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21 abr 2020

MC Kric

Foto do Mc Kric

Kric Cruz, 63 anos, Mc do grupo de Rap Comunidade Carcerária, sobrevivente do sistema prisional, passou 28 anos em diferentes penitenciárias, sendo mais de vinte anos apenas no Carandiru. Educador cultural, compositor, ator, pai coruja, militante autônomo e abolicionista penal, além do seu grupo de rap, participa do coletivo autônomo Herzer, da Associação de Amigos e Familiares de Presos (AMPARAR) e da Frente Estadual pelo Desencarceramento de São Paulo.

Como começou sua relação com o sistema prisional?

É difícil responder isso porque eu fui criado no Juizado, no Recolhimento provisório de menores, então minha adolescência toda foi no crime, eu não tive família, me criei na rua, com dez anos participei com alguns amigos de um tiroteio aonde um companheiro de 12 anos foi morto pela polícia. Aos 14 anos fui detido na rua, levado ao DOPS e torturado de diversas formas, eles perguntavam “Aonde estão os terroristas? Onde fica a base de vocês?”, mas as perguntas não eram pra mim, eram para os estudantes brancos de classe media que estavam sentados em volta, como forma de intimida-los para fazer eles falarem, e de fato alguns falavam. Mas eu não entendia nada de política naquela época, não entendia o que estava acontecendo, eu só tive noção de que eles eram pessoas diferentes, militantes, por causa dos momentos em que os policiais saiam e deixavam a gente sozinhos, tinha um deles que era um médico que estendia minha perna e tentava me ajudar, falava que eu ia me recuperar. Eram pessoas muito boas, eu acho que eles de fato acabaram morrendo. Fui torturado no pau de arara, com choques elétricos por toda a madrugada, fui pendurado pelas pernas com algemas, eu achei que ia morrer, era como se eu não valesse nada. Na época era muito comum eles mataram os meninos e enterrarem de quebrada com a plaquinha ”EM” (esquadrão da morte). O que salvou minha vida foi que nos levaram pro presidio do Hipódromo, e chegando la eu fui envolvido numa fuga e consegui fugir da cadeia. Na época eu tinha perdido parte do movimento das pernas por causa da tortura e fui carregado por um camarada na fuga, muitos diziam que eu nunca mais ia me recuperar, que teria que amputar a perna. Depois disso fiquei dois anos me recuperando numa quebrada do Rio de janeiro ate conseguir restabelecer minha saúde. Então alguns anos depois quando eu cheguei na cadeia de fato ela já era familiar pra mim.

Como você foi parar no Carandiru?

Eu tinha 22 anos, era 1979, na época eu participava de alguns assaltos, eu fui preso quando entregaram um esquema  nosso de um assalto a uma agencia bancária num edifício comercial na região da avenida Paulista. Dai o inquérito foi assinado no primeiro DP, boa parte do pessoal já tava com a ficha pesada, se caíssemos na cadeia não saiamos mais, foi onde tentamos cavar um túnel para fugir, mas fomos pegos no buraco numa batida noturna, ai que mandaram a gente pro Carandiru.

Como foi a sua vida nos primeiros anos na cadeia?

Eu fui acusado em 18 inquéritos, assalto, latrocínio, formação de quadrilha,  etc. Boa parte deles acabei absolvido depois na revisão de pena, mas ai Inês já era morta. Os primeiros meses foram muito duros, passei a virada do ano no castigo. Depois que sai do castigo eu conheci o professor João, ele era um voluntario que dava aulas na cadeia, foi quando comecei a aprender a ler. Ate a época do massacre, eu tive uma vida de preso normal, tive uma vida muito disciplinada, não me envolvi em grandes problemas e conquistei algum respeito, também frequentava aulas  ate que conclui o mobral.

Como foi a sua experiência na época massacre do Carandiru?

