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04 maio 2021

Luana Marcos: O movimento periférico da comunidade LGBTQI+ no Grajaú

Essa entrevista faz parte do livro Fala Carolinas! Mulheres na luta por vida e dignidade, uma poderosa reunião de entrevistas, ensaios e poemas de mulheres negras, indígenas e periféricas que protagonizam e narram a luta de movimentos por moradia, transporte, cultura, LGBTQI+, contra o cárcere, curandeiras, parteiras, educadoras, e na resistência das comunidades indígenas no Chile.

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Luana Marcos Uchôa do Nascimento, de 29 anos, natural de Pedreiras, cidade maranhense. Mudou-se para São Paulo ainda criança junto ao irmão e a mãe que buscava a possibilidade de oferecer um futuro melhor e com mais oportunidades para os filhos. Militante ativa do movimento LGBTQI+ periférico, Luana formou e atuou junto a importantes coletivos como o Coletivo Transação e o Travas do Sul. Em 2015 ajudou a montar um documentário intitulado Fábrica de Bonecas – Estética da Precariedade através do qual foi registrado e exibido as histórias e experiências de pessoas Trans dentro do bairro Cantinho do Céu.

Desde o início de sua atuação como militante e ainda agora Luana Marcos se define como ativista pelo direito de existir e visa construir caminhos e meios para que as pessoas Trans possam se expressar livremente sem a necessidade de ter que estar sempre se explicando, pois como ela mesma pontua na entrevista que segue “explicar sempre o que se é, é exaustivo”.

Você pode explicar, pra quem não sabe ou ainda não entendeu, a diferença entre orientação sexual e de gênero? E pra quem já sabe é sempre bom relembrar, o que é gênero não-binárie?  

Luana: Gênero é referente a homem ou mulher. No caso do binário, porém, existe uma classificação extensa de vários gêneros conhecidos que não se enquadram no binário. O não binário vem junto a esses outros; não-binário seria não estar enquadrado no padrão masculino/feminino. E gênero seria como nos expressamos fisicamente na sociedade… o que não é o mesmo que orientação sexual, que também é bem diversa, podendo ser hétero, homo, pansexual entre outros, seria a forma como nos relacionamos com o outro.

    Desde quando você se reconhece assim? Sabemos que quem é da periferia sempre sofre mais. Qual a principal diferença de uma trans negra na periferia?

Luana: Não sei, mas acho que sempre fui assim, a minha essência é a mesma desde sempre. E mesmo a minha aparência tendo sido modificada ao longo do tempo, e vou me reconhecendo e me respeitando enquanto ser. Ser uma trans negra na periferia é bater de frente com todos os preconceitos, é conviver com o machismo diariamente e ser ativista por existir, buscar espaços onde não se tem voz!

Nos últimos anos é tranquilo morar aqui, falando com relação ao preconceito. Ser uma trans negra não-binária é ir além dos padrões impostos, é construir lugares onde o meu corpo possa se expressar e dar liberdade para a existência de outros. Mas antes era muito mais comum ouvir xingamentos e até sofrer agressões. Com o tempo muitas coisas mudaram. Inclusive o pensamento das pessoas, mas eu acredito que isso veio do enfrentamento/empoderamento que nós, pessoas LGBTs, aprendemos a usar. Hoje, nós estamos em todos os lugares e queremos ser respeitadas, mas eu acho que a internet é um local onde as pessoas podem falar livremente e também serem preconceituosas, e isso sem precisamente dar a cara a bater. É diferente você chegar em alguém e destrata-lá cara a cara, agora pela internet, às vezes, mandam mensagens até anônimas… É bem mais difícil.

Qual a relação com a sua família e com o trabalho?

Luana: Moro com minha mãe e nossa relação foi e está sendo construída ao longo de 10 anos, mas às vezes é complicado por ela ser evangélica, porém ela me respeita e é a pessoa que mais amo. A relação com o trabalho é controversa, por um longo período a única opção foi a rua e a prostituição. Eu consegui construir outros caminhos para mim, mas é sempre algo complicado e de grande luta, pois me inserir no mercado de trabalho, sendo uma pessoa trans não-binária, é se impor como uma pessoa fora do padrão.

Nós podemos dizer que uma das maiores dificuldades para trans brasileires é a exclusão do mercado de trabalho?  

Luana: Sim, mas eu acho que não só a exclusão do mercado de trabalho, é também o direito à educação, lazer e saúde. A falta de acesso a isso tudo, nos deixa marginalizados, e as únicas opções que nos sobram são as ruas!

As pessoas vêem as travestis nas ruas, mas poucos fazem ideia de como essas pessoas vivem, o que pensam e qual a sua trajetória pessoal. Como foi passar por esse momento na sua vida?

