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08 fev 2021

Talita Nunes, da ocupação da São Remo, na USP

A seguir, entrevista com Talita Nunes, moradora da ocupação da São Remo, formada por maioria de mães, crianças e idosos que ocuparam no dia 29/01 um terreno abandonado da USP. Apesar de o terreno estar sem sem uso social a mais de 30 anos, o reitor Vahan Agopyan e seu superintendente José Antônio Visitin ameaçam de despejo pessoas sem-teto da São Remo em plena pandemia. E ao final incluímos um breve texto de contextualização. Todo apoio à ocupação da São Remo!

Você pode começar se apresentando?

Meu nome é Talita Nunes, eu tenho 25 anos, sou moradora aqui da São Remo faz 3 anos, porém eu ando aqui desde os meus 12 anos de idade. Tenho três filhas, uma de 10, uma de 8 e uma bebezinha de 1 ano e 9 meses.

O que motivou vocês a ocupar o terreno?

Por ele está abandonado. Desde que eu me conheço por gente aqui nunca foi nada, sempre com mato, com lixo, jogado, abandonado… Tem pessoa que é mais velha do que eu e diz a mesma coisa, que aqui nunca foi ocupado para nada, só acumulando lixo, achamos bichos, barata da terra, filhote de rato, ratazana, cobra aranha, aranha enorme…

Já tem gente morando no terreno?

Sim, tem bastante pessoas. Eu mesmo arrumei umas madeiras que eu vi jogadas em entulho de obra, que eu não tenho condições de comprar. Aí eu fiz com as madeiras, coloquei um sofá, coloquei um colchão e já tô dormindo aqui, já tô morando aqui. Hoje faz uma semana que eu tô aqui, desde segunda-feira. O terreno foi ocupado na sexta-feira passada, não nessa na outra.

Qual foi a resposta da USP até agora?

Pelo que a gente sabe, eles pediram uma ordem judicial à polícia, né? Pra polícia vir retirar a gente. Por enquanto eles ainda não vieram, veio dois policiais com um rapaz da USP –  não sei dizer o que ele é – tiraram fotos, andaram aqui por dentro, mas depois disso eles não falaram mais nada. Só tem essa questão de que um dia eles vão querer chegar aqui e tirar, mas até agora eles não chegaram e não falaram nada.

E de estudantes e professores, teve alguma reação?

Dos estudantes só. Eles tão ajudando a gente, todos os dias eles estão trazendo marmitex. Não dá para todo mundo que está aqui, mas já ajuda bastante, lanche, pão, suco… Eles querem ajudar a gente com uma horta aqui também e com trabalho braçal, né? Cavar um buraco, colocar uma lona, porque aqui a maioria não tem condição de comprar madeiras nem telha. Então estamos dormindo debaixo de lona, alguns conseguiu umas madeiras, coloca madeiras em volta, lona em cima.

E qual é a situação atual na ocupação?

A gente está apreensivo. Cada dia que passa a gente fica pensativo se vai chegar, se não vai. No meu espaço mesmo, eu não saí daqui nenhum dia. Do dia que eu cheguei aqui, eu tô aqui todos os dias, todas as horas, todos os momentos, com medo deles virem e derrubarem tudo. A gente está apreensivo, bem com medo mesmo, porque a gente não sabe como que eles vão querer chegar, né? Se vai ser pacífico, se vai dar tempo da gente sair, se eles vão já chegar fazendo alguma coisa…

Qual é a perspectiva futura de vocês?

A nossa esperança é que a gente possa cada um construir o seu cantinho, seja de madeira, de bloco… Mas que a gente possa conquistar aqui, colocar água, poste de luz, e que a gente possa residir aqui. Eu mesmo não tenho como pagar o meu aluguel já tem 2 meses e o moço falou que vai pedir a casa, entendeu? Até dezembro eu consegui pagar o aluguel com o auxílio, porém esse mês de janeiro já não teve auxílio, é um aluguel a menos. O meu vence agora dia 10, já são mais dois aluguéis que eu não tô conseguindo pagar por conta disso. Eu não tenho com quem deixar minhas filhas, não tá tendo creche, não tem escola, eu sou sozinha, então é bem complicado.

