Do luto à luta: Entrevista com Dona Hilda

O recente período dito democrático, foi marcado pela continuidade do uso sistemático da violência de Estado contra as populações pobres, pretas e periféricas, de forma que os agentes do Estado que promoviam sequestros, torturas e execuções na ditadura empresarial-militar continuaram exercendo essas práticas no período dito democrático, apenas tornando seu uso mais focalizado nos setores que despertam menos solidariedade e utilizando novos pretextos como as políticas de guerra às drogas e encarceramento em massa. Neste contexto, emergem movimentos de familiares de vítimas da violência do Estado como as Mães do Acari  (surgido no Rio de Janeiro na década de 90 após o massacre de 11 jovens no que ficou conhecido como Massacre do Acari) e as Mães de Maio (surgido a partir da chacina de 564 pessoas ocorridas em maio de 2006 em diferentes cidade do Estado de São Paulo). Os relatos que iremos apresentar a seguir se inserem nesse contexto,  não como histórias de exceção, mas como casos exemplares de como a vida é tratada na história recente do país. 

Dona Jadeci e Dona Hilda

No dia 13 de setembro de 2020, quando o assassinato de Alexandre completou 16 anos, mãe e tia trouxeram histórias e memórias dos seus filhos. O primeiro filho, Jefferson, faleceu em 2001 pela infração de trânsito de uma empresa de ônibus. O segundo filho, Alexandre, foi assassinado em 2004 pelo braço armado do Estado. 

Em relato, a mãe conta a história do filho Alexandre, desde o nascimento até a sua morte. Dona Jadeci conta que na sua casa era tudo alegre com a presença dos filhos. Jefferson, Alexandre e alguns amigos cantores de funk se encontravam e criavam músicas. “O estilo dele (Alexandre) era esse, ele gostava daquele sapato tudo da moda, ele gostava de usar aquelas correntes grossas né, gostava muito de bombeta, gostava de perfume, o Kaiak, tudo dele tinha que ser de marca. Ele gostava muito de camiseta Polo, sabe?” 

Dona Hilda conta que o seu sobrinho Alexandre sempre foi vítima de racismo e da violência policial na sua comunidade. Em 2004 Alexandre foi preso de forma forjada e ilegal por policiais militares. Na saída do baile, os policiais fizeram sua prisão acusando-o de assalto. “Houve um assalto na Vila Formosa, onde a pessoa tinha o carro idêntico ao dele, mas o dele era de outra cor, mesmo assim ele ficou quase 8 meses na 41 e depois foi para 49 preso. Eu gritava na porta do presídio: ‘Xande, Xande, Xande…’ Aí o carcereiro olhava e falava assim pra mim: ‘É…a senhora vai cansar de ficar gritando!’ Depois ele saiu pela porta da frente. O juiz viu que ele era inocente e que não tinha cometido o crime!” 

Dona Hilda, antiga militante do “Movimento das Mães da Leste” e “Pelo fim da impunidade que se busca” hoje luta por memória e justiça ao lado irmã Jadeci. Publicamos aqui a primeira parte da entrevista com a Dona Hilda e futuramente publicaremos a  segunda parte da entrevista com a Dona Jadeci. “Quando tiram a vida do nosso filho, eles estão levando a nossa também. A gente fica faltando um pedaço. Eu estou faltando dois pedaços. Eles deixam a gente vazia, a gente fica vazia. Quando o nosso filho morre, a gente morre junto com ele!”

Alexandre Roberto Azevedo Seabra da Cruz – Nascimento 26/08/1980 está nos braços de Deus 13/09/2004 

Saudade sem fim, te amo meu anjo.

Sinto o cheiro do seu perfume, saudade dos seus beijos, seu andar carinhoso que parecia que andava sobre as nuvens, sorriso de criança, dançava e chegava a flutuar no ar.

Hoje meu menino é uma linda estrela que brilha no céu iluminando a terra

A vida me ensinou a dizer adeus às pessoas que amo sem tirar do meu coração

Assinado Hilda

Dona Hilda

NR: Você pode começar se apresentando?

