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30 jul 2021

Preta Jaya – Conhecimentos ancestrais de uma parteira tradicional.

Essa entrevista faz parte do livro Fala Carolinas! Mulheres na luta por vida e dignidade, uma poderosa reunião de entrevistas, ensaios e poemas de mulheres negras, indígenas e periféricas que protagonizam e narram a luta de movimentos por moradia, transporte, cultura, LGBTQI+, contra o cárcere, curandeiras, parteiras, educadoras, e na resistência das comunidades indígenas no Chile.

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“Em muitas partes do mundo, as mulheres têm sido vistas historicamente como tecelãs da memória – aquelas que mantêm vivas as vozes do passado e as histórias das comunidades, que transmitem às futuras gerações e que, ao fazer isso, criam uma identidade coletiva e um profundo senso de coesão. Elas também são aquelas que passam adiante os conhecimentos adquiridos e os saberes – relativos às curas medicinais, aos problemas amorosos e à compreensão do comportamento humano, a começar pelo comportamento dos homens. Rotular toda essa produção de conhecimento como “fofoca” é parte da degradação das mulheres.”

Silvia Federici, Mulher e a Caças às Bruxas (p.85)

Estamos, todos os dias, no entanto, recuperando nosso conhecimento. Como a Preta disse recentemente, em uma entrevista sobre a sua trajetória como Parteira tradicional: “São tantas situações para anular nosso saber, nosso querer e nossas ações.” Vivemos nesse regime de terror contra todos os corpos de mulheres da periferia e resistimos à essa nova caça às bruxas, que são as formas de violência contra as mulheres desde a colonização até o desenvolvimento dessa sociedade capitalista e racista. Esta entrevista foi realizada pela Nathália Ract em julho de 2020 por meio de uma chamada de voz.

Qual o seu nome?  

Preta Jaya: Meu nome de batismo é Angélica Ferreira Paim, conhecida atualmente como Preta Jaya, que é um nome assim usado no meio cultural, no meio artístico, é um nome também proposital, né? Porque a primeira mudança de nome foi Vijaya Prem, que foi o nome espiritual numa linha de tantra para mulheres, e aí quando eu mudei aqui pra São Thomé (você já escutou história que mineiro corta todas as palavras?) e, aí, Vijaya, virou Jaya.     

E, logo na sequência, quando eu comecei a cantar com meu companheiro, o Emmy Cultura dos Tambores, eu senti que eu precisava de um nome mais potente. Aí eu coloquei essa Preta na frente, essa Preta que abre os meus caminhos, que também é uma menção a Dandara e às Pretas Velhas que me acompanham, foi uma forma de honrar, né? Essa força que me move. Então eu gosto muito de ser chamada de Preta.

Eu sou nascida e criada na Zona Norte de São Paulo no bairro do Jardim Brasil, na periferia. Atualmente eu moro em São Thomé das Letras, em Minas Gerais, onde a gente tem a construção de um ponto de cultura independente, auto sustentável, que é o Santo Quilombo. Como uma menina preta periférica, mas que cresceu em uma casa sem muita referência em relação a essa cultura, e o reconhecimento mesmo do povo preto, eu vim me descobrir uma mulher negra com quase trinta anos, que foi a primeira vez que eu olhei no espelho e falei: “Nossa, mas eu sou uma negona! E nossa, pareço aquelas africanas de pescoço comprido!”

O projeto do colorismo foi muito bem implantado aqui no Brasil, e alguns acreditaram nessa história. Meu pai, Eurico de Freitas Paim nasceu em Santo Amaro da Purificação, BA, no ano de 1935, onde os pretos que nasciam no Brasil, já eram tidos como pardos. E aí meu pai foi um desses pretos que acreditaram nessa história, então na família do meu pai que é mais dessa descendência negra, na nossa família tem preto de tudo quanto é tom,  e meu pai tem o tom de pele mais claro, e os traços fortes, o nariz, a boca, o cabelo, mas ele nunca se reconheceu como um homem preto. Sempre passou batido, e apesar de ser um homem de pouco estudo, porque ele estudou só até a 3ª série, ele foi um homem de grande sucesso, ele conseguiu prosperar, ele conseguiu mudar a condição de vida que ele tinha, ele conseguiu virar o jogo. Meu pai trabalhava com sistema de refrigeração, com ar condicionado, ele começou como ajudante, mas um pouco antes dele se aposentar, ele já era referência. Minha mãe, Cleone Ferreira da Silva, nasceu em Bom Conselho, PE, no ano de 1957, ela já tem raízes indígenas. Ela era professora, mas eu lembro pouco dela trabalhando, eu lembro de criança quando ela saía para estudar, mas depois eu acho que as condições melhoraram e meu pai também devia de ser um tanto rigoroso nisso, eu não me lembro, mas eu sei que ele não gostava muito não, que ela saía para trabalhar e ela acabou ficando em casa.

Então eu cresci pensando que eu também era branca, amarela, morena, não sei, ou como as pessoas chamam, de “morena”. Eu não sou morena, eu sou Preta! Porque é isso, as pessoas têm até preconceito de chamar a pessoa de negra. Quando eu raspei a cabeça pela primeira vez, em um ritual espiritual, foi quando eu me olhei careca na frente do espelho e foi então que eu pude reconhecer e entender que eu era uma mulher negra. E pra mim foi quase que um choque, porque foi aí que eu comecei a entender algumas coisas que eu passava na minha vida, desde a infância, que eu não associava a racismo. Porque não tinha por que, eu não era negra, eu entendi o porque algumas coisas aconteciam mas não entendia que aquilo era racismo. Eu vim entender quando eu já era uma mulher adulta, e aí vinham memórias, professores, alguns comentários, enfim várias situações mesmo da vida.

Como foi esse processo de reconhecimento?

Preta Jaya: Esse primeiro contato, foi quase que um passe de mágica, porque eu estava inclusive aqui em São Thomé, quando eu raspei a cabeça. E quando eu cheguei em São Paulo. Eu sempre fui muito envolvida com as danças, minha ligação mais forte com a cultura é a dança. E aí tinha um amigo meu, que a gente dançava em uma banda de forró, ele falou assim pra mim: “Nossa eu conheci uma galera muito legal, você tem que conhecer! E aí eu fui lá, e quando eu cheguei lá era o Jesus e a companheira dele a Ingrid, da Casa do Meio Mundo”. E aí eu tinha acabado de raspar a cabeça, e aí eu acabei de me descobrir preta e aí me apareceu um Jesus me chamando pra fazer alguma coisa em relação ao povo preto. Então isso foi muito significativo e simbólico também, e aí com essa porta que eles abriram pra mim, o Jesus e a Ingrid, eu encontrei outras pessoas que estavam na mesma situação que eu, e eram, normalmente mulheres, a maioria dessas pessoas que estavam se descobrindo negras depois de adultas, então eu me senti acolhida. E a partir daí que começou mais efetivamente esse processo de contato com a cultura afro e com a cultura de forma geral, porque antes eu só tinha um contato com a espiritualidade. Mas a questão da cultura e da história, principalmente as histórias que não contam pra gente na escola, eu vim descobrindo no meio do caminho. E aí muitas mulheres, a Maria do Carmo que é aí do território da Zona Norte, que é da moda, me ajudou bastante nessa reconstrução de identidade.  

