Quanto vale as nossas vidas para USP?

1. A situação de estudantes cruspianos

Desde a “crise fiscal” declarada pela Universidade de São Paulo (USP) em 2014, a universidade pouco tem feito pela ampliação de políticas de permanência estudantil.[1] Pelo contrário, ao invés de melhorar, o que vem se presenciando é um processo contínuo de degradação da infraestrutura do Conjunto Residencial da USP (CRUSP), destinado a estudantes de baixa renda. Essa degradação está associada com a redução do quadro de funcionários encarregados de realizar as manutenções necessárias do CRUSP, a intensificação do trabalho de funcionários que não foram demitidos e a precarização via terceirização. Essas mudanças no quadro se devem aos programas de PIDV (Programa de Incentivo à Demissão Voluntária) realizada pela reitoria justamente para cortar “gastos” e que foi responsável pela demissão de mais de 3600 funcionários.[2]

Em uma de suas declarações, o atual reitor, Vahan Agopyan, em entrevista ao Jornal UOL, declarou que a Universidade não deveria assumir um papel “assistencialista” que, supostamente, ela vinha assumindo cada vez mais em decorrência da aprovação das cotas. Segundo ele, esse aumento do seu papel “assistencialista” estaria expresso nos números de parte do orçamento da universidade destinado à permanência, que teria passado de R$ 170.724.142,00 em 2013 para R$ 217.378.575,00 em 2017.[3]

Contudo, na contramão dos altos gastos, apresentados com pouca transparência na execução orçamentária, o que se percebe nesses últimos 6 anos é.uma intensiva piora nas condições de permanência de estudantes pobres e negros na USP. Um teste empírico pode ser feito simplesmente andando pelo CRUSP, entrando em suas cozinhas, lavanderias, olhando para a estrutura dos prédios, e percebendo facilmente que não está sendo feito o básico: a manutenção da infraestrutura do CRUSP. A paisagem, dessa forma, é de lavanderias sem funcionamento, cozinhas com fogões sem bocas, pias sem torneiras, prédios com rachaduras, infiltrações e com constante falta de água em blocos inteiros.

Situações marcantes da história da residência estudantil também contrastam com os muito gastos mencionados pelo reitor. Basta lembrarmos que, em setembro de 2017, um apartamento do CRUSP no Bloco G pegou fogo. Na ocasião, o alarme de incêndio além de demorar para ser acionado, quando disparou, o seu som foi tão baixo que não permitiu que os moradores ouvissem e evacuasem o prédio. O apartamento que pegou fogo, aliás, não continha velas acesas, incensos, fogão ligado ou qualquer tipo de chama que pudesse ocasionar um incêndio. Sendo assim e, levando em consideração a ocultação da Superintendência de Assistência Social da USP (SAS) sobre os resultados da perícia feita acerca da tragédia, tudo levou a crer que o que ocorreu estava relacionado com a precarização da infraestrutura.[4]

Outro fato marcante foi a retirada, em 2019, do passe estudantil de moradores do CRUSP, o que significou, na prática, inviabilizar estágios, realização de disciplinas fora do campus e de acesso à cultura em geral.[5] Quer dizer, a USP, na prática, desmontou o seu tripé estruturante que consistia em “Educação, Pesquisa e Extensão” para estudantes pobres.

Outro exemplo histórico, por fim, é sobre a ampliação do acesso à Universidade pela aprovação das cotas que não se deu com uma contrapartida na ampliação do número de vagas do CRUSP para atender o aumento na demanda por moradia, conforme mostram os dados adquiridos por meio da Lei de Acesso à Informação sobre os pedidos por moradia e as vagas concedidas atenção para o fato de esses dados serem anteriores à aprovação das cotas):

AnoInscritosVagas Concedidas
20152483227
20163057230
20173832165

Esse processo de precarização configurou o cenário do CRUSP ao longo da Pandemia. A USP pouco fez: não providenciou manutenção das cozinhas, lavanderias e nem a instalação de internet. As marmitas, além de serem feitas por trabalho precário das terceirizadas, são igualmente precárias do ponto de vista nutricional[6]. Os modems disponibilizados demoraram para chegar, fazendo com que muita gente tenha perdido boa parte das suas aulas. Os suportes de álcool em gel instalados no início da pandemia encontram-se vazios há meses. Assim, não ocorreu nem mesmo a manutenção das medidas sanitárias adotadas no início da quarentena pela Reitoria.