Dona Hilda: Eu sou Hilda, mãe e tia do Alexandre, que é uma das vítimas pela mão da polícia. Hoje eu estou com 61 anos e sou moradora da Vila Carrão na Zona Leste faz 40 anos.    

Dona Hilda: Eu saí do Pernambuco quando eu tinha 15 anos. Eu vim pro Rio de Janeiro para trabalhar na casa de família de uns libaneses, inclusive foram eles que pagaram a passagem para eu e minha irmã vir. Aí nós aproveitamos e viémos porque nós tínhamos que encontrar duas tias nossas perdidas a mais de vinte anos. Minha avó não sabia como encontrar essas tias, e ela tinha muitas saudades. Então veio eu e minha irmã, eu tinha 15 ela tinha 14. Nós ficamos no Rio de Janeiro dois anos, a cidade linda e maravilhosa, nós fomos muito felizes. Aí depois de dois anos nós encontramos nossa tia, encontrando nossa tia, aí meu irmão veio de Pernambuco para São Paulo e como ele era mais velho e nós duas de menor, ele foi até o Rio de Janeiro e resgatou eu e minha irmã e trouxe para São Paulo. 

Eu cheguei aqui em São Paulo com 17 anos no dia 30 de outubro de 1997, também é uma cidade linda e maravilhosa, eu gostei muito de São Paulo, inclusive, estou aqui até hoje. Pra mim São Paulo é minha cidade, a minha cidade Natal é São Paulo. Aqui construí a minha família, aqui eu fiz minha vida, e aqui é onde eu também sinto dor de muitas perdas e luto também a favor sempre das pessoas mais pobres e humildes como eu das periferias e das comunidades. Aos 17 anos trabalhei aqui em São Paulo e eu e minha irmã moramos juntas, nós nunca nos separamos, é eu e ela. Aonde ela vai eu vou, aonde eu vou ela vai.Foi quando a minha irmã foi trabalhar em um restaurante Juventu, e lá no restaurante ela conheceu o Juracir, achei muito lindo a atitude dos dois. Juracir um chefe de cozinha e minha irmã Jadecir uma saladeira. Na época eu tinha os meus 18 anos e minha irmã os seus 17 anos. Aí ela conheceu o Juracir e engravidou do Alexandre. E nós duas junto, trabalhando e morando junto aqui no Carrão. Nós acompanhamos a gestação dela e foi muito bonita. Aí eu fui trabalhar na firma e chegou a hora da minha irmã dar a luz. Ela sentiu a dor do parto e foram na firma me chamar: “Dona Hilda, a sua irmã foi pro hospital Cristo Rei ganhar o bebê”. Aí aquele dia, foi o dia mais feliz da minha vida. Foi uma alegria tão grande, grande mesmo, eu saí correndo da firma para visitar a minha irmã no hospital, quando eu cheguei lá, já estava meu sobrinho e filho Alexandre. 

Já tinha nascido o Xandinho. Aí eu peguei o Xande no braço, aquele menino lindo, menino da tia. Abracei ele, aí ficamos conversando eu e minha irmã, aí minha irmã recebeu alta e viemos para cá com o meu sobrinho no braço, bebezinho, recém nascido, tinha acabado de nascer. Eu trouxe ele pra nossa casa e ali nós cuidamos do Xande eu e minha irmã. Ele cresceu, nós duas acompanhamos ele engatinhar, ele andar, ele chamar a primeira palavra de mamãe. Ele engatinhou, eu ensinei ele a andar. Estava cada dia mais lindo.Eu tirava muitas fotos dele nos parques e nos jardins. Aí o Xande cresceu e foi fazer a primeira série. Na época não tinha creche a gente tinha que trabalhar pra pagar alguém pra tomar conta do Xande, ela se chamava dona Maria, nós pagamos para a dona Maria tomar conta dele enquanto nós duas trabalhávamos. Apesar do Xande ser tão lindo, a dona Maria queria pegar o Xande pra ela, entendeu? Ela queria o Xande pra ela. A gente falava não, o Xande é nosso. Você só cuida dele para nós trabalhar e nós estamos pagando a senhora. Um dia, a dona Maria fez aniversário do Xande na casa dela e convidou todo mundo porque ela queria ficar com o menino. E nós brigávamos! Falávamos não, ele é meu sobrinho e explicava que nós não estávamos dando o menino.