Eu saí de casa com 14 anos de idade, o que me pegava muito era essa sensação de não pertencimento, porque eu não sou daqui, eu não sou de lá, e a gente fica no meio, não se encaixa. E não só pela cor, mas por tudo, eu sou realmente uma pessoa diferente no sentido dessas conexões. Eu trago muito forte essa raiz cabocla, então eu sempre gostei do mato, mesmo tendo crescido e nascido na cidade, eu sempre quis morar no mato, eu sempre fui conectada com a natureza, com a lua, com a terra, com as divindades, com os deuses, seres encantados. Então eu sou a única em casa e era uma coisa que eu me sentia mesmo diferente.         

Quantos filhos você tem?

Preta Jaya: Eu tenho três filhos biológicos, o Matheus que faleceu, agora ele ia tá com dezoito anos. O Miguel, que tá com sete anos agora, que é um caboclinho, eu brinco que ele é um indiozinho que caiu fora da aldeia, super conectado e se mostra bastante sensível. E o Ravi, que tem cinco anos, também traz nossa ancestralidade forte porque ele é sarará. E filho de preto com preto, o menino com oito meses começou a clarear o olho, clarear o cabelo… Meu Deus do céu! O pai dele queria até DNA. As pessoas falavam: “Esse é o filho do Luciano?” Mas o menino é loiro, não, ele é negro sarará, minha avó e minha bisavó também são assim. E minha filha do coração é a Rebeca, que tem sete anos, e convive bastante com a gente, um presente também, porque eu sempre quis uma menina e só tive meninos.

Você já sofreu algum tipo de violência?

Preta Jaya: O parto do Miguel foi extremamente violento, no sentido físico, porque não tinha médico, foi lá em Campinas, na Unicamp, só tinha residentes e eles não sabiam direito o que fazer comigo. O Miguel já estava bem baixo e eles optaram pela cesárea, por conta do sofrimento fetal, e eles ainda usaram o fórceps pra tirar ele da minha barriga porque ele estava encaixado e eles não conseguiam tirar. Aí o Miguel nasceu bem machucadinho na cabeça, no rosto, no olho, por conta das manobras que fizeram. Fizeram também a manobra de kristeller, que é aquela pressão no fundo do útero que eles fazem pra ajudar a empurrar o bebê. Machucou minhas costelas e quase quebrou uma costela, eu fiquei dias sentindo dor. E aí como eu já tinha tido dois partos cesárea, porque é assim, se você tiver um parto cesárea, no hospital eles tentam o parto normal. Mas se você tiver dois partos cesáreas, aí já é obrigatório ser outra cesárea, e aí a possibilidade que eu tinha era de parir em casa. Eu não tinha condições de pagar uma equipe porque é muito caro. E na época o meu companheiro apoiou, mas não se interessou tanto assim, então eu acabei desistindo porque ele estava mais me irritando do que ajudando. E eu sabia que no hospital iam deixar ele pra fora, e aí eu acabei pedindo pra ir pro hospital pra ficar um pouco sozinha, sem ele. E eu já sabia que ia ter que ser cesárea mesmo, a não ser que eu chegasse lá com o bebê nascendo, mas ainda faltava um pouco, então me levaram direito pra cesárea. E aí, mais uma violência que a gente sofre, e eu achava que eram todas as mulheres, mas recentemente, questão de uns dois anos, eu descobri que isso também é uma prática que é feita com as mulheres periféricas: Que é a pressão pela laqueadura! Que é um método radical de contracepção. Eu achava que isso acontecia com todas as mulheres, mas não. Então quando você tem dois, três, filhos os médicos do posto de saúde já começam a induzir você a fazer cirurgia. E aí como eu já estava bem desgostosa, porque quando eu tive o Miguel eu estava começando essas questões do parto. Eu tinha informação, mas eu não tinha tanta vivência da prática de ver o que esses médicos fazem para manipular a gente. Com o Ravi eu já tinha bastante experiência, então eu fiquei muito triste, eu não tive depressão, por “Jah”, mesmo! E eu acabei cedendo a essa pressão do médico do posto para fazer a laqueadura. E aí eu já estava desgostosa porque já tinha sido 3 cesáreas, que eu não ia parir mesmo, eu fiquei muito chateada… Mas foi uma questão que eu me arrependi, e depois eu fui entender que é uma prática comum da castração para as mulheres periféricas. Porque isso é uma forma de castrar, eu vi também que 70% das mulheres se submetem a essa prática, que é radical, se arrependem. Algumas porque ainda são muito jovens. Então, por exemplo, quando eu operei eu tinha 27 anos, uma vida inteira pela frente, sendo que eu posso ter filho até os 40. Ou porque trocaram de parceiro, ou porque os filhos cresceram, entendeu? Então 70% das mulheres se arrependem de fazer esse procedimento e isso é muito triste, porque mexe também com a nossa feminilidade. Às vezes eu passo por alguns perrengue, uns processo de muita irritabilidade, e eu não sei, eu não tenho nenhum diagnóstico, mas eu associo a questão da minha castração, porque eu ainda queria ter mais um filho. E é tão louco, que para operar eles operam de graça, você participa de três reuniões e duas testemunhas assinam que você já tem alguns filhos. Pra castrar eles fazem de graça, mas existe a possibilidade de reverter, mas não tem essa opção no SUS. Eu operei faz 5 anos, mas agora eu fui entender que eles querem conter a reprodução de um grupo específico. A parteira tradicional ressurge como Fênix para prestar esse serviço comunitário, porque quando volta essa proposta de parto humanizado, de atendimento personalizado, a gente sabe pra quem que é esse atendimento. São pouquíssimas mulheres da periferia que têm esse acesso, então a parteira também surge nesse cenário resgatando essas mulheres que não têm condição de pagar.

Desde quando você é Parteira Tradicional? Com quem você aprendeu?

Preta Jaya: Eu comecei a trilhar esse caminho entre 2011 e 2012, eu tinha acabado de me formar em técnica de enfermagem, e óbvio eu também não concordava com nada que acontecia dentro do sistema. Eu trabalhei muito em “Home Care” assistência domiciliar e trabalhei em hospital um tempo, e esse hospital era metade público e metade particular. E era muito louco, porque eu trabalhava na parte do convênio, mas eu tinha feito estágio no SUS, e era muito gritante a diferença. E apesar do SUS ter essa questão de, às vezes, não ter material, que falta coisa, mesmo tendo vários desafios era mais tranquilo de lidar com as pessoas que estavam no SUS, porque eram pessoas afetuosas. A questão do material a gente percebia que não era falta de material, era falta de gerenciamento, então havia muito um desperdício de material.