Assim, contrariando o discurso do Reitor de que houve ampliação das políticas de permanência, discurso que alimenta outros ainda mais estúpidos como os que responsabilizam os próprios moradores pela precarização, o que se verifica é uma precarização politicamente assistida, isto é, que causadas pelas medidas de austeridade adotadas pela USP a partir de seus órgãos de deliberação, como o Conselho Universitário, e que abre caminho para a expulsão seja direta, na medida em que há um papel ativo da SAS na perseguição e ameaça de estudantes que moram de maneira irregular na moradia, dada a falta de vagas, e de estudantes regulares, que são ameaçados por acolherem estudantes ingressantes que precisam de moradia[7]; seja indiretamente, tornando inviável morar no CRUSP dado sua precariedade, conduzindo à evasão.[8]

O descaso com a vida de seus estudantes pobres, por fim, se mostra patente com a decisão arbitrária da USP de sediar, dos dias 19 a 24 de Novembro, o Boat Show, maior evento náutico da América Latina, destinado à venda de barcos que chegam à 30 milhões de reais e que irá atrair cerca de 30 mil visitantes. A USP ganhará 400 mil reais para sediar o evento, enquanto o lucro do evento é previsto em 260 milhões de reais.

2. Precarização do trabalho em plena quarenta: neomalthusionismo uspiano?

Em plena pandemia, a USP apertou o torniquete de suas trabalhadoras e trabalhadores, sobretudo os terceirizados. A USP, em agosto, anunciou o corte de cerca de 25% dos contratos com as empresas terceirizadas.[9] O que significou que muitos trabalhadores perderam seus empregos em plena pandemia. Além disso, os que ficaram, foram submetidos a um trabalho mais intenso e precário, sem EPI’s (Equipamentos de Proteção Individual) adequados. Além disso os trabalhadores de segurança da empresa Albatroz estão tendo que fazer jornadas extras sem aumento da sua remuneração. Em decorrência das demissões, além de fazer a segurança das portarias, estão fazendo a segurança do CRUSP e, ainda pior, são também obrigados a fazer a segurança do evento BOAT SHOW, uma farra para venda e exposição de barcos e helicópteros de luxo. Segundo relatos de trabalhadores do evento, eles tiveram que trabalhar sob chuva, sem banheiro, entre a margem do rio e a marginal pinheiros, e sem nenhum equipamento de proteção adequado.

Chamamos todas e todos para o boicote desse evento, para dar visibilidade à situação humilhante e degradante de estudantes pobres e trabalhadores da USP e para que a USP tome uma atitude efetiva no que diz respeito à manutenção da infraestrutura do CRUSP. Estamos na segunda onda do COVDI-19 e quem mora no CRUSP continuará sem ter como lavar roupa, cozinhar, sob risco de ficar sem água para lavar as mãos, dar descarga e tomar banho?

Pela manutenção da infraestrutura do CRUSP: Cozinhas, Lavandeiras, manutenção hidráulica e elétrica. Pela devolução dos Blocos de moradia K e L, subocupados pela burocracia da USP.

Epicentro da Revolta – USP

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Notas:
[1] http://g1.globo.com/educacao/noticia/2014/06/apos-expor-crise-usp-vai-contratar-empresa-para-auditoria-financeira.html

[2] Demissões Voluntárias em Massa e pacote fiscal arrebentam a USP. In: https://www.adusp.org.br/files/revistas/61/9.pdf

[3] Usp Não é entidade assistencialista- diz novo Reitor. https://educacao.uol.com.br/noticias/2018/02/01/usp-nao-e-entidade-assistencialista-diz-novo-reitor-sobre-ajuda-a-cotistas.htm

[4] Fogo destrói apartamento no Bloco G do Crusp. http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2017/10/fogo-destroi-apartamento-no-bloco-g-do-crusp/

[5] Moradores do CRUSP perdem direito ao Passe Livre e o desconto na tarifa: http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2019/03/moradores-crusp-direito-passe-livre/

[6] Esta é a marmita que a USP oferece aos alunos pobres durante a pandemia: https://theintercept.com/2020/11/09/pesquisa-inseguranca-alimentar-fome-crusp-usp/

[7] Confira o vídeo denúncia sobre isso: https://www.youtube.com/watch?v=UA7LAuLUb4c&fbclid=IwAR0I_bQlGthLRfn27qzmyb2WPU3BkTc_HhMR6z79_gDnGjdwCj2eghWzwwk

[8] Ver sobre isso, uma matéria do Jornal do Campus, p. 6: https://issuu.com/jornaldocampususp/docs/p_gina01-mesclado

[9] https://www.esquerdadiario.com.br/USP-demite-centenas-de-terceirizados-por-uma-campanha-nacional-contra-as-demissoes-nas

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