BR: Vocês ficaram com medo da Dona Maria pegar o menino para ela?

Dona Hilda: Isso! Então nós desistimos dessa dona Maria e arrumamos outra pessoa para cuidar do Xande. O Xande cresceu. Ele ia para a escola no Irene Ribeiro, fez a primeira série, às vezes ele não gostava de ir para a escola. Eu corria o pátio do Irene Ribeiro todo atrás do Xande para ele ir para escola. “Xande vai para escola!” “Ai tia, eu não vou!” “Xande vai para escola!” “Você tem que ir estudar é importante!” “Se é assim eu vou.” Mas só depois que eu corri todo o pátio da escola para pegar ele. Ele estudou no Irene Ribeiro na primeira, segunda e terceira série.

Aí quando o Xande completou mais ou menos os seus 15 anos, nós fizemos o batizado dele. Eu fui a madrinha junto com meu irmão, batizamos o Alexandre, aí depois o Alexandre veio morar na minha casa. Quando o Alexandre completou 16 anos ele achou que deveria voltar para viver com a mãe, mas mesmo assim ele ficou junto, mas aí ele foi morar com a minha irmã e sua família no Jardim Colorado. Mas eu continuei cuidando do Alexandre e dela. Ele começou a trabalhar, ele trabalhava como Rebitador de calça jeans em uma fábrica com o branquinho. Aí quando o Alexandre morava junto com o branquinho na minha casa,eu tava fazendo minha mudança, aí eu peguei minha mãe que morava comigo naquela época pra ficar na casa da minha irmã no Jardim Colorado. Naquela época o Xande trabalhava e eu ajudei ele e o irmão a comprar um carro, uma Brasília amarela. No dia da mudança, ele foi buscar o remédio da minha mãe que nós esquecemos, aí ao invés dele ir de carro, eles foram com uma moto emprestada do amigo. Eles foram de moto os dois, o Xande e o branquinho buscar o remédio da minha mãe. Eu morava próximo do terminal Carrão, aí quando chegou ali, na João XXIII, virando para pegar a Dezenove de Janeiro com a Evangelina, saiu um ônibus do terminal Carrão com tudo e não deu seta. E como eles iam saber que aquele ônibus ia virar na Evangelina? Aí conforme eles foram, o ônibus foi também e pegou a moto. Saiu arrastando a moto com o Xande e o Branquinho. Todo mundo gritando: “Para motorista! Para motorista!” e o motorista não parava! Quando o motorista parou, já tinha matado o Jefferson que era o branquinho, irmão do Xande. Aí ficou o branco lá e o Xande  ficou embaixo da roda, mais um pouquinho a roda passava em cima do corpo dele. Aí tinha uma oficina mecânica do lado, os mecânicos vieram com o macaco, puseram lá e levantaram com o macaco e puxaram o Alexandre com vida. Chamaram o resgate e levaram ele pro hospital Santa Marcelina. Mas nisso o Branquinho estava sem vida lá trás do ônibus. Cobriram o menino com uma lona. E a moto ficou na traseira do ônibus. E na moto estava escrito assim: “Nóis capota, mas não breca!” por causa dessa mensagem houve muita polêmica. 

De casa nós vimos muitos helicópteros passando, os carros parando e eu morava vizinha, eu falei: “nossa, houve um acidente! vou ver que acidente é esse.” Aí eu e meu marido descemos e viu o que estava acontecendo. Tinha muita gente aglomerada, comentando o que tinha acontecido, que tinha dois motoqueiros e o ônibus arrastou os dois motoqueiros, que um morreu na hora e o outro estava no hospital. Que o motorista e o cobrador fugiram e foram os passageiros que gritaram e pediram para resgatar as pessoas que estavam em baixo. Nisso chegou os responsáveis pela empresa, eu me aproximei e perguntei para o rapaz que estava no telefone: “Moço, e a família do menino? a família já chegou?” Aí ele falou: “Ainda não, nós estamos localizando.” “Um nós enviamos para o hospital e o outro infelizmente está morto.” Aí eu olhei assim para o pé, olhei o sapato, ele estava coberto com a lona. Eu não vi o rosto, eu vi o sapato. Eu olhei o sapato e pensei: “Nossa esse sapato é igual do branquinho. que eu dei para ele, é igualzinho, é o pé do branquinho, mas não é meu sobrinho!” Aí eu decidi ir para a casa com meu marido porque daqui a pouco o IML (Instituto Médico Legal) ia buscar o corpo. 