O meu bisavô era rezador, benzedor e raizeiro, que faz remédio, garrafada, essas coisas… E tem um tio também que é, e a minha mãe também é, mas em algum momento da vida dela, ela deixou de exercer, muito a ver com as questões religiosas, ela foi deixando esse trabalho de lado. E quando eu pensei em trabalhar na área da saúde, primeira coisa que veio na mente foi: a arte de cuidar é a enfermagem, então eu fui atrás desse conhecimento, mas chegando lá e me deparando com essas questões, e as questões do contexto do hospital particular, que diferente das pessoas que estavam no SUS, eram muitas pessoas com ar superior, toda hora chamando, era muito diferente de cuidar de uma pessoa pobre que não tem condições, que está precisando, que valoriza o atendimento. E alguém que tá pagando e acha que é melhor, e que merece mais, que te chama toda hora e que não tem carinho na fala. Na época, eu até brincava, eu já tinha tido um filho que faleceu com 6 anos, em 2008 ele faleceu, então eu não queria nunca mais ter filho na minha vida, porque foi uma dor terrível perder meu filho. Mas quando eu cheguei nesse lugar, eu falei “gente eu preciso de um filho” porque eu reparei que as mulheres que não tinham filho, elas eram mais, eu chamo de solicitantes, era aquela mulher que toda hora apertava a campainha para nada, para trocar o canal da televisão, e aí eu falava: “gente preciso de filho, porque olha como fica a mulher sem filho”.  E aí eu fui me abrindo de novo para a maternidade, porque eu não queria ser uma velhinha chata, eu acho que filho, além de dar trabalho, deve dar algumas alegrias. E aí, eu adentrando nessas questões, comecei a perceber as violências, eu comecei a perceber como, dentro de uma instituição, seja pública ou privada, a gente é visto como número, como mercadoria, é tudo muito mecânico, muito robótico. Dentro do nosso sistema de saúde, esse sistema alopático que é da medicina farmacêutica, nós tratamos a doença mas não é investigado a causa da nossa doença. Boa parte do que nós temos na medicina convencional, só trata sintoma e não trata a causa, e você fica tomando remédio pra sempre, só vai camuflando as dores e os traumas que a pessoa está trazendo naquela doença. Então isso já me fez ficar um pouco assim: Eu acho que não era isso que eu estava procurando.

Eu saí desse meio da enfermagem, e fui buscar outras formas de viver a saúde, e comecei a buscar as terapias holísticas, fiz algumas formações nesse sentido, massagens, florais, cromoterapia, tudo o que tinha alí no meu alcance de terapias. Eu mesma que fui buscar, eu já tinha visto e passado por terapias antes, né? E eu achei que era uma oportunidade de trabalhar um outro contexto da saúde, que era realmente tratar a causa e não o sintoma, o sintoma vai ser aliviado em decorrência dessa cura, dessa causa. Mas aí eu fui experimentar uma outra forma de trabalhar na saúde, e aí chegando nesse lugar também eu fui perceber que tudo que eu ia fazer que a grávida não podia. “Massagem?” ”grávida no primeiro trimestre não pode”, “grávida não”, “grávida não coloca a mão” e algumas coisas eram “grávida não põem a mão!” e isso começou a me “encucar”…

Eu também trabalhei com estética, depilação, massagens “modeladoras”, drenagem linfática, e tudo era na “grávida não!”, “se for uma cliente sua que engravida, tá, mas só depois do terceiro trimestre. Mas se for uma gravida nova, que você nunca viu, então não põe a mão!”. Eaí eu comecei a ficar: “Por quê? Por que que ninguém quer?” E grávida precisa porque, ela tá passando por toda uma questão hormonal, e toda a carga emocional, e toda carga de memórias, de registros da nossa linhagem,  que a gente traz no nosso DNA. “E o porquê não?” Até que um dia uma professora minha me respondeu: “Que não era pra pôr a mão na grávida, porque se alguma coisa acontecesse com a grávida, ela podia associar ao procedimento que você fez, mesmo tendo sido uma depilação na perna, por exemplo.” Então, por isso, pra nem correr o risco, é melhor a gente simplesmente não ajudar, não atender, do que você orientar, passar consciência, poxa, se você depila a perna com cera e teve um aborto, com certeza, não é porque você depila a perna. Ou qualquer outra coisa, uma massagem, e é óbvio, quando você vai fazer massagem em gestante você tem alguns cuidados, você tem um protocolo para seguir com a gestante. Por exemplo, não fazer pontos de pressão, não apertar, não ativar pontos. Mas uma massagem relaxante, por exemplo, não tem como fazer mal!  E aí, eu atuando dentro dessa questão, sempre muito ligada no espiritual, porque eu sou assim mesmo, a matéria pra mim é uma experiência. Mas toda a carga que eu trago é dessa minha vivência, a minha espiritualidade, que não está ligada com nenhuma religião, mas está ligada no todo, no cosmo, no espiritual. Nada foi saindo assim da minha cabeça, eu sempre fui tendo movimentos que eu fiz como chamado. Então eu recebia um chamado, eu fui lá atender esse chamado e ver o que era, e como ele vibrava em mim, e aí eu vi que não era aquilo, eu ainda fui traçando isso.

Nessa época de 2012, primeiro que a gente não tinha acesso à internet. Eu, pelo menos, tive meu primeiro computadorzinho, notebook, nessa época aí de 2012, então a gente não tinha muito acesso, não tinha muita informação. Eu nunca tinha ouvido falar de Doula, e aí eu fui começar a buscar. Eu sempre fui buscar isso nas minhas raízes, então eu comecei a questionar, comecei a procurar informações pela minha mãe, pela minha avó, pelas minhas tias que eram mais velhas, porque eu queria saber como era antes, e elas me contavam histórias assim incríveis, de parteiras, de parto em casa, do uso das ervas. E aí, acendeu uma luz “Como será que era isso?”