O massacre aconteceu no pavilhão 9, eu ficava no 8. A confusão começou um dia antes, dai as ideias era de 3 caras, que no dia seguinte já começaram na confusão, foi então que o funcionário chefe do pavilhão 9 fechou os portões e chamou a tropa falando que tinha um monte de gente armada e ia ter conflito. Não era verdade, mas a tropa de choque entrou. Não foi o único massacre, todo mundo só lembra desse, mas em 82 a policia matou 12 no pavilhão 2 no contexto de uma tentativa de fuga, também em 86 houve uma rebelião em que morreu 36. Nessa época não entrava uma agulha na cadeia, não entrava comida de fora, não entrava roupa, não tinha visita intima, não tinha nada, então em 82 havia estourado a primeira rebelião nesse contexto, que não tinha nada na cadeia.  Na época do massacre dos 111 eu era o encarregado geral preso da cultura e da alimentação, eu buscava o leite e na cultura eu ajudava a organizar as festas temáticas do ano (enfeites de dia das mães, dia das crianças,etc), eu tentava já construir atividades de musica la dentro mas não conseguia. Depois do massacre todos nos que éramos encarregados fomos transferidos, dai eu fui parar na penitenciaria de Araraquara, fiquei lá de 92 a 95, fiquei depois alguns meses na penitenciaria de Sorocaba, dai nessa época a situação do Carandiru estava se agravando e os antigos encarregados de setor foram convocados de volta, ai que eu voltei pro Carandiru.

Capa do primeiro CD do grupo Comunidade Carcerária.

Como você realizou seu trabalho cultural na cadeia?

Quando eu voltei, eu queria fazer uma revolução. Elaborei um projeto de longo prazo, que foi negociado com o diretor, dai o primeiro show que a gente conseguiu fazer se chamava “O show da paz” foi Racionais Mc’s, Raul Gil, Rita Cadillac, Catinguele, etc. Foi ai que aconteceu a primeira apresentação do nosso grupo Comunidade Carcerária, que na época não tinha base gravada e fazíamos todas as músicas com beat box, e outros grupos da casa como Sobreviventes MCs, Bola Mais Um, Almir Original e outros. Conseguimos um espaço para fazer música, teatro e artes plásticas. Uma diferença do espaço era que tinha que aprender a cantar e escrever as próprias músicas. Eu comecei a estudar teatro e a gente iniciou um grupo. Nós ensaiamos durante 1 ano, mas não chegamos a nos apresentar. Fomos impedidos de sair da cadeia para nos apresentar mesmo depois de já ter conseguido autorização do juiz. O nosso espaço ajudou a dar voz a diversos talentos da cadeia, e alguns ate estavam conseguindo se profissionalizar e conquistar autorizações para fazer apresentação fora da cadeia, ate que o Conte Lopes e a mídia começaram a fazer uma campanha no governo e na televisão contra o direito a essas saídas, e acabou se perdendo essa possibilidade.

Você falou que não se entrava antigamente roupas e nem tinha visita intima, como isso mudou?

Em 1983 se articulou uma comissão de presos para dialogar com o Estado, que queria conquistar melhorias do cárcere

Nós organizamos uma greve branca, uma greve de fome, não saíamos da cela para nada, nem comer. Eles não fizeram nada no começo, deixaram morrer, mas foi um tiro na culatra. Durou mais de 30 dias, três presos foram parar na UTI, outros foram pro hospital e aí esses foram ouvidos, do lado de fora. Foi quando marcaram com o governador para conversar com uma comissão de presos. A comissão se reuniu no salão nobre da penitenciária de São Paulo, era um lugar muito luxuoso, e nós levamos nossa reivindicação escrita, nós estávamos preparados. Nossa principal reivindicação era o voto do preso, mas também reivindicamos que pudesse entrar roupas, pois na época só entrava as roupas da casa que não davam conta da necessidade da maioria, também pautamos que pudesse entrar comida de forma mais ampla, outra das reivindicações principais era o direito a ter visita intima. A luta conquistou a visita intima e conquistou a ampliação do direito ao jumbo. A gente queria algo que não pudesse ser tão facilmente cortável, queria trâmites que garantissem os direitos. Envolvemos até a ONU e até hoje a visita íntima é um direito garantido.