Eu sou uma pessoa evangélica, eu confio muito em Deus. Deus naquele momento nos deu força, nos orientou, para que nós não víssemos o corpo que era do Branco, do meu sobrinho, porque se eu visse aquele menino, na hora eu tinha ido junto com ele porque eu não ia aguentar. Eu ia cair em cima do meu sobrinho. Aí eu fui pra casa. Quando deu onze horas da noite minha irmã liga: “Dunga, pega o documento do Xande e o documento do Branco, porque os dois  sofreram acidente de moto e eu tenho que ir na delegacia levar os documentos. Aí eu lembrei: “O Branco morreu!”. A avenida conselheiro Carrão pra mim foi pequena, eu saí aos gritos, isso na morte do Branco de moto. Fui correndo e quando eu chego na delegacia a primeira coisa que eu vi foi a moto: “Nois capota, mas não breca!”. Depois nós fomos de carro para o hospital Santa Marcelina ver o Xande que tinha sido socorrido. Nós fomos no carro cheio de gente, eu minha irmã e a família visitar o Xande, mas nós não pudemos entrar porque ele estava em cirurgia. O asfalto raspou o cabelo dele, ele ficou sem cabelo, raspou os braços, ele ficou sem pele. Quebrou a clavícula e ficou com problema em um olho. Aí depois da visita nós voltamos umas duas horas da manhã no carro. Você acredita que na hora que nós estávamos voltando pra casa nós fomos enquadrados por uma viatura? Aí os policiais da viatura perguntaram: “Para onde vocês vão?” “Nós estamos vindo do hospital! Nós acabamos de perder um sobrinho no acidente de moto aqui no terminal Carrão e fomos ver o outro que estava no hospital Santa Marcelina!” Aí o policial disse assim: “Tudo bem, eu sei que aconteceu esse acidente, então vocês podem ir sossegados.” Aí quando a gente estava chegando, outra viatura enquadrou! já desceram com a arma em punho. “Desce do carro todo mundo! Se não nós vamos atirar!” Nós tentamos falar e eles não quiseram ouvir. Os policiais da Força Tática não quiseram saber o que estava acontecendo com a gente naquele momento, foi preciso outro policial, que estava lá atrás falar: “Não! Essa família aí tá vindo de um hospital porque eles acabaram de sofrer a perda de um filho!” Eles apareceram para enquadrar o carro porque estava cheio e acharam que era tudo bandido dentro do carro. E tava eu e minha irmã de mulher chorando… Aí você vê o abuso da polícia! 

Aí passou. No outro dia nós fizemos o enterro do Branco. O Alexandre ficou em coma e perdeu a massa cefálica. Depois de um tempo o Alexandre recebeu alta do hospital e ele chorava: “Meu irmão! Meu irmão! Meu irmão!” todo enfaixado “Meu irmão! Meu irmão! Meu irmão!”. Depois nós começamos a lutar contra a empresa para punir o acidente de trânsito. Não era pra ficar impune aquele acidente terrível no terminal Carrão, onde um morreu e o outro sobreviveu ao acidente. 

Dona Hilda na concentração do ato Vidas Negras Importam Cidade Tiradentes, em julho de 2020.