Eu fui pesquisar porque que mudou. Aí tinha o dedinho do homem branco lá no meio, porque mudou o que era realmente necessário para uma gestação ser tranquila. Então essa primeira pesquisa começou de uma forma muito autônoma. Aí, na época, eu lembro que eu tinha TV a cabo, e tinha um programa que chamava “Um bebê por minuto”, era um programa que retratava situações de hospital, mas dentro de uma maternidade. Então foi nesse programa que eu ouvi falar, pela primeira vez, de Doulas. Aí era uma coisa mais moderna que estava rolando, né? Que não tinha aqui no Brasil ainda, mas estava começando… E aí, eu fui pesquisar quem era a Doula, o que ela fazia, e como fazia pra ser uma Doula. E para ser Doula você não precisa necessariamente ter um diploma, mas você precisa saber o que fazer. Então juntei um conhecimento que eu tinha técnico de enfermagem e o conhecimento que eu tinha das terapias.  Eu juntei as duas coisas e montei o meu sistema de doulagem, a minha forma de trabalhar. Aí, então, eu comecei a fazer esse serviço. E depois eu consegui fazer um curso de Doulas em São Paulo com uma mulher que é referência do parto humanizado, ela é precursora dos partos humanizados e domiciliares, a Ana Cris. Mas ainda assim, não me contemplava 100%, porque dentro dessas formações, que normalmente são geridas por mulheres de formação acadêmica, por exemplo, a Ana Cris é professora do curso de obstetrícia. Era tudo muito acadêmico, então quem deu aula pra gente, e apesar de ter sido tudo muito bom, foi um banho de água fria, porque nesse curso falava muito mal das parteiras.

Tinha uma separação entre as Parteiras e Doulas pela academia?

Preta Jaya: Sim, muito explícita. Pela academia a parteira tradicional não era bem vista. Acompanhar um parto com uma parteira tradicional, é a mesma coisa que você acompanhar o parto de uma mulher sozinha, e você tá colocando em risco toda uma categoria, porque se der alguma merda, vai falar que é por causa de todas as parteiras.  

E aí eu mais uma vez lá, com as minhas pesquisas, minhas buscas. Eu encontrei uma senhora preta quilombola, lá de Goiás, de Alto Paraíso, que é uma Deusa na terra, a Dona Flor do Moinho, pela internet eu encontrei um vídeo, ela já fazia algumas formações, porque ela também faz remédios, vivências com as ervas, e aí ela compartilhou a história dela, que ela começou a pegar bebê, que a gente chama pegar menino, né? Com nove anos de idade, foi o primeiro parto que ela assistiu, e daí pra frente ela nunca mais parou. Ela compartilhou que as coisas que ela fazia eram regidas por uma voz que ela ouvia, mas ela não sabia quem era, mas acreditava que era Deus que falava com ela, tanto para preparar os remédios, as ervas, quanto para fazer aqueles atendimentos na comunidade, no quilombo do moinho. E eu me identifiquei, porque eu também ouvia aquela voz, tanto que eu atendia como Doula sem ter tido nenhuma formação.

A Dona Flor abre as portas da casa dela para receber as pessoas interessadas, e normalmente essas mulheres eram do curso de obstetrícia e de enfermagem. Então eu fui atrás dela, e aí que eu me encontrei, foi aí que eu entendi, então era isso, aquela coisa que eu sentia. Eu fui atrás dela para entender e para ela me abençoar. Porque, nessas pesquisas, eu percebi que a parteira não precisava necessariamente de uma formação, algumas recebiam por tradição da sua mãe, da sua avó, madrinha, tia, irmã, mas algumas também despertavam sozinhas. Ou por um chamado espiritual, o qual foi o meu caso. Ou por necessidade, por exemplo, na comunidade não tinha nenhuma parteira e a mulher se colocava à disposição para ajudar, porque ela já tinha tido a experiência dela, então ela já sabia mais ou menos como era, e ela ia ajudar a vizinha, que depois ajudava a outra, e a outra… E ela virava parteira, sem ter ido buscar isso, sabe? Aquilo acontecia naturalmente. E aí essas parteiras, nas quais eu me enquadro, que são chamadas de parteiras curiosas, são essas mesmo que vai atrás por si só.

Quando foi que você fez esse primeiro trabalho enquanto Doula?

Preta Jaya: Olha, enquanto Doula, eu acredito que tenha sido em meados 2011, era muito raro também, porque como não era uma coisa difundida, eu atendia gestante a cada três, quatro meses, três gestantes por ano, quatro gestantes, mas era raro, depois é que começou a ficar mais procurado esse serviço. Inicialmente eu comecei atendendo grávidas amigas, grávidas que eram conhecidas e sabiam que eu estava fazendo esse serviço. Depois, quando eu fiz essa formação, foi legal, porque eles tinham um site de Doulas no Brasil, e quem fazia a formação ficava lá durante um tempo, e muitas gestantes naquele momento, chegaram em mim através desse site. Eu nunca fiz propaganda, sempre foi uma questão de indicação e ou entre amigas.

Quando foi o primeiro parto que você acompanhou?

Preta Jaya: Em 2013. Eu comecei a atender e acompanhar como aprendiz de parteira, eu buscava relatos e experiência. Já tinha uma parteira que eu acompanhava e um trabalho de resgate ancestral de todos os níveis. Eu comecei a fazer um apanhado das parteiras que tinham perto de mim. Eu fiz uma peregrinação, né? Eu fui até a Dona Flor, eu fui até o Nordeste e para alguns vilarejos aprender primeiro na tradição oral, e depois fui aprender na prática. E sempre pedindo a benção dessas parteiras. Que eram mulheres analfabetas, semianalfabetas, que nunca foram para a escola e a maioria tinha aprendido com outra mulher e algumas aprenderam sozinhas mesmo, no dia a dia, na vida. Primeiro eu fui buscar isso no Nordeste, que era onde tinha mais parteiras, e quando eu voltei eu procurei uma parteira perto de mim que eu pudesse acompanhar.

Novo caça às bruxas

E aí lógico, que a maioria delas já não atuavam mais. O que foi um pouco triste, porque eu percebi que a maioria das parteiras que eu tinha por perto, que era em São Paulo, elas pararam na época da Ditadura. Porque foi proibido nessa época, as mulheres eram obrigadas a irem aos hospitais, e elas tinham medo. E a gente no começo estava falando sobre as caças às bruxas, né? Essas parteiras pararam de atender porque elas tinham medo. E essas mulheres foram muito ameaçadas, perseguidas, teve uma, a Dona Zefa que falou assim pra mim: “Olha, eu não vou ir com você, mas você pode ir. Tipo assim, você vai lá, me conta tudo que você viu, eu te falo tudo o que eu acho.” Ela me tutelava. Inicialmente a gente começou a fazer esse trabalho de ficar em casa até o último minuto e só ir na hora de ter o bebê mesmo, porque algumas mulheres não se sentiam seguras para parir em casa. Até hoje eu falo, né? Depois de 5 anos que eu atendo como responsável do parto, que parir comigo é igual parir sozinha, só que vai estar acompanhada. Eu não sou médica, eu não entro nessa cena do parto como enfermeira ou como outro profissional da saúde. Eu entro mesmo como parteira! E essa parteira que leva na bolsa vela, erva, fé, muita fé. O equipamento é bem básico para monitoramento, são aparelhos de pressão, termômetros, uma tesoura cirúrgica, mas o equipamento é o básico mesmo. E o que vai fazer a diferença mesmo, são os ritos que a gente passa, são os rezos, as danças, as ervas. Então, por isso que eu brinco, é a mesma coisa que parir sozinha, você vai estar à vontade, eu não vou ficar mexendo, eu vou estar ali mesmo como um ponto de apoio.

