Entrevista “Cavalo Doido” – Entregadores de carga leve.

Entrevista com trabalhadores com fretes de carga leve até 3/4. Essa entrevista faz parte da primeira edição do jornal “Cavalo Doido”, surgido recentemente para organizar os entregadores na luta por seus direitos. O termo “Cavalo Doido” é a forma como os entregadores desse setor chamam a si mesmos, assim como a expressão “cachorro louco” é usada para se referir aos motoboys.

A greve dos caminhoneiros de 2018 e as recentes mobilizações de motoboys tem sido grandes fontes de inspiração para os entregadores de carga leve, que não tem seus direitos respeitados, sendo mais precarizados que os caminhoneiros apesar de também apresentarem algumas de suas ambiguidades. Os entregadores de carga leve são os principais responsáveis por abastecer supermercados, açougues, restaurantes, farmácias, etc. Sendo portanto uma categoria estratégica para o funcionamento da cidade.

Quais são os principais problemas no dia-a-dia do trabalho?

Os principais problemas são na hora de descarregar o caminhão. Nós temos dias que ficamos 5 ou 6 horas em único mercado esperando. Aí o caminhão fica sendo usado como depósito, fica parado lá na porta do mercado. Por lei a gente pode ficar até cinco horas ancorados aguardando descarregamento, só que dai eles são obrigados a pagar essa hora parada, e até agora ninguém nunca recebeu esse valor, mesmo sendo lei.

Além disso, somos obrigados a guardar mercadoria no estoque. Nosso trabalho deveria ser descarregar o caminhão, conferir e tchau. O mercado teria que contratar outro funcionário para guardar no estoque. O que acontece é que o motorista e o ajudante tem que guardar tudo no estoque ou na câmara fria, assim a gente acumula a função de motorista, ajudante, entregador e estoquista e não recebe por isso. Nisso os grandes empresários aí utilizam da nossa mão de obra pra ser estoquista de mercadorias de graça pra eles.

Em muita empresas eles querem que a gente carregue as mecadorias na câmara fria. Daí imagina, você trabalha dirigindo no calor, no carro quente, daí você chega pra descarregar e tem que entrar na câmara fria de -30 graus, -40 graus. Isso ocasiona choque térmico, você pode até morrer lá dentro, destrói sua saúde!

Tem uns que querem mandar, querem que a gente guarde tudo dentro dos estoque deles do jeito deles. Eu já acostumei mas tem horas que a gente sai da linha com certos clientes. Isso daí muitos entregadores reclamam, mais fala ai, o que eu posso fazer? Já teve dia que eu me recusei e ameacei a levar a carga de volta. Se todo mundo fizesse isso ai, o pessoal ia mudar de postura. Tem vez que a gente tem que subir escada, mais de 30 caixas de carga, é cruel. E não era pra ser parte de nosso trabalho isso, era pra ter funcionário, do mercado.

Como está a situação dos entregadores durante a pandemia?

Durante a pandemia teve aumento da demanda, da carga horária e das notas fiscais. Ao invés de ser mais rápido, tá demorando ainda mais. O entregador fica na rua, não tem lugar pra comprar nada pra comer, não tem marmitex, tem que se virar. Os entregador é tratado que nem animal, que nem cachorro, pelos clientes donos de mercados e de açougues. Isso porque depende de nós, por que se nós não levarmos o produto ele não vende. Tem que ser sangue nos olhos pra encarar.

Tá tendo bloqueio na entrada de várias cidades, inclusive tem havido multa por falta de uso de máscara. Em muitos casos o agente de segurança deixa o motorista passar e depois chega a multa, o que dá a impressão de que tem muita corrupção envolvida. Alguns motoristas tão entrando com recurso na justiça contra essas multas, outros tão só pagando e seguindo o trabalho.

Teve um colega próximo que recentemente adoeceu, tem relatos de motoristas que morreram, inclusive um relato de um motorista que o pai morreu e ele entrou em depressão.

O que vocês acham da ideia do jornal?

Acho essa ideia muito boa para fazer denúncias e começar uma associação dos cargas leve. O canal da Gi tem denúncia, o canal do Chorão tem denúncia, mas o carga leve não tem nada. Os de carga pesada está muito mais avançado na articulação, direitos, e os cargas leve não.

Como são os boicotes que os motoristas fazem?

Quando tem empresa que não paga, vai pro grupo boicote, daí a gente não carrega. Nós já fizemos boicote com a empresa Danone, a Marba e algumas outras ai… O resultado é que as empresas ficam com medo, então quando uma empresa começa a enrolar, às vezes é só ligar lá e a empresa já faz o certo na hora com medo do boicote. Porque se tem o boicote eles ficam sem mercadoria, aí é prejuízo pra eles. 

Uma outra grande reclamação da categoria é o preço do diesel, o que vocês acham disso?

Eu vejo assim: não adianta querer abraçar tudo de uma vez só, tem que ir aos poucos, que o diesel já envolve governo estadual e federal. Eu acredito que temos que dar um passo de cada vez, pra gente atuar em relação ao preço do diesel a gente tem que estar mais inteirado de qual é o valor de produção na refinaria, de impostos, não é só dizer tá caro, temos que pensar: tá caro por quê? Entendeu? Senão é uma coisa muito imatura, precisamos nos organizar mais pra conseguir avançar nisso.

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