Porém, mesmo com essas vitórias essa luta acabou em uma grande derrota, pois não conquistamos o direito político do preso, se o preso pudesse votar a situação não permaneceria degradada como é, teríamos impedido o encarceramento em massa. O direito de entrar o jumbo, a comida e as roupas, se por um lado melhorou um pouco a situação, na prática ajudou a abrir o caminho pro encarceramento em massa que vemos hoje, pois o cárcere se tornou muito mais lucrativo, aquele dinheiro que minimamente era gasto com o preso hoje já não é mais, e esse dinheiro vai parar no bolso de alguém né, dizem que gastam milhares de reais por preso, mas hoje esse dinheiro que seria para alimentação, higiene, roupas e sub existência na verdade não chega no preso, alguém coloca isso no bolso, seja o diretor do presidio, o juiz, o agente carcerário, o político, a polícia, eu não sei, mas eles tem lucrado muito com isso, e cada vez mais quem fica com o peso de manter a condição mínima de vida do preso é a família.

Mas a gente da militância sabe que não é uma luta só, são várias, até conquistar algo. Eu aprendi isso dentro da prisão, que uma luta ajuda a gente a juntar energia para outras.

Qual é a história do filme O Prisioneiro da Grade de Ferro?

Um dia surgiu uma equipe da Tv Cultura para fazer um curso de vídeo e som na cadeia, dai como eu era encarregado eu fiquei responsável junto com o FW pelos materiais dentro da cadeia, e fizemos esses cursos entre 1999 e 2001, nessa época surgiu o Hector Babenco com a ideia de fazer um filme, e ficou filmando a gente em diversas situações dentro da cadeia, ele vinha com um caderninho e uma equipe, e anotava tudo, como a gente falava, como agia e tudo que rolava. Ele prometia que ia utilizar atores da cadeia mas logo sacamos que ele só queria gravar pra aprender nossos costumes pra fazer o filme dele la fora. Dai ficamos com a ideia de nos mesmos fazermos um filme, conseguimos apoio do professor do curso e do Paulo Sacramento pra essa ideia, dai começamos a filmar, e era algo cru, não se repetia nenhuma cena duas vezes, no filme eu acabo aparecendo pouco por que eu filmei a maior parte das cenas, por que eles quase não deixavam outras pessoas ficar com as câmeras. Depois as imagens foram lá pra TV cultura, e a gente não teve mais noticias. Só bem depois, quando já havia saído do cárcere que descobri o filme pronto e editado, e vi que ele teve toda uma repercussão e ganhou vários prêmios. Não ganhamos nada com isso, eu e o FW estamos na justiça com um processo contra o Paulo Sacramento ate hoje para a gente receber isso ai.

Capa do segundo CD do grupo Comunidade Carcerária.

Como foi a sua saída da prisão?

Eu não tinha direito a semi aberto e nem a condicional né, eu tinha que cumprir os trinta anos. Dai me mandaram pra Avaré e depois para Bauru, la eu criei um projeto que se chamava “enquanto ela não vem”, quando o projeto tava vingando me transferiram para Mongaguá, dai la fiz outro projeto que se chamou ” a espera dela”, esse projeto deu muitos resultados, fizemos uma peça, chamava o ”auto da prevenção”, era sobre HIV, conseguimos apresentar essa peça em diversos lugares, fez bastante sucesso. Dai ao invés de eles já me darem a liberdade saiu novamente diagnostico de que eu não seria ”apto ao convívio social”, um absurdo sem sentido que um psicólogo faça um documento dizendo isso, eu que já havia feito tanto coisa. Dai me mandaram para São Vicente e fiz outro projeto de artes cênicas, e conquistei ate um salário da FUNAP como educador. Nesse período veio ate um juiz conversar comigo, expus os trabalhos que estávamos fazendo e a injustiça da nossa situação, de que muitos de nos pesos, ja tinham direito de semi-aberto ou mesmo ja tinham cumprido a pena, ou tinham direito de progressão de pena mas ainda estavam la numa situação de descaso. Dai o juiz  acatou a denuncia e fez um mutirão com advogados na penitenciaria . Alguns meses depois que conquistei minha liberdade depois de 28 anos, consegui um ano e oito meses de redução de pena apenas depois de 28 anos, apesar do bom comportamento e dos diversos projetos desenvolvidos.