Anteriormente as mulheres davam à luz cercadas por outras mulheres, mas essa relação comunitária foi destruída pelo Estado, pelo sistema capitalista e pela Igreja e outras crenças, né?

Preta Jaya: Sim, embora hoje tenham bastantes mulheres parindo sozinhas, em casa, que se preparam para isso, porque é bom você ter alguém que sabe até onde está tudo bem. Essa é uma relação afetuosa, é uma relação de carinho, de respeito, de empatia, quando a parteira pega seu bebê, ela vira sua comadre, é diferente, quando você chega dentro de um hospital e a pessoa acabou de sair de um plantão de 12 horas e está fazendo outro plantão de 12 horas, e tem muitas pessoas que trabalham em hospitais em diferentes lugares, que acabou de passar várias situações e a pessoa está mau-humorada, tá sem vontade, está totalmente robotizada. Aí o sistema nem olha pra gente como um ser único, holístico, que tem todo um potencial dentro de si, só olha pra você como mais um.

Hoje em dia quais situações mais comuns que as mulheres enfrentam dando a luz dentro de estruturas hospitalares?

Preta Jaya: Eu não sei como está agora, porque eu não atendo mais em hospital, mas sei que é muito invasivo, se você está de brinco, como está seu cabelo, mas se você chega no hospital parindo, é uma descaracterização de você. “Tira essa roupa! Me dá esse brinco! O cabelo solta! Você vai colocar isso aqui.” Isso já é uma situação constrangedora, porque você fica com um aventalzinho, cobrindo na frente, com a bunda aparecendo, no meio de um monte de gente que você não conhece, com todas as luzes acesas. Tudo muito assim: “Pá! Pum!”, é difícil!

Agora com essa história de humanização, dependendo da equipe do hospital, o médico consulta a mulher se pode romper a bolsa, quando a mulher está há muito tempo em trabalho de parto. Mas quando você é pobre, preta ou indígena, Ninguém pergunta se pode, ninguém explica o porquê, ninguém fala dos prós e contras, porque vai ser bom e porque pode ser ruim. Isso é muita violência no corpo da mulher. Então, quando a gente também presencia uma assistência de parto assim, nesse molde, dentro da tradição, que vê o parto como evento espiritual e familiar, porque, apesar de ser a mulher que pari, toda a família está envolvida nesse processo. É uma grande alegria e libertação pra essa mulher.

Atualmente a violência contra as mulheres tem aumentado muito, principalmente contra as mulheres afrodescendentes e indígenas. Esse processo pode ser entendido como uma “nova caça às bruxas”, que priva as mulheres de suas práticas médicas, pune e controla seus corpos. Você já acompanhou alguma mulher que sofreu alguma violência?

Preta Jaya: Os estudos já apontam que sim, as mulheres pretas, indígenas, periféricas e com baixo nível de instrução são as que mais sofrem a violência obstétrica. E também, a gente chama de multíparas, que são as mulheres que têm mais de três filhos, elas já são olhadas diferente, com um certo preconceito mesmo.  Então quando uma mulher que está no seu sexto filho, “ai dela, se falar algum ‘A’ durante as contrações.” As enfermeiras brigam. O médico fala coisas desse tipo: “Na hora de fazer tava bom, agora você tá gritando!”. Toda mulher que pari a vontade e livre, ela pari pelada de cócoras ou de quatro! Em cinco anos de parteria, eu nunca vi uma mulher falar “Aí, eu vou deitar de barriga pra cima e colocar as pernas para o alto, porque agora o nenêm quer sair…”, isso quem faz com a gente é o médico. “Tá nascendo, deita ali, coloca as pernas para cima!“ Eles amarram, às vezes, pra mulher não se mexer. Então nenhuma mulher pari assim naturalmente, nenhuma!