Nessa época minha irmã morava em um prédio, próximo da comunidade Primavera, todos os amigos do meu sobrinho vieram visitar ele. Na frente da minha casa a polícia invade para saber o que estava acontecendo lá dentro. Meu sobrinho já começou a ser perseguido pela polícia desde a época do acidente que ele sofreu de moto. Aonde ele estava ele era enquadrado. Eu chegava a brigar com os policiais, porque eu não permitia isso aí, porque era um menino de família e trabalhador. Só porque o menino tinha umas manchas, devido ao acidente e andava de bombeta? “Porque ele andava de chapéu? Pra cobrir a cabeça porque não tinha cabelo!” Ele estava esperando o seguro para poder fazer um implante de cabelo. Ele andava de luva, porque a mão do menino não tinha pele. Ele também estava esperando o seguro para poder fazer um implante de pele. Os meninos vieram visitar ele na minha casa e tava tudo no meu portão. O policial vai lá e enquadra todo mundo alí. Aí eu desci e falei: “Que que é? os meninos não são bandidos, eles estão aqui para visitar meu sobrinho que sofreu acidente de moto.” “O senhor quer averiguar? eu autorizei ele entrar na minha casa para olhar.” Eles entraram e falaram: “É, tá muito feio, a senhora me desculpe, mas a gente tá aqui fazendo nosso trabalho.” Eu falei assim: “Tudo bem, você tá fazendo seu trabalho, mas desde que o seu trabalho seja longe da minha porta, porque eu estou na minha casa, isso é abuso de poder.” 

Depois que o Xande se recuperou ele foi pra casa da minha irmã, isso foi em 2001 para 2002. Aí em 2003 o meu cunhado não aguentou a dor e faleceu. Porque, na hora que nós conseguimos reabrir o processo do acidente que foi arquivado pela empresa de ônibus. Nós conseguimos desarquivar esse processo e meu cunhado pegou o processo da intimação e foi procurar o endereço do motorista para falar pra ele: “Olha, nós vamos ter justiça! O que você fez com o meu filho, não vai ficar impune.” Quando o meu cunhado chega no endereço não existia aquele endereço. Era uma firma abandonada. Alí mesmo meu cunhado sentiu a dor no coração, ele passou mal, socorreram ele e levaram para o hospital. 

NR: Qual o nome dessa empresa de ônibus?

D.Hilda: É Carvalho ônibus da linha São José. É uma empresa que tem muito dinheiro com 64 linhas de ônibus. Inclusive, a assistente social da empresa, disse que estava acostumada a visitar as casas de famílias, devido a acidente de ônibus com morte fatal. Que a única coisa que elas fazem é ir até a casa da família para saber se está precisando de alguma coisa e mais nada, mas nem o sepultamento eles pagam. Aí foi quando meu cunhado infartou. Ainda em 2003 teve a primeira audiência da minha irmã com a empresa do ônibus. Aí a juíza do caso falou assim: “É Dona Jadeci a senhora já perdeu dois, agora só resta a senhora e o Alexandre.” que só existia ela e o Alexandre.

Aí quando foi em 2004, foi que aconteceu uma tragédia com meu querido filho e sobrinho Alexandre pela violência policial. Mas antes disso, ele foi preso injustamente porque estava no salão de baile com os amigos. Houve um assalto na Vila Formosa, onde a pessoa tinha o carro idêntico ao dele, mas o dele era de outra cor, mesmo assim ele ficou quase 8 meses na 41 e depois foi para 49 preso. Eu gritava na porta do presídio: “Xande, Xande, Xande…” Aí o carcereiro olhava e falava assim pra mim: “É a senhora vai cansar de ficar gritando…!” Depois ele foi absolvido pelo crime. Saiu pela porta da frente.O juiz viu que ele era inocente. Nós contratamos advogados para tirar o meu filho da cadeia, mas até a própria vítima tirou a acusação porque não era ele. 

NR: Neste momento a senhora não teve apoio de nenhum movimento?

D.Hilda: Não o meu apoio era Deus e minha coragem de mãe, de tia e madrinha.

Como ele tinha essa leve passagem pelo sistema, os policiais achavam no direito de enquadrar ele, mas só que ele foi absolvido, entendeu? Ele era perseguido. Uma vez forçaram meu sobrinho a fazer raspagem o filme do vidro do carro. Porque ele não podia andar com o carro fumê porque ele morava no prédio perto da comunidade Primavera. 

