Nota da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio em apoio a revolta contra a violência do Estado nos EUA.

A Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio é uma articulação de organizações de diferentes territórios de São Paulo. Entendemos que espaços como a Rede são de fundamental importância para a luta contra a violência policial racista e para construção da autodefesa da classe trabalhadora como um todo.


A revolta contra a violência policial que ganha as manchetes em todo mundo podem ajudar a dar novo fôlego à luta contra o genocídio no Brasil, onde apesar de policia racista ter matado 17 vezes mais negros que nos EUA em 2019 (e a policia tem matado mais em 2020!), praticamente não houve menção a essa realidade nos posicionamentos das organizações politicas em relação aos acontecimentos recentes. Esse silêncio faz essa nota da Rede ter grande valor por ser uma das raras vozes nessa conjuntura a dar atenção à luta contra o genocídio terrorista realizado pelo Estado policial no Brasil, em curso já há tempos.


Ressaltamos que tanto o nosso posicionamento como o da Rede ainda se focam excessivamente em São Paulo, sendo a articulação nacional dessa luta um dos nossos muito desafios.

Nota da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio em apoio a revolta contra a violência do Estado nos EUA.

Desde o dia 25/05, a partir do assassinato absurdo de George Floyd por um policial em Minnesota nos EUA, protestos contra violência policial racista se espalharam por mais de 145 cidades de todo país. Apesar da forte repressão, eles continuam crescendo a cada dia, de forma que essa já é a maior revolta popular nos EUA desde 1968 quando explodiram motins urbanos em todo o país após o assassinato do Rev. Dr. Martin Luther King Jr.

Expressivos protestos de solidariedade contra a violência racista dos Estados também aconteceram nesse último fim de semana por diferentes cidades do mundo, como Rio de Janeiro, São Paulo, Tokyo, Jerusalém, Berlim, Paris, Londres e Toronto.

No Brasil a violência racista do Estado e do Capital tem se expressado tanto pela imensa quantidade de pretos, pobres e periféricos deixados morrer na pandemia – sem poder fazer quarentena por não disporem de uma política de renda mínima real e sem acesso a um serviço público de saúde adequado – quanto pela intensificação do genocídio provocado pelas forças policiais.

Apenas para citar alguns casos recentes acompanhados e denunciados por essa de Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio:

No 20/05 foi assassinado pela polícia o Rodrigo Cerqueira, 19 anos, enquanto trabalhava como vendedor ambulante.

No dia 21/05 foi assassinado o jovem Gabriel Silva Dantas, 15 anos.

No 22/05 foi assassinado o jovem Juan Oliveira Ferreira, 16 anos, na sua própria casa por um policial.

Em 17/03 Felipe Santos Miranda, 18 anos, que é negro, e Brayam Ferreira dos Santos, 16, foram mortos a tiros.

No dia seguinte, 18/03, Igor Bernardo dos Santos, 17, foi também morto a tiros na mesma região.

Cauã Alves de Almeida, 16 anos, que levou um tiro no rosto, chegou a ser hospitalizado, mas morreu.

Um grupo de policiais militares de São Paulo deixou dois jovens, Ni e Ruan, baleados sem atendimento médico na rua em Osasco. Os dois morreram. Pessoas que presenciaram a ação policial revoltadas com a falta de socorro, começaram a protestar reivindicando que os meninos fossem socorridos, a polícia reprimiu a multidão com muita violência e bombas de gás.

E David Nascimento dos Santos, 23 anos, assassinado na noite de sexta-feira (24/4), depois de ser abordado por PMs e colocado numa viatura do 5° Baep (Batalhão de Operações Especiais), moradores da Favela do Areião, no Jaguaré, zona oeste da cidade de São Paulo, sentem medo.

Há tambem os casos de Igor, menino de 16 anos morto pela polícia com o tiro na cabeça. O de Kawan, da Vila Alba, adolescente de 16 anos que às nove da manhã foi assassinado com o tiro na cabeça. Igor, Felipe e Kawan assassinados na Cidade Tiradentes. David que foi raptado por policiais e assassinado, quando estava esperando uma entrega em frente de sua casa, no Areião, Jaguaré. E o Adriano Mariano de 17 anos assassinado na Cidade Tiradentes.

A dupla Bolsonaro e Dória tem estimulado uma ampliação sistemática da violência policial em São Paulo. Segundo os dados oficiais (obviamente subnotificados) da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, nos primeiros três meses deste ano, a PM matou 255 pessoas, isso é, a cada oito horas e meia um policial militar do Estado de São Paulo mata uma pessoa em ocorrência posteriormente registrada como “morte decorrente de intervenção policial”, é a maior taxa de letalidade da série histórica divulgada pelo Governo Paulista, iniciada em 1996.

A Rede faz cotidianamente essa luta contra a violência policial junto às comunidades, mas infelizmente sabemos que a maior parte da chamada “esquerda brasileira” que está empolgada com os acontecimento nos EUA raramente participa dessa luta. Os assassinatos policiais na quebrada se perdem nas estatísticas, as ações de solidariedade com as familiares são raras, os protestos de familiares que ocorrem periodicamente nas periferias são normalmente ignorados pelas principais organizações e partidos políticos. É preciso que no Brasil também haja solidariedade entre diferentes setores para podermos estar a altura de mudar essa situação de genocídio atualmente em curso que vivemos. Quebrar o isolamento da luta contra o genocídio é urgente e os acontecimentos que reverberam a partir de Minnesota mostram que isso é possível!

Que a revolta que começou em Minnesota seja no Brasil uma convocação para todos da urgência e possibilidade real de avançar na luta contra a violência do Estado racista. Precisamos ampliar nossa luta por todos os meios necessários para demonstrar que aqui também não mais toleraremos a violência policial racista. A luta contra a violência do Estado é global e esse é o momento de fortalecermos nossos laços nessa luta! Por George Floyd, Rodrigo Cerqueira, Gabriel Silva Dantas, Juan Oliveira Ferreira e tantos outros.

São Paulo, 02/06/2020.

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