Um ano que eu ainda estava de Doula, era o segundo parto dessa mãe, e o primeiro parto foi uma cesárea marcada, ela não entrou em trabalho de parto. Também por conta dessa situação da rede privada, que 90% dos partos são cesarianas e induzidos pelo médico. E no segundo bebê ela já tinha mais informação e decidiu esperar e tentar parto normal. A gente tem a questão da idade gestacional, que entre 37 e 42 semanas para o bebê nascer, mas alguns médicos não esperam chegar até as 42 semanas, ou nem até às 40 semanas, e quando a mulher entra em 38 semanas os médicos já começam a falar que o bebê está correndo risco, pra mim o único risco que esse bebê tem é de nascer. Essa médica já tinha marcado de fazer em 38 semanas a cesárea, a mãe se opôs e disse que não, que queria esperar. Quando deu 39 semanas a médica começou a pressionar novamente, e no dia que era pra ela se internar ela não queria ir, ela já tinha me ligado chorando, falando o que estava acontecendo. Eu falei que ela podia esperar, e que não precisava ter o bebê com essa médica, que já era médica da família. Aí a bolsa dela rompeu, sem ela estar em trabalho de parto, então ela me ligou e falou: “Preta, a minha bolsa estourou, mas eu ainda estou sem contrações, o que eu faço? e a médica quer que eu vá para o hospital amanhã.” Eu falei: “Então vamos tentar estimular as contrações. Eu fui pra casa dela e fizemos o chá da Naoli (Parteira mexicana) escalda pés, massagem, estimulando para entrar em trabalho de parto.”  Ainda assim, a mãe não estava sentindo nada. Esse protocolo, dependendo da equipe, dentro do hospital eles esperam doze horas de bolsa rota, e começa a tacar antibiótico na mulher para evitar algum tipo de infecção, mesmo se ela não tiver nenhuma. Algumas equipes humanizadas esperam vinte e quatro horas, monitorando e repondo líquido, aumentando a ingestão de líquidos dessa mulher. “Então a gente foi pro hospital com doze horas de bolsa rota, ela começou a tomar o antibiótico, ela começou a ter algumas contrações, e a médica veio avaliar, e disse que estava com 2 cm”. E a gente usa uma técnica, as Doulas vão saber, que é a Linha Púrpura: é uma linha que aparece em cima do ânus e sobe em direção ao cóquis, vai ficando vermelhinha e depois ela vai ficando roxa. E a história é que essa linha segue a dilatação do colo do útero. Por essa linha ela já devia estar com pelo menos 6 cm. Porque Doula não faz toque, a gente acompanha pela linha púrpura, e a gente ficou triste porque 6 cm já era metade do caminho e nós acreditamos na médica. E nós continuamos trabalhando, mas a médica começou a pressionar, porque ela queria muito fazer uma cesariana, mas a mãe não queria e dizia que não, que iria esperar. A médica ofereceu para fazer a ocitocina, que é aquele soro que coloca na veia para aumentar as contrações. Ela começou a ter contrações muito fortes e eu percebi, porque como é instintivo, as mulheres se comportam de forma parecida durante o trabalho de parto. E naquele momento, ela estava mesmo com uma feição da fase de transição, que é quando chega em 8 cm. Ela já estava suando, eu falei nossa: “acho que já está evoluindo”. Aí a médica veio de novo e fez outro toque e disse 2 cm, só que não foi só isso, ela esculhambou a mulher, ela falou que ela estava sendo irresponsável, que estava colocando o bebê em risco, e que a mãe estava esperando o bebê entrar em sofrimento para fazer a cesárea. Tudo isso, num tom super ríspido e agressivo. Aí a mãe começou a chorar compulsivamente, de soluçar e aceitou fazer a cesárea para não colocar o meu bebê em risco. Aí a médica não conseguiu nem esconder, e deu um sorriso na hora que a mãe aceitou fazer a cesárea. Sabe aquele semblante que abre o sorrisinho? E olha que isso foi no Hospital São Luiz, é um hospital chique, ninguém tinha se mexido nesse tempo todo que a gente estava lá, pra arrumar uma bola, pra encher uma banheira, pra fazer nada que ajudasse essa mulher. Mas na hora que ela falou que ia fazer a cesárea, rapidamente apareceu a cadeira de rodas, rapidamente aconteceu todo o movimento. E aí, no hospital tinha uma sacada, eu tenho uma forte conexão com a lua, era uma lua nova, eu fui na sacada e fiz uma reza pra mãe divina, eu falei “Nossa mãe, olha o que estão fazendo com a sua filha.” Levaram ela pro centro cirúrgico. Como no centro cirúrgico só pode um acompanhante, foi o companheiro dela, e eu fui lá murchar minha bola, recolher meu material, chateada mesmo, sabe? Porque eu vi a manipulação da médica e a pressão o tempo todo. Eu guardei todas as coisas e desci e fui pro estacionamento. O tempo de eu arrumar as minhas coisas e descer, meu telefone tocou e era ela. E ela gritava: “NASCEU, NASCEU, MEU FILHO NASCEU!” “Que bom! Parabéns!” e ela me interrompia: “VOCÊ NÃO ESTÁ ENTENDENDO, NASCEU DE PARTO NORMAL! EU PARI!” Aí ela falou assim: “Depois que você saiu, eu fui pro centro cirúrgico. Chegaram lá e me colocaram na maca e começaram a amarrar um monte de coisa em mim. Antes do anestesista chegar, coroou, aí as enfermeiras começaram a gritar: “DOUTORA! DOUTORA! VAI NASCER, VAI NASCER!” A doutora estava na sala do vestiário, onde coloca a roupa cirúrgica e ainda por cima, a médica estava “comendo o toco do pai”, questionando até o dinheiro que eles tinham pago para a Doula, porque não era um serviço garantido, porque podia ter comprado fralda. Que a mulher não tinha tipo físico para parir, que o biotipo dela não era favorável ao parto. E aí quando começou a gritaria que a médica e o pai correram para a sala. E a médica foi extremamente grossa e disse: “Você não queria ter um parto normal? Agora para de gritar e me escuta! E orientou ela em relação a fazer força e o bebê nasceu meia hora depois.” Eu não tinha nem saído do estacionamento ainda, então, assim, ela não estava só com 2 cm de dilatação, e o bebê também não estava alto, porque o bebê demora pra descer. Quando ela fez o toque, provavelmente o bebê já estava ali. Graças a Deus, que não deu tempo de fazer a cesárea, porque se a médica fizesse, ela ia puxar o bebê de volta pelo canal, porque o bebê já estava embaixo. O bebê  coroou em meia hora. Que dilatação era essa? Então essa foi uma das experiências mais forte em relação à violência. Porque não foi só uma violência verbal, foi uma violência total. Tanto de minar a força da mulher, tanto de hostilizar a decisão dela, de questionar a escolha dela de ter uma Doula.

Hoje, eu não atuo mais dentro do hospital. Mas é muito relativo, não é todo hospital que está aberto, mas tem alguns hospitais que se abre para receber a Doula, e tem algumas instituições que são totalmente engessadas, que querem que a Doula cumpra o protocolo deles e aí a gente fica sem ferramentas e sem tantas opções. Atualmente eu só escuto falar tanto coisas boas, quanto ruins. É importante falar que a parteira é associada diretamente ao parto, mas ela na verdade é uma agente de saúde, ela não cuida só da gestante, ela cuida da família inteira, é a mesma mulher que ajuda quando tem uma questão com a criança, quando que benze, que orienta, que aconselha, que acolhe que tenta ajudar de alguma forma quando a mulher precisa, então é melhor a gente tirar a parteira só desse lugar do parto e ver ela realmente como agente de saúde para todos os momentos e não só para a gestação.

A parteira tradicional faz um trabalho antes, durante e depois?

Preta Jaya: Sim, e que realmente é um trabalho com a família toda. Não é só com a mulher, não é só com a gestante, quando a gente vai tratar de uma mulher que está grávida a gente acaba tratando o casal, porque se o companheiro não estiver firme, não estiver fortalecido, ele mais atrapalha do que ajuda. Nessa questão, desse acompanhamento, o que a gente faz é acompanhar o pré-natal e aí eu trabalho muito forte a questão dos ritos de passagem. Eu acredito que para uma mulher entrar em trabalho de parto e acessar a mulher selvagem, ela precisa estar harmonizada com alguns arquétipos, como por exemplo da criança interior. Então a gente faz um trabalho terapêutico, de resgatar essa menina, a gente transita pela mulher selvagem, o arquétipo da mulher loba, para ela acessar também essas forças. E isso varia muito de gestante para gestante, porque como é uma questão holística eu não tenho um protocolo padrão. O padrão é o pré-natal. A partir do histórico, ela me traz informações das memórias, dos registros da família, de como foram os partos. Então hoje, na nossa geração, já tem mulheres que nasceram de cesáreas, a mãe nasceu de cesárea, todas nasceram de cesárea, então a gente tem esse registro e tudo isso é levantado durante a gestação. Que são os traumas, os pontos de bloqueio, os gatilhos, a relação com o masculino, a relação com a mãe, a relação com as mulheres e tudo isso é trazido como informação para desenvolver esse trabalho que vai ser feito com ela.

