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09 jun 2022

As Cacofonias Eróticas da Sabina

“Eu demoro quatro horas pra gozar”

“Um role mais tântrico?”

Disforia mesmo.

“Podemos começar pelas tantras”

“Ei, posso pedir uma coisa?”

“Podemos só se olhar um pouco.”

“Eu coloquei a mão dela nos meu seio direito, ou foi o esquerdo?”

“Mal tenho tetas pra apertar”

“Ela fechou a mão com força, arranhando um pouco com as unhas.”

“Você é virgem?”

“Não sei dizer, tecnicamente não, me sinto virgem”

Parece às vezes que eu nunca gozei.

“Meu gozo mudou muito. Antes era algo localizado, intenso, mas só na minha pipica, hoje eu sinto no corpo inteiro. Imagino que pra você vai ser o inverso, com a T e tudo.”

“Se não houve penetração, você é virgem.”

“Se eu faço oral toda semana por seis meses, eu sou virgem?” 

“Odeio quando ela faz em mim”

“Ela me tratava como um homem”

“Eu e minha mãe concordamos chamar de pipica, ela chama de pepekona, mas aí eu acho muito grande”

“Você fala com sua mãe dessas coisas?”

“Fumei um baseado com ela e o amante dela outro dia”

Amante mais ou menos, ele que é casado.

“Descobri que em 28 anos de casamento meu pai nunca fez oral na minha mãe. Minha mãe foi só receber o primeiro oral aos 52.”

“Deus, alguém goza no mundo cishétero?”

“Os homens.”

“Nem eles, não de verdade.”

“Aos doze, treze, me masturbava enfiando uma escova de dente no meu cu.”

“Me fazia me sentir melhor do que tocar na pipica.”

“Você tem nojo dela?”

“Acho ela muito grande. Me dá pânico, me dá calafrios. Diminuiu com a hormonização, mas, quando eu fico ereta…”

“Como você se masturba sem tocar nela?”

“Às vezes eu uso um vibrador, mas não consigo relaxar o suficiente pra gozar…”

“Então você toca e te dá disforia. Que bosta.”

“É. Às vezes se eu tocar bem de leve, e ir roçando nos meus seios, e ir imaginando uma moça, deslizando o dedo na minha espinha…”

“Eu gosto de paus, sabe. Só acho eles bonitos.”

“Então eu sou a mulher perfeita?”

“Não! Quer dizer, aí eu estaria te sexualizando…”

Sexualizada eu quero ser até, objetificada não. Nossa, como eu quero ser sexualizada por essa mulher. 

“Minha sexualidade é estranha. Um amigo me apontou LGBT, cada letra, um ponto da minha vida. Sendo que eu sempre fui T, e sou coincidentemente um tesão.”

Acho que pus essa piada numa carta bizarra pra minha ex.

“Eu não acho que você superou ela.”

“Estou superando. Uma dor, como um prazer, não é apenas uma coisa só. É o emaranhado de memórias que cada evento espelha e repete eternamente”

“Não foi a primeira vez, duvido que será a última.”

“Não vou fazer algo assim com você”

“Eu me sinto segura perto de você.”

“Eu gosto quando você cheira o meu cabelo e me segura.”

“Eu gosto de te dar minha bochecha pra beijar.”

“Eu gosto de ficar chapada com você.”

“Eu gosto de você.”

“Então, comentei com uma amiga que tava saindo com uma moça. Ela me mandou direto o Kama Sutra para Lésbicas.”

“Que resposta interessante.”

“Eu li tudo.”

“Pode me mandar também?”

“Te mandei. É bem ciscentrico.”

Mas ela é cis né. 

“Eu não tenho nem a mesma configuração genital dessas moças, mas eu aprendi tanto. Minha educação sexual foi horrível.”

Só lembro da frase:

“Sexo anal não reproduz.”

“Então, filha, onde fica a próstata? Ontem usei um vibrador no [amante], ele disse que gostou, mas acho que machuquei.”

“Coloque um ou dois dedos, sinta a textura do cu, e vá procurando uma pele mais rugosa à direita, com um pequeno relevo. E aí vai massageado. Depois tente com um vibrador, e o Monstro Rosa é muito grande, aquela coisa machuca.”

Eu não gosto do cara. Ele me lembra da minha ex.

“Eu gostaria de ser fodida por uma moça com um cintaralho, ou com um falo.” 

“Você gosta demais de anal pra ser lésbica.”

“Por muito tempo pensei que fosse heterá. É aquela coisa, você se descobre trans, mas ainda sente uma pressão pra passar.” 

“Ainda viver no mundo heterosexual, no reino dos eternos normais, ser uma moça trans vanilla respeitável, branca, bonita, completamente respeitável, e com vagina, definitivamente respeitável. Sabe, o tipo de moça que o mundo cis em tese respeita, e que só faz missionário na cama.”

“Você vai cortar fora, minha neta?”

“Por que você fez essa bosta com você se você gosta de menina agora, minha neta?”

“Você vai acabar num mal caminho, vai acabar puta, vendendo seu corpo, minha neta.”

“Eu já pensei em me prostituir. O emprego não vem.”

“Meu pai achava que eu tava me prostituindo.”

“Eu queria pelo menos gozar de verdade antes de sabe, me vender.”

“Eu não acho que eu conseguiria, eu não acho que saberia como, talvez eu ainda não esteja desesperada o suficiente.”

“Vai ver só viro camgirl, mas sou sexy o suficiente?”

“Agora tô insegura quanto a minha aparência? Deus, eu não me sinto assim perto dela.”

“Eu sei que ela me olha quando eu não estou olhando, eu sinto o calor na minha nuca.”

“Você é incrível.”

Você é incrível.

“Devagar, bem, devagar, que é pra eu ter tempo de me apaixonar.”

“Eu me sinto uma princesa… não daquele jeito patriarcal, sabe.”

“Eu não sou uma moça muito casual.”

“Eu preciso levar as coisas devagar. Eu saí de uma situação ruim, e tá difícil.”

E eu tenho medo.

“Eu também quero.”

“Me deixa muito feliz que você se sente segura comigo.”

“Às vezes eu acho que eu gostaria de BDSM, adoraria ser amarrada, ou algo como uma dor leve, pra experimentar. Me sinto submissa.”

“Aí, eu sou bem dominante. Inclusive fui bem dominante com homens. Odiaria ser amarrada, e tenho um pouco de pânico de amarrar.”

“A maior parte da minha experiência é com mulheres.”

“A minha com homens.”

“Eu sou a primeira pessoa trans com quem você fica?”

“Sim.”

“Eu sou a única pessoa trans que você conhece?”

“Sim.”

“Eu não sei, ler o Kama Sutra para Lésbicas foi uma experiência reveladora. Eu não preciso ser passiva pra ser feminina, nossa, o mundo coloca umas ideias tortas na cabeça.”

“Já está baixado no meu Kindle. Podemos ler sobre Tantras juntas também, né?”

“Podemos, podemos tudo e um pouco mais, te adoro, moça bonita.”

“Te adoro moça bonita.”

Sabina Sabino, moça trans, vinte poucos anos, poeta e escritora profissionalmente amadora com terríveis excessos de estilo e forma. Estudante de filosofia e tradutora de inglês ocasionalmente. Se quiser me procurar, não vai achar, mas manda um e-mail se tiver algum trabalho pra me dar, ou quiser ver mais do que eu escrevo. gbsabino@gmail.com

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