Quando eu sai da cadeia eu já tava casado com a mãe do meu filho, dai eu sai ja tendo uma estrutura, uma casa e apoio. Mas também tivemos problemas de convívio pois não nos conhecíamos tão bem, ela é evangélica, e eu também tinha muitos sonhos que as vezes entravam em contradição com as ideias dela, com a minha atuação no rap, no teatro e mesmo na militância. Dai aos poucos, junto aos shows nas quebradas fui conhecendo outros militantes que davam atenção a essa pauta tão desvalorizada que é a do cárcere, nisso conheci a AMPARAR, por exemplo. Gravamos o cd Guerreiro da paz, nosso segundo CD, que o primeiro da comunidade carcerária lançamos dentro da cadeia. Dai eu trabalhei de auxiliar de pedreiro, depois virei oficineiro em escolas, comecei voluntário, depois cheguei a ganhar um contrato com a prefeitura mas a gestão Dória cortou todas as oficinas, ainda assim consegui continuar a ser remunerado por alguns trabalhos de oficina.

Por que você continuou militando com a questão do cárcere depois que saiu da cadeia?

Essa foi uma luta que segui por causa da questão da reincidência, eu via muita gente quando tava no sistema que saia e tava de volta um ou dois anos depois. E quando tava la dentro ficava pensando que tinha que ter gente fora do cárcere que nos apoiasse la dentro, que isso poderia fazer com que muita coisa fosse diferente, dai eu conheci fora do cárcere a AMPARAR, peguei uma grande amizade com a Railda. Pra mim é uma questão muito importante ajudar as pessoas que saem do sistema a conseguir emprego, a conseguir ter uma perspectiva de vida para que não seja levada de volta ao sistema. E através da AMPARAR vi a possibilidade de fazer essa luta fora do cárcere, o que vem se fortalecendo agora com a frente também. Nos debates aqui fora conheci as ideias do abolicionismo penal, e concordei totalmente que toda vez que se fala em abolição é uma mentira, quando se fala em preso comum, isso não é realidade, é uma falsa abolição, não dão nenhuma condição para as pessoas e prendem esses mesmos pretos jogados pra morrer, temos que combater isso, as pessoas precisam ser libertadas de verdade, todo preso é um preso político.

Qual sua perspectiva para a luta contra o cárcere hoje?

Olha no atual governo eu não sou nenhum pouco otimista, eu acho que temos que nos articular com mais desenvoltura, continuar a fazer nossas reuniões, não falar só com nos mesmos mas construir cada vez mais, mas com muito cuidado. Temos que ter muita cautela! Por que ate agora nenhum de nos foi preso por essa luta, mas outros movimentos ai tem sido atacados, e temos que ter muito cuidado pois estamos batendo de frente com a coisa mais violenta do sistema que é a repressão. E essa é uma realidade que temos que encarar de frente, pois surge muita gente nova hoje nessa luta, mas também muita gente se afasta, temos que ter muito cuidado. Eu acho que a luta tem que se fortalecer, a gente tem que parar de se dividir, para de ser uma coisa muito pessoal, não pode ter uma figura só de destaque, tem que ser uma coisa de coletivos, de união real de resistência. Estamos num momento muito delicado, é preciso ficar esperto, sabem quem é quem. Temos a situação piorando muito com ações do Moro no governo, que quer liberar totalmente a policia para matar legalmente, ele não conseguiu passar tudo, mas na época da ditadura a policia tinha o AI 5, tinha a legalidade de matar e isso pode voltar, por isso temos que ter mais cuidado, mais união, por isso acho a frente pelo desencarceramento muito importante. Ta muito certo a frente nesse momento ter esse nome, por que a prisão hoje é cada vez mais um problema de todo mundo e é preciso ter união, líder comunitário é preso, jovem é preso sem motivo, cada vez mais a prisão  atinge geral e é mais rentável para o sistema.

Entrevista realizada por Gabriel Silva e Heloisa Yoshioka em 05/01/2020.

2 Comentários

  • Dirceu Franco Ferreira disse:

    Sou estudante de doutorado com pesquisa sobre as prisoes em Sao Paulo nos anos 70. Gostaria de trocar uma ideia com o Mc Kric. Como posso contacta-lo?
    Obrigado.
    Dirceu Franco Ferreira

  • Sidney neri fonseca disse:

    Hola boa noite sou sidney acessor do kric descupa todo esse tempo para responder .c estiver interessado em falar com ele vou manda meu zapp eml .obrigado boa noite .11959290661 ..

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