Pintar a barriga é um momento mais próximo do parto. É a roda de bênçãos, ou o colo como também é chamado, que é um momento que a gente para pra acolher essa mulher com seus medos, com sua ansiedade, também na sua força, pra ela falar mesmo para o bebê: “Agora eu tô pronta, você pode vir! A hora que você quiser, você pode vir.” Então é um ritual que fica muito a critério da mulher, se ela quer que seja intimista, se ela quer que seja uma festa, há mulheres que fazem com a família toda. E é muito bonito, porque ao contrário do Chá de bebê, com aquelas brincadeiras esdrúxulas, desenhos obscenos na testa, onde toda a arrecadação é para o bebê e tudo de ruim fica para a mulher. A gente investe em tudo de especial para ofertar para a mulher. Então, por exemplo, quando é algo que tem mais pessoas, a gente oferta flores, frutas, chocolates, rezos, cantos, massagens, escalda pés, cada um oferta uma benção para ela. E nunca é só uma fruta pra você comer, é uma fruta que representa abundância, prosperidade, é uma vela que está trazendo luz para iluminar seu caminho, são sempre simbólicos. É incrível, eu nem gosto de fazer isso antes do tempo, das 37 semanas porque é batata! A gente faz e o bebê começa a querer nascer. E é um momento para ela receber, porque depois que a gente tem o bebê, a gente fica uns 2 anos só se doando para o bebê. E as pessoas em volta também, foca só nas necessidades do bebê, nos cuidados com o bebê, e a mulher fica anulada. Ela vira mãe. E nesse momento, as mulheres enfrentam muitas dificuldades, porque a maternidade é um choque muito grande de perda da individualidade. Até ontem, eu era eu, agora eu sou a mãe dessa criança.

 É legal, é bonito? É! Mas tem muita romantização da maternidade! E isso também é uma criação do sistema, porque uma mulher que fala: “Tô odiando ser mãe, ela é mal vista. E mesmo que ela está odiando, ela não fala, ela engole quieta, não compartilha essas dores. É muito desafiador. Além de perder a individualidade, perder a autonomia, porque muitas vezes a gente para de trabalhar, muitas mulheres são mandadas embora do serviço, passam por humilhação no serviço, eu já tive que fazer teste de gravidez para ser contratada em uma empresa.

Então, essa perda da individualidade, da autonomia, do sono, porque logo no comecinho o bebê não dorme e a mãe também não dorme, se essa mulher não tiver uma rede de apoio, não é só levar fralda. É ir lá um dia, ficar com o bebê pra ela poder tomar um banho, demorar meia hora debaixo do chuveiro, porque ela não consegue fazer mais nada, sabe? De ir lá e lavar uma louça, passar um pano no chão, estender ou recolher uma roupa. De ir lá, e conversar, porque isso também é bom, porque ela fica trancada, só com o bebê. E também tem a questão da vida social, porque quando você é a única amiga do grupo que tem filho, você é automaticamente excluída. É uma questão cultural que a gente não aprende, e porque as pessoas não querem te incomodar, porque sabe que você tem bebê, e aí você começa simplesmente a não existir porque ninguém te chama pra sair, porque sabe que você está ocupada com o bebê, mas também não vai lá te ajudar.

Têm essas questões estruturais, do machismo dentro de casa, às vezes a mulher se sobrecarrega muito. Às vezes a mulher teve o filho e o pai foi embora já, então a mulher tem que se virar sozinha e tem que pedir ajuda pra mãe, é um processo muito doloroso para algumas mulheres, né?

Preta Jaya: Pois é, e a gente está falando isso. E eu tô aqui pensando em uma mulher que quis ter o bebê. E a mulher que não quis ter o bebê, e tem que passar por todas as mesmas coisas? Hoje a gente sabe que existe a depressão pós parto, mas e quando não tinha esse nome? Que nome essas mulheres levavam? De manhosa, de preguiçosa, de frescurenta, de louca. Por isso é importante que a gente tenha essa rede, não só pra quem teve o bebê, mas pra quem está perto, saber de verdade como que é. Porque é extremamente desafiador, tem momentos que a gente senta e chora junto com a criança porque a gente não sabe o que fazer. E não tem manual, a gente não sabe, então a gente vai ter que descobrir tudo. Mesmo que a mulher já tenha filho, mas cada filho é um, é diferente. Trazem desafios e missões diferentes. É sempre tudo novo, nunca é igual.

Tem as mulheres que também não querem ter o bebê, que foram abusadas, ou que simplesmente não podem e acreditam que não é o momento de ter um filho e desejam fazer um aborto, qual a sua opinião sobre isso?

Preta Jaya: Eu acredito que essa é uma escolha única e exclusiva da mulher. Porque, por mais que tenha uma rede, por mais que tenha tudo, é só ela que vai passar por todos os desafios, altos e baixos. E um dos motivos, que nós mulheres somos consideradas Deusas, é  porque podemos proporcionar a Vida e a Morte. Porque se a mulher quiser, ela aborta e ninguém fica sabendo, nem o pai, nem a mãe e nem ninguém. Porque ela é a primeira pessoa que vai sentir uma coisa diferente. Ela que vai ver que a menstruação não veio, ela que tem esse controle de saber se ela está gestando ou não, então é uma decisão que se ela quiser tomar, ela toma sozinha, ela não precisa pedir permissão pra ninguém! É dela! Eu acredito muito nessa autonomia, e eu acredito nisso como um direito!

O que eu sou contra é quando o aborto vira um método contraceptivo, que eu vejo muito na periferia, e eu falo isso porque já tive casos muito próximos de mim. Inclusive eu falei, que comecei a doular lá no começo de 2010 e 2011, mas os meus primeiros partos foram acompanhando abortos, quando eu tinha 14 e 15 anos, ajudando amigas. Então eu já era Doula sem saber, porque o aborto também é um parto! Então vamos se ligar, vamos se cuidar, a gente tem vários recursos, todo mundo sabe como acontece, não é igual antigamente, que muita gente não sabia. Hoje nós temos camisinha no posto de saúde, a forma do autoconhecimento, de conhecer seu ciclo, então tem várias maneiras da gente evitar. Então se aconteceu uma vez, e não é o meu momento, eu vou me cuidar pra não acontecer de novo.

As mulheres passam por um processo de nascimento e de morte e elas carregam isso para toda uma vida, né?