Uma semana antes do meu sobrinho morrer eu estive na casa da minha irmã e foi a última vez que eu vi o Xande, “a coisa mais linda da tia”. Eu estava debruçada na janela do prédio da casa da minha irmã e estava vindo ele: com aquela calça branca que vocês estão vendo aí na fotografia, a bombeta dele aqui. Ele todo faceiro e eu: “Xande, a tia te ama, soltando beijos…!” com essas mesma roupa ele estava vindo e eu:  “Xande, a tia te ama.” e ele: “Eu também te amo.” Ele vinha da casa da namorada, e nesse horário estava tendo enquadro na comunidade Primavera, ele estava passando pelo meio.Você acredita, que ele na frente, eu dando tchau, atrás dele os policiais: “Mão na cabeça!” o Xande colocou a mão na cabeça e levaram meu sobrinho pro beco. Lá eles iam bater, espancar, fazer o que quisessem, porque é isso que eles fazem com as crianças no beco. Assim que eu vi, desci correndo, as escadas eram poucas para mim. Falei: “Não! Vocês não tão vendo? Você tão vendo o menino acenando e vindo na minha direção, pra minha casa, o que vocês querem com ele? ele tem família!” Aí sabe o que eles falaram pra mim? “Pode levar, dessa vez você teve uma defensora. Mas da próxima vez não vai ter defensora.”  Eu falei: “Tudo bem, na próxima vez, sempre vai ter defensor porque Deus é maior!” Eles agem aqui dentro das comunidades com abuso, eles invadem o barraco das pessoas, arrancam as crianças de dentro das suas casas,  matam, atiram nos meninos e jogam no rio baleado e o corpo fica lá, quando é a noite eles entram e fazem a maior chacina e ninguém fica sabendo de nada porque a mídia não chega até aqui, porque todos os casos de violência policial a gente só fica sabendo quando passa na mídia, e aqueles casos que a mídia não passa esconde o que os policiais fazem aqui dentro das comunidades. A casa da minha irmã era invadida direto pelos policiais porque eles não respeitam ninguém. Estava dentro de casa o meu cunhado, a minha irmã, o meu sobrinho dormindo na cama e eles derrubavam a porta e tiravam meu sobrinho da cama. Eles não tem respeito, eles acham que pode invadir. Só que eles tem que saber que, nós temos os nossos direitos! Eles não podem invadir uma casa sem ter o mandato de busca e apreensão. Se eles querem invadir todas as casas, eles tem que ter um mandato coletivo. Mas nas comunidades, nas periferias, pra eles não existe isso, porque a lei quem faz é eles.

A lei só funciona para eles…

Porque se nóis morássemos em bairro de rico, jamais eles invadiam as nossas casas. E isso tudo aconteceu antes da morte do Alexandre…

No dia 12 de setembro de 2004 ele foi para um salão de baile ali na Aricanduva. Eles foram para o Expresso Brasil o Alexandre, a irmã dele, o cunhado e as coleguinhas. Ele gostava muito de tomar Red Bull energético e ele só tomava isso. Neste dia ele não voltou pra casa e decidiu dar uma volta de carro com um colega dele. Depois disso, só quem pode falar o que aconteceu é só ele, mas ele morreu. Só ele pode responder o porquê ele foi fazer aquilo, sendo que ele não era um menino do crime. O rádio anunciou de um jeito, mas não foi desse jeito. 

O que aconteceu com ele?

No dia 13 de setembro, por volta de umas cinco horas da manhã, ele foi executado por 10 policiais da força tática na rua lateral. Ele foi fazer um assalto de um carro, mas cada um tem um destino diferente, ele estava acompanhado com outro rapaz, que até hoje nós não sabemos quem é, porque ele que tinha a arma, o meu sobrinho não tinha arma nenhuma. Ele simplesmente era o piloto e estava dirigindo o carro. O porquê ele foi assaltar um carro? Eles estavam próximo do Jardim Imperador seguindo a Rio das Pedras, na hora que ele vai chegando na Inconfidência Mineira viu uma casa e um casal saindo da garagem. Na hora que eles fecharam o portão eles deram voz de assalto “Nós queremos o carro!” aí a moça se assustou, deram o carro e ele entrou e foi embora. Nós não sabemos nada do outro rapaz. Aí a moça gritou pro esposo dela: “minha filha está no carro!”, mas a menina não estava dentro do carro, ela esqueceu que a menina dormiu na casa da avó dela. Em seguida eles ligaram para a polícia e avisaram que eles foram vítima de assalto e sequestro de criança. Então juntaram muitos policiais para perseguir o carro, porque havia uma criança. O pai da menina tinha uma arma guardada, ele pegou a arma e tinha uma moto, ele subiu na moto e também foi em perseguição do carro para salvar a filha. Mas a criança não estava no carro, foi um erro da esposa dele.   