Luana: Esse período da minha vida foi um aprendizado “antropológico”. Conviver diariamente com elas me fez pensar sobre os lugares que nos são permitidos estar, sobre as nossas lutas diárias, sobre os relacionamentos abusivos, sobre o sonho de ter alguém que te ame de verdade — estar na avenida é estar vulnerável a tudo. Por um período foi de onde tirei o meu sustento e coloquei comida na mesa (nesse período minha mãe não morava comigo), mas percebi que não era onde eu deveria estar e que eu poderia pensar outras possibilidades para mim e para elas.

Quais foram as questões mais difíceis de encarar?

Luana: Eu acho que o sexo em si é a questão mais difícil. Entrar em um carro de alguém desconhecido sem saber o que realmente vai acontecer… Colocamos nossa vida em risco.

Hoje, existem saídas verdadeiras para a vulnerabilidade e para as pessoas que estão na rua como forma de sobrevivência?

Luana: Hoje, existem políticas públicas de acesso não só para pessoas trans, mas para todos os que estão em vulnerabilidade, porém são anos de marginalização dessas classes sem retratação histórica. E nem isso conseguiria apagar todo o sofrimento sofrido por essa população que teve seus direitos negados e criminalizados.

Como foi esse processo de transição? De se reconhecer, de se amar?

Luana: Esse processo é algo que venho tendo há um tempo, eu gosto de experimentar as possibilidades de existência. Hoje, estou buscando um lugar onde o meu corpo possa se expressar livremente, sem se enquadrar em todos esses padrões de corpos; se amar é se olhar no espelho e sorrir. É estar feliz com o que está refletido ali. Relacionamentos sempre foram um tabu, né? O corpo da mulher sempre foi estereotipado e erotizado, além de objetificado, e o de uma trans também! Explicar sempre o quê se é, é muito exaustivo e nem sempre eles entendem, eles querem uma imagem da Vênus eurocentrada, então a nossa opção é: “se ver e se amar”.

Quando você começou sua militância?

Luana: Eu iniciei minha militância em meados de 2011 e 2012, quando consegui acabar o ensino médio e me vi perdida. Os únicos espaços de expressão que eu conhecia eram o centro ou à noite. Foi pensando nesses locais que me juntei com algumas pessoas e formei o Coletivo Transação. Nós passamos a reconhecer o bairro e os espaços que nos eram permitidos aqui. Nós fomos tentando construir base, e esse coletivo foi importante porque nos fortaleceu para o mundo e para ter acesso às poucas políticas públicas voltadas à comunidade LGBT.

Que atividades vocês faziam no coletivo Transação? Qual a relação com os moradores do bairro?

Luana: Com o coletivo Transação fizemos uma ocupação dentro da associação de moradores do Cantinho Do Céu, a ideia era poder mostrar outras possibilidades de existência.  Tínhamos o brechó, que era para gerar verba, e para gerir o espaço, também mantínhamos um salão de beleza; fizemos várias oficinas, de manicure, de cabeleireiro, de artesanato, de customização de roupas e entre outras, pensando sempre nessa proposta de dar ferramentas para que as pessoas LGBTs pudessem se sustentar. Algumas pessoas do bairro apoiaram nossa iniciativa e nossa casa vivia cheia, porém tivemos alguns problemas com outras pessoas…Uma vez o nosso espaço foi arrombado e roubaram algumas coisas nossas, o que acabou fazendo a gente desanimar de lutar pelo espaço.

Associação de moradores do cantinho do céu no Extremo Sul de são paulo coletivo Transação

Luana: Antes as pessoas LGBTs não faziam cultura na periferia, então nós abrimos essa porta. Uma coisa tão absurda, que eu ouvi de pessoas que faziam cultura dentro da periferia, foi que nós estávamos pegando o dinheiro da Prefeitura para “montar travestis”, e sim, nós montamos travestis! Tanto que um dos nossos últimos eventos foi um “monta-se travesti”.

Várias meninas se descobriram trans desde lá, sem falar em todas as políticas de acesso que se iniciaram nesse período. Nesse período também conseguimos o fomento do VAI e montamos um documentário, que é o documentário Fábrica de bonecas estéticas da precariedade, que está no YouTube [2]. É um documentário que fala sobre a nossa vivência dentro do bairro, é um documentário de 2014/2015.

As pessoas que participavam do coletivo ainda estão próximas de vocês hoje?

Luana: A vida é feita de ciclos, e alguns terminam. Perdemos, nesse período, algumas amigas nossas, que acabaram se viciando em drogas, acredito que pela falta de base (representatividade) e acesso aos espaços (educação/trabalho/família), mas até hoje, sim, carrego comigo amizades vindas dessa época, que quase sempre me lembram o porquê de estarmos aqui lutando pelos nossos, que me lembram da importância desse projeto naquele momento e nesse espaço periférico, e que planejam e sonham com algo semelhante.