Preta Jaya: Algumas amigas que eu acompanhei nessa situação, eu nunca passei por isso, até porque todos os meus filhos foram desejados, nenhum foi no susto não, todas as vezes que eu engravidei, foi porque eu queria engravidar. Não só de amigas, mas eu já escutei muitos relatos desse trauma que você trouxe, que perdura a vida inteira. Então, por exemplo, de mulheres escutarem a criança chorando, de não conseguir mais engravidar, ou depois de não conseguir estabelecer outra relação porque ela já foi machucada naquela relação anterior, porque às vezes, essa decisão não acaba sendo nem da mulher, às vezes é imposta pelo homem. No sentido de, “Se você quiser ficar comigo, você vai ter que tirar…”

Isso gera traumas bem profundos por causa da criminalização do aborto, porque se a mulher entendesse que é um direito dela, talvez ela não sofreria tanto. Porque se ela faz uma coisa que é mal vista, já triplica essa carga. E nisso a gente também já sabe, que quem morre mais, são as mulheres pretas e periféricas, pois quem tem condição, elas vão em uma clínica paga três, quatro, cinco mil… Não sei quanto é, mas eu sei que é caro. E o próprio médico vai lá e faz o procedimento, mas as mulheres que estão nos bolsões periféricos, elas se arriscam! elas fazem isso sozinha ou em clínicas clandestinas, que não têm nenhum aparato que mulheres de classe média e alta vão ter.

Faz pouco tempo que a Legalização do Aborto resultante de estupro foi aprovada em alguns países da América Latina, como na Argentina, você acredita que essa conquista do aborto livre, seguro e gratuito demoraria muito aqui no Brasil?

Preta Jaya: Hoje por conta dessa movimentação e até por conta do acesso que a gente tem à internet, que as notícias correm muito rápido, e as informações chegam muito rápido. Eu acredito que não vai demorar tanto, mas eu não sou tão otimista. Precisa de uma mobilização muito grande. E tem a questão da religião, né?, Porque a gente tem muito forte essa bancada da bíblia. E a Igreja vem e diz que você não pode abortar, mas nunca vem ajudar em nada. Tem tanta criança na rua, crianças desamparadas, precisamos superar essa questão da religião e do dogma para focar no bem-estar das mulheres mas principalmente das crianças, porque os abrigos estão cheios, as ruas estão cheias e as comunidades também estão cheias. E mesmo que essa criança, que não foi abortada, mesmo que a mãe deixe a nascer, acaba não tendo a mesma assistência, o mesmo carinho, o mesmo cuidado de um bebê que é desejado e planejado. Ainda mais que a gente falou das questões da violências, a gente não tem ideia de quantas crianças também nasceram de situação de violência, ainda que seja dentro de um relacionamento.

Movimento de Parteiras

Preta Jaya: A gente precisa brigar muito aqui ainda pra ser aceita, e cumprir as leis, porque os bebês que nascem em casa com parteira, eles chamam “sem assistência” (médica), dá um trabalho danado pra registrar depois. É duro! Quando a criança nasce no hospital, hoje em dia, ele já sai registrado do próprio hospital “a declaração do nascido vivo” uma via fica no hospital, uma com a família, e a outra com a secretaria da saúde. A família só vai no cartório com esse papel e registra, é um procedimento padrão. Quando esse bebê nasce em casa, ele não tem esse papel, só que esse papel tem que ser preenchido no cartório. Então o que que a parteira faz? Ela faz uma declaração com todos os dados que precisa ter do “nascido vivo”: o peso, o tamanho, as medidas, quantas horas de trabalho de parto, se teve alguma intercorrência, quantas consultas pré-natais essa mulher passou. No cartório eles precisam ler a declaração da parteira, preencher os dados, carimbar e mandar pra Secretaria de Saúde, mas eles começam a bater o pé e falar: “Não vocês precisam ir no hospital. Não vocês precisam ir no Conselho Tutelar. Não vocês precisam ir na Secretaria… ”Eles mandam a família para todos os lugares, mas não resolve. Então, às vezes, a família vai várias vezes, fica pulando de um lugar para o outro, com a mulher parida que acabou de ganhar neném.

Semana passada tava rolando uma movimentação em Paraty, que tinha crianças com seis meses, que ainda não tinham sido registradas porque o cartório estava se recusando a registrar. Eles alegam, no sistema geral, que isso é para evitar fraude, “porque pode acontecer de eu pegar o bebê de alguém e registrar como se fosse meu”. Cada lugar eles tratam a parteira de uma forma, no Norte e no Nordeste existe, inclusive uma declaração própria para a parteira que ela não precisa nem saber ler, porque ela é toda desenhada, ela só vai fazendo a “Checklist”. Isso foi parte de um projeto chamado rede cegonha, mas eu lembro que foi um trabalho que a Secretaria de Saúde fez com as parteiras dessas regiões, inclusive cadastraram algumas parteiras como agentes de saúde do SUS e elas recebiam até um salário mínimo.

Eu acredito que a gente ainda vai mudar esse cenário, porque tem muita mulher empoderada e se empoderando cada vez mais, entendendo que, sim, é um direito dela, e quando essa decisão partir de um lugar consciente, quando esse movimento acontece por opção, ganha mais força. Considero este momento planetário propício às transformações e evolução real da humanidade, pois esse “progresso” que nos vendem é a maior mentira. Progresso pra mim é autonomia. Tudo que a gente precisa é a terra quem dá.

6 Comentários

  • José Euzébio de Arruda disse:

    Que entrevista maravilhosa! Fui o último de doze filhos nascido com parteira(madrinha Chiquinha) no interior de Pernambuco e lamento não ter acompanhado o nascimento dos meus dois filhos, embora tenham nascidos de parto natural. Sou Conselheiro Tutelar e tenho pós graduação em psicologia hospitalar. Considero o trabalho das parteiras de estrema importância para toda a sociedade. Sou fruto e testemunha desse trabalho. Parabéns a Preta Jauá e a todas as parteiras desse país.

  • Camila Soarez disse:

    Lindo! Já conhecia alguns pontos da sua história, Jaya, comecei no Sagrado Feminino junto com vc e anos depois vc me “formou” Doula! Mas alguns pontos aqui que eu não sabia me fizeram chorar, especialmente do parto que vc relatou. Temos muita luta pela frente, gratidão por partilhar mais um pouquinho com a gente. Seu servir é muito importante, que a Deusa te abençoe sempre!

  • Bianca disse:

    Amei essa matéria e como foi explanado com clareza sobre a vida das mulheres na atualidade. E também tenho fé que vamos conseguir mudar esse cenário 💪

  • Samuel Barreto disse:

    Que emocionante ler sua saga,jaya!! Eu participei de alguns momentos, mas ler é completamente diferente…que história linda de autoconhecimento, chamado, missão e amor! Te amo, mana!!

  • Cris disse:

    Que história linda e inspiradora, uma verdadeira persistência no seu chamado, luta e fé! Mana te amo e agradeço pois me ajudou muito nos meus dois partos! Que Deus continue te abençoando e a todas as mulheres guerreiras como você! Bjsss

  • Elisangela disse:

    Mulher guerreira, todo seu relato de amor me representa!
    Sou extremamente grata por ter conhecido uma pessoa como você, sua passagem na terra foi muito inspiradora e transformadora para muita gente.
    Siga na luz

    Te AMO sempre
    _/\_

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