O meu sobrinho passou na Rio das Pedras em frente a um posto de gasolina com o carro e o outro menino sumiu com o outro carro. Os policiais estavam mais ou menos a duzentos metros de distância, dava para eles pararem e fazer a prisão. Mas eles não queriam prender, eles queriam matar. Encurralaram ele na rua sem saída e mandaram ele sair do carro. Antes dele parar o carro, outro policial atirou nas costas dele, se a menina estivesse no carro poderia ter matado a criança. O primeiro tiro que ele levou foi nas costas. Os policiais abriram a porta do carro e voltaram a atirar. Aí o policial pegou a bombeta dele e cobriu o rosto do meu menino e “pá!!! no coração!” o tiro executou. Era tanto tiro nesta noite, que até os moradores se esconderam debaixo da cama.   

Depois que executaram o Alexandre, pisaram nele com as botinas e colocaram ele de volta dentro do carro, o rosto do meu sobrinho ficou cheio de marca. Neste dia foram duas mortes. A vítima, o pai da criança também foi assassinado pela polícia. Mataram ele no mesmo lugar que mataram o Alexandre. A polícia foi em uma padaria velha, pegaram um revólver velho, pra não dizer que tinha sido revólver da corporação para forjar.  A polícia ainda tentou forjar, colocaram a culpa no meu sobrinho, dizendo que foi o Alexandre que matou o pai da menina. 

BR: Conseguiram provar a inocência do Alexandre?

Exatamente, nós conseguimos provar. Nós tínhamos um movimento  “Lutamos pelo fim da impunidade e justiça!” que era um grupo de mães. Nosso objetivo era prender o assassino, porque nenhum crime pode ficar impune. Mas independente, se ele foi bandido ou não, deveriam preservar a vida do meu sobrinho e o local do crime. A prioridade deve ser a vida, depois ele responderia pelo crime. Se ele errou, ele ia para o presídio e aprenderia com o seu erro. Quando ele saísse do presídio, ele ia voltar e a família cuidaria dele, porque ele era um menino bom e honesto. Mas eles tiraram a vida do menino com 24 anos. Quando nós chegamos na delegacia, estava toda a família da vítima e a minha irmã procurando pelo filho. Eu estava no trabalho, e minha filha chegou na porta do meu trabalho e falou pra mim assim: “Mãe, o xande…” aí eu desmaiei. Naquele momento a minha vida tinha acabado, porque era o meu menino, que eu criei e não era pra sua vida ser levada com 24 anos pela mão da polícia, uma polícia despreparada, uma polícia violenta que ataca os pobres e negros.  Aí eu fui no IML, fizemos o sepultamento do Xande, fiquei na sala de velório, fiquei ali velando ele.  Ele foi acompanhado por um anjo. E eu sei que meu sobrinho hoje está no paraíso, porque eles machucaram o corpo do meu sobrinho. 

É por isso que hoje, nós entramos nesse movimento e nós lutamos pelo fim da impunidade. E graças a Deus, muitos policiais foram presos, porque também houve uma luta muito grande!