Como as pessoas de fora podem ajudar vocês?

A gente montamos uma cozinha aqui, conseguimos um fogão, um gás e a gente está arrecadando alimento. O que vier ajuda a gente aceita, seja arroz, feijão, ovo, mistura… Porque faz para todo mundo, não faz só para um para outro, é para todo mundo, então a gente tá precisando mais disso. Água, bastante água, porque a gente está tendo que pegar em um lava-rápido para poder colocar aqui em umas garrafas que foi comprada.

Então a gente precisa de ajuda nisso. Eu fiz com os estudantes da USP um cartaz e coloquei o meu pix (11970680035) pra quem quiser fazer a doação em dinheiro. Vai ser tudo repassado para isso: para comprar as coisas para cozinha, lona para quem não tem condições… Tem muitas pessoas aqui que não tem condições de comprar lona, de nada, então a gente tá arrecadando isso também. E tudo isso vai ser comprovado, com comprovante, notinhas e tudo mais.

Tem mais alguma coisa que você quer dizer?

Para eles serem solidários e estabelecer aqui para gente. Porque querendo ou não, a gente estamos aqui há bastante tempo e a gente que fez a limpeza do terreno, o lixo tá sendo tirado por nós mesmo, os bichos… Tá tudo sendo tirado por nós mesmo porque eles mesmo falam que é da USP, que eles têm um projeto, mas que projeto é isso que eles não têm cuidado do terreno que é deles? Então já que eles não vem cuidar, a gente estamos aqui para isso, para cuidar e garantir uma moradia para gente. Porque é aquilo que eu falei, eu mesmo já to com meu aluguel 2 meses atrasado, tem pessoas que tá a mais tempo, tem pessoas que não têm o que comer, ou trabalha para pagar o aluguel ou para comer. Então tá bem complicado, entendeu? Tem pessoas aqui já com as crianças porque já deixou a casa que tava de aluguel, porque sabe que não vai conseguir mais pagar.

Contextualizando: a ocupação da São Remo na USP

Há quem se iluda com o caráter progressista da USP. Geralmente associada ao combate do negacionismo, à defesa da ciência e dos direitos humanos, as ações da USP estão longe de políticas inclusivas, principalmente para os setores mais marginalizados. Setores que a USP tem negligenciado inclusive durante a pandemia: alunos pobres do CRUSP, trabalhadores terceirizados e moradores da comunidade São Remo. Vale lembrar que em meio a segunda onda do COVID-19, a USP promoveu o BoatShow (evento para venda de iates e helicópteros) expondo terceirizados e moradores do CRUSP, consolidou uma base permanente da Polícia Militar no campus e aumentou a rigorosidade no controle de acesso na portaria da São Remo. Controle de acesso direcionado aos pobres,  muitas vezes, filhos e netos de trabalhadores que construíram a própria Universidade. Enquanto isso, todos os dias é possível presenciar no campus carros de luxo e equipes de corrida que atravessam tranquilamente a portaria “sem apresentar a carteirinha”.

Reforçamos aqui: a comunidade São Remo foi formada por pessoas que construíram a USP, marcada por relações sociais desiguais, pela exploração de trabalho de pessoas pobres e em sua maioria negras. Criada para a formação de uma elite política paulistana e ilustrada, a USP hoje reforça seu gesto fundador, ao impedir que a população da São Remo usufrua da Universidade. Impedidas por um muro e por controle de acesso, a USP só permite a população da São Remo entrar para ocupar postos de trabalho precarizados, ao mesmo tempo que escancara suas portas para a elite paulistana. 

Não bastasse isso, a USP administrada pelo reitor Vahan Agopyan e seu superintendente José Antônio Visitin ameaçam de despejo pessoas sem-teto da São Remo, na sua maioria mães, crianças e idosos que ocuparam no dia 29/01 um terreno abandonado da USP  e sem uso social a mais de 30 anos. 

Todo apoio à ocupação da São Remo!

Enquanto morar for um privilégio, ocupar é um direito!

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