Além do coletivo Transação, que foi o meu primeiro coletivo, eu fiz parte de alguns outros projetos que não tinham esse cunho de gênero. Eu também participei do coletivo Travas da Sul, que, esse sim, é voltado para pessoas TRANS e não-binários. Participei da frente de lançamento por direito de pessoas LGBTs, na ALESP, em 2019, e junto com o coletivo Travas da sul fizemos alguns saraus no Grajaú e algumas festas, porque também entendemos que o “fervo” é luta.  Atualmente eu sou jovem monitora no Centro Cultural Grajaú, também agente de prevenção de ISTs pelo programa DST HIV AIDS, da prefeitura.

Falar e expor isso no território periférico é importante, pois abre espaço para corpos dissidentes. O preconceito sempre existiu, né, como a gente sabe, e isso é um preconceito sobre algo desconhecido, eu acredito que esse preconceito vem de estarmos muito ligados pelo imaginário popular à promiscuidade. Talvez isso nos deixe mais vulnerável, o que não justifica as agressões, mas nos faz pensar como eles acham que têm direito de tratar nós mulheres, mulheres trans não-binária e corpos dissidentes. O que foge do padrão assusta, hoje a nossa luta é no imaginário, em como construir uma imagem saudável sobre nós mesmos e como adquirir respeito nesta sociedade.

Vocês já acolheram mulheres em situações muito difíceis, com alta vulnerabilidade, nesses coletivos?

Luana: Sim… E como o acolher vai muito além do físico, às vezes o emocional e psicológico da pessoa tá tão abalado que o estar ali já faz parte de um acolhimento, o estar junto e poder compartilhar os momentos difíceis que a pessoa passou com a família, na rua e etc. Isso sempre acontece!

Qual a sua relação com a arte e a escrita?

Luana: A escrita sempre nos foi negada, assim como todo o resto — até a vida nos é negada, né? — Porém a escrita sempre existiu em mim… Tenho vários cadernos e livros, tenho muitas coisas escritas, eu gosto de colocar as coisas no papel. Eu já tentei escrever memórias, mas nem todas as minhas memórias são agradáveis. Ao fazer isso percebi o quanto eu era travada com relação à minha própria existência e como eu me culpava pelas coisas que eu acabei fazendo. O que foi bom porque me revisitei e hoje em dia isso não me afeta tanto o pensamento dos outros sobre o que eu já fiz e passei. Também já escrevi muitos poemas/poesias, como eu disse, a escrita sempre esteve na minha vida, mesmo antes de entrar na escola.

“Na escuridão

Na escuridão, eu me vestia, eu me despia

Eu me despia de mim, ou de algo que era eu

Não me sinto sozinho, sinto eu

Com raiva do que sou, pois não foi o qu’eu quiz

Quando crescia, eu me vestia

De moral e ética

De gestos e jeitos

Que não gostava, mas engolia

Engolia e me sufocava

Sufocava a identidade da minha alma

E quando saia à rua, eu andava

Como todos os outros,

Mas não se sentia um, se sentia algo

Algo que queriam de mim

E quando eu cortava o meu cabelo,

Era igual ao da revista, que também me dizia como ser,

Como não ser

Como não ser eu

E eu já nem sabia como eu era, como me sentia

E como me comportava, eu me comportava como uma máquina, esperando pelo comando, pela ação de outro.

E quando chegava

Chegava no escuro e me despia

Me despia do dia

Do sufocante dia que tivera, das brigas por nada e da vida, que não era minha e chorava, chorava de soluçar,

por não se ser quem se é

E me despia

Me despia para me construir no dia seguinte

E era sempre igual

Até que resolvi não mais me vestir

E ser eu”.

Eu acredito na liberdade do ser e do existir, eu espero que possamos fazer esses espaços e caminhos para que nossos corpos consigam caminhar bem, para que estejam bem, onde possamos estar bem conosco e com os outros, onde a gente possa se amar, onde a gente possa se olhar no espelho e se sentir bem. Eu quero dizer para vocês que não deixem que eles digam o que nós devemos ser, vamos construir lugares onde estejamos bem, lugares que nos permitam, que não nos oprimam. Eu espero que todos nós possamos ficar bem e que possamos distribuir esse amor que a gente tem para nós.

O que você acredita que devemos continuar fazendo e planejando juntos para garantir o respeito e a vida das pessoas LGBTQI+?

Luana: Eu acredito que apoiar pessoas LGBTs que estão nos movimentos políticos e nessas esferas faz sentido, pois só essas pessoas têm propriedade para entender as nossas necessidades.

Assista aqui o “Documentário Fabrica de Bonecas – Esteticas da precariedade” realizado pelo coletivo Transação:

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