Como eu sofri muito pela perda do meu sobrinho, eu não saia do cemitério, todos os dias eu estava lá. O túmulo do cemitério dele era o mais bonito, porque eu estava ali todos os dias regando e plantando flores no túmulo do meu menino. Eu gostava de plantar rosas e cravos, no Natal eu fazia uma árvore e enfeitava, e deixava um pacote de sucrilhos pra ele. Eu tive depressão, eu fiquei esquizofrênica, eu perdi minha memória, porque eu não queria lembrar o dia de hoje, eu só queria lembrar do dia de ontem. Eu só lembrava o passado, porque foi o passado que eu vivi com ele. Eu não queria lembrar da morte dele. Eu passei por psicóloga, psiquiatra e tomava remédio controlado. Aí foi quando que a psicóloga me falou: “Dona Hilda, a senhora tem que se levantar!”. Neste momento eu também encontrei a família da vítima e a mãe da vítima, que era minha conhecida, mas eu não tinha coragem de chegar e falar pra ela que meu sobrinho que tinha roubado o carro. Mas no dia do acontecimento, ela falou uma frase para mim e foi essa frase que me fez levantar: “Quem me fez mal foi a polícia, não foi o assaltante. Porque a única coisa que ele queria, era o carro, só.Deveria ter prendido o menino, não assassinado o menino e meu filho.” Isso me deu uma esperança de luta! Foi nesse momento que eu me levantei e fui militar, mas eu não tive coragem de falar que eu era a tia do Alexandre, porque a gente tinha receio da família. Aí eu não tive coragem, mas ela aliviou a minha dor e foi aí que eu entrei na luta! 

Mas eu estava lutando com muitas mães, a gente ia para Paulista, a gente ia para julgamento e todos esses julgamentos a gente presenciava o Réu ser preso e a família ser punida. Porque essa era nossa luta, justiça que se busca! A gente lutava, entendeu? Então eu estava junto com a Márcia que é mãe da Bianca, com a Juraci que o filho dela foi morto por policial também e foi condenado, eu acompanhei porque eu era desse coletivo. Aí enquanto eu estava nesse coletivo, nós conquistamos a prisão dos policiais, eu junto com a família da vítima e eles ainda não sabiam que eu era a mãe e tia do Alexandre, vieram descobrir no dia do julgamento.Que nós éramos amigas de luta, que nós lutamos pela mesma causa. Nós entendemos que a vítima era o Alexandre e o pai da menina, e que os culpados eram os policiais. Só que ela ficou de um lado e eu fiquei do outro lado, sem poder se aproximar.

Depois desse dia eu encontrei a Márcia das mães da Leste na praça da Sé, porque eu era da Secretaria de Políticas Públicas para as mulheres, e nesse dia ia ter um ato contra violência da mulher, que era motivo da nossa luta também. A minha dor eu transformei em luta. E continua lutando pelos direitos das mães e do combate da violência policial. Nós sabemos que não vamos conseguir mudar o mundo de uma vez só, mas o pedacinho que nós mudarmos já é o suficiente. Foi aí que nós entramos na luta contra violência policial, descriminação racial, porque vidas negras importam! todas as vidas importam! e eu tenho muita fé que essa violência um dia vai acabar, porque o que eles fazem é errado, porque eles não tiraram só a vida do meu sobrinho, eles tiraram também a vida da família.A vida do tio, da tia, dos irmãos, dos avós, da namorada e da mãe que até hoje sofre. A dor de uma mãe que perde o filho é uma dor que não tem fim. A gente chora, eu estou conversando com vocês, mas eu estou me controlando. Porque hoje foi justamente o dia que eles tiraram a vida do meu sobrinho. Como eu tive justiça pelo meu sobrinho, eu sei que isso não trouxe ele de volta, mas eu senti um alívio no meu coração e no da minha irmã. Isso tudo só foi possível porque eu entrei na luta junto com outras mães e eu não quero que outra mãe sinta a dor que nós sentimos. Que a dor de uma mãe é dura e eu não quero que outra mãe tenha o seu filho arrancado dos braços. Os filhos perguntam: “O que eu te fiz?” foi o que aconteceu com o Douglas e continua acontecendo com outros meninos, por isso nós vamos lutar até o fim. Eu sou uma mãe da luta e acredito que nossos mortos têm vozes! 

Nós, Nara, Bruna, Jadeci e Hilda dedicamos esse primeiro relato em memória de Alexandre e Jefferson e do pai de Jefferson, que morreu de infarto em 2003, sem ver justiça para o filho. 

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