoria técnica, topografia e contratamos um fotógrafo. A FAU está fazendo esse curso de extensão, e estão vindo todo fim de semana pra ajudar a implantar o projeto de urbanização, que falta resolver canalização de água, água de chuva, alagamento, nível do terreno, que é desnivelado, área verde. Eles acompanharam a gente nas últimas negociações e acham que é possível apresentar na CDHU pra ver se eles aprovam a urbanização. Então a gente reorganizou a Ocupação e agora é lutar para que legalize.

Tem todo um processo encaminhado, a ideia é que eles aceitem. Mas é um terreno que vai acabar valorizando, em volta tem muitos hipermercados, eu não acho que vai sair tão fácil. Acho que durante o governo Dória não sai, ele pode ir empurrando, mas sentar e assinar é impossível. Tem que ter muita luta.

Você acha que a Ocupação resistiria a outro processo de reintegração de posse?

A grande merda é que a gente já passou por isso antes. Se vier realmente uma reintegração, a gente perde metade da força porque tem pessoas que estão cansadas, pessoas que nunca lutaram… Essas pessoas vão embora. Mas uma grande parte ficaria e eu acredito que resistiria.

A gente lutou tanto, já passou por tanta coisa aqui que sair pacificamente é impossível.

Ó a Vitória, tá com quantos anos agora?

Vitória – 16

Ela chegou aqui com 10 anos. É uma vida.

O que te motiva a continuar nessa luta?

Não voltar pro aluguel (risos). É aquilo que eu te falei, eu trabalhava pra pagar dois aluguéis, era treta. Quando eu vi que tinha essa possibilidade, não volto mais para o aluguel. O que me motiva hoje é exatamente isso, porque é um direito. Se não tivesse tanta corrupção se o governo não desviasse tanta grana, se eles dessem mais atenção para essa parte da habitação, acho que melhoraria em 50% a vida do brasileiro porque o salário mínimo é muito baixo. Pelo Dieese o salário mínimo teria que ser entre 1900 e 1800 reais, a gente recebe metade disso.

A maioria ganha um salário mínimo – menos de mil reais – qualquer dois cômodos com um banheiro é 600 reais.

Esse preço até que tá barato (risos).

Por aqui, né? E tem aquelas coisas, não pode ter filho, não pode ter carro, ter cachorro, não pode ter nada. Basicamente para ninguém. Se o governo desse mais atenção para essa parte social – a saúde e o transporte são precários mas ainda funcionam, ainda tem. Você é mal atendido, anda feito sardinha no transporte, mas você consegue chegar no seu destino. Você vai no médico, passa o dia inteiro mas consegue ser atendido, mal atendido, mas consegue. Mas a parte da habitação, se você não tiver dinheiro para pagar aluguel, você vai ser despejado. Então acho que é uma questão muito importante. Acho que é isso que me motiva, porque eu sei o quanto gasta minha família, eu sei o quanto custa eu alugar uma casa hoje para a minha família, eu tenho dois filhos pequenos, dois netinhos, quatro gatos, um cachorro velho.

Você é uma super-mulher né? Você é coordenadora da Ocupação, tem quatro crianças pequenas, quatro gatos…

…E um cachorro velho. Eu sei que eu não conseguiria alugar uma casa com menos de mil reais lá fora se eu quisesse, para todo mundo. Eu não estou trabalhando, como que eu vou fazer? Acho que isso é o que mais me motiva. Eu olho por aí, converso com um converso com outro e vejo que a situação é muito pior que a minha. É isso que me motiva na verdade, Gabriel.

>>>Todas as fotos utilizadas nessa entrevista são do Jardim da União ou de atos em que seus moradores participaram.

[1] Na greve geral de 28 de abril de 2017 houve um piquete numa metalúrgica no Socorro, a Crisintos, que foi realizado pelos membros da ocupação Jardim da União, numa ação de cooperação entre as centrais sindicais Conlutas e Força Sindical. Durante o piquete os membros da ocupação decidiram travar a avenida Atlântica e o dirigente da Força Sindical ameaçou chamar a polícia para impedir o travamento. Nessa greve geral foi emblemática a grande participação em atos e mesmo piquetes realizados por movimentos de moradia ao invés de por trabalhadores ligados à atuação sindical.

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