Quem somos

Espalhados, nada especiais, ativos, sem verdades a propor e sem condescendência com a injustiça que pesa sobre nossa classe. Costas curvadas, estamos – como células, a nos reproduzir invisivelmente em toda a resistência que pudermos alcançar com nossas faíscas.

O que é o Quilombo Invisível?

A palavra quilombo dá nome a muitas coisas mas, sobretudo, a um território auto construído pelos escravos que fugiam da exploração e da opressão, um lugar desenhado por negrxs fugidxs, seus filhxs e outrxs libertxs. Os quilombos se configuraram como espaços de autogoverno e, durante centenas de anos, foram as principais experiências de negação radical da ordem colonial. Eles também cumpriam o papel de base militar e de autodefesa dos escravos, que tinham que estar sempre preparados para resistir ou, quando impossível se defender, fugir dos escravocratas. Era um espaço que unia mocambos de diferentes famílias, integrando uma multiplicidade de lideranças, referências e etnias. Ele acolhia escravos (negros ou indígenas) fugidos para curar as feridas que a brutalidade da exploração e da opressão provocavam, permitindo cuidar e ser cuidados (lição que o movimento feminista vem recuperando em práticas radicais). Era um espaço de auto-valorização que permitia a recomposição das formas de expressão desejadas e que a exploração racista tolhia.

Aqui não se trata de idealizar os antigos quilombos, mas de trazer os aprendizados dessa experiência de luta para os enfrentamentos atuais em relação à exploração, opressão e resistência que constituem o cotidiano invisível da luta de classes. Somos invisíveis porque somos os filhos dessa mestiçagem afro-indígena oprimida, subalternizada e espoliada pelo capital. Somos trabalhadores e militantes invisibilizados inclusive pelas esquerdas porque priorizamos as lutas que ao olho hegemônico pareceriam invisíveis, como as que abarcam os negros, negras, indígenas e afro-indígenas – que são, ainda hoje, a massa super explorada de periféricxs, desempregadxs, sem teto, empregadas domésticas, terceirizadxs, precarizadxs, encarceradxs, exterminadxs, etc. Invisíveis também pois nossas formas de resistência são ocultas: a revolta latente que se espalha e se constrói diariamente em ações invisíveis, nos momentos diários da reprodução da vida e do trabalho que constituem o grosso da luta de classes. Somos invisíveis pois entendemos que nossa luta não pode ser meramente propagandística e espetacular, nem voltada para autoconstrução e a promoção de nossas figuras individuais.

O site Quilombo Invisível é um espaço de debate e de fortalecimento de nossas lutas cotidianas. Acreditamos que o debate de ideias produzidas pelos de baixo, pelxs trabalhadorxs, indígenas, mulheres, operárixs, negrxs, etc, são necessários ao avanço e fortalecimento das lutas, para seguir, de forma coerente, a perspectiva de que a libertação dxs de baixo será obra dxs de baixo. Portanto, a formulação não pode continuar a ser exclusivamente atada a espaços da classe burguesa ou pequeno-burguesa, atrelados ao Estado, a burocracias partidárias e sindicais ou a intelectuais profissionais. Entendemos também que a arte e a literatura são formas de sistematização não reconhecidas como conhecimento ou ciência mas que atravessam a elaboração dos de baixo tanto para resistir quanto para atacar e, por isso, este também é um espaço de visibilização e valorização dessa produção.

A página Quilombo Invisível foi pensada para publicar textos de autorxs diversxs, não necessariamente em acordo total com nossos posicionamentos, mas com  quem tenhamos alguns acordos mínimos que permitam o diálogo. Além disso, publicaremos nossos posicionamentos tanto como coletivo quanto como indivíduos, baseados na nossa experiência como militantes.

Entendemos que não pode haver uma perspectiva revolucionária de fato que não seja internacionalista e por isso fazemos o esforço de traduzir nossos textos, na medida do possível, para o inglês, como forma de articular algumas lutas do Brasil com as lutas de outros países. Entendemos que algumas de nossas principais preocupações, como a relação da opressão racial, étnica e de gênero com a luta de classes, são temas centrais também desenvolvidos na resistência e organização da luta em territórios que utilizam a língua inglesa como Estados Unidos, Índia, África do Sul, etc. Acreditamos que a articulação entre lutas desses lugares é uma necessidade.

Entendemos que há muitas colaborações importantes para que avancemos no ainda pobre debate sobre os movimentos que, desde uma perspectiva de classe, entrelaçam seu olhar às lutas racial e de gênero. Por isso, nos interessa fomentar a tradução de textos com essa temática e, assim, difundir esse conhecimento. Acreditamos que esses textos trazem aprendizados muito importantes para o avanço das lutas e temos o privilégio de aprender com as experiências das revoluções de libertação nacional no continente africano, com as experiências de greve geral de trabalhadores informais ou a heróica resistência das mulheres na Índia, assim como da Revolução Curda e da experiência do movimento negro e do Partido dos Panteras Negras estadunidense.

Assim, o site está estruturado com as seguintes sessões temáticas:

  • Ideias invisíveis: onde publicaremos artigos de opinião, entrevistas, análises e debates, sobre as diferentes lutas e realidades que enfrentamos, assim como de temas correlacionados e traduções.
  • Notícias invisíveis: onde publicaremos notícias de eventos e lutas que estão acontecendo.
  • Letras invisíveis: onde publicaremos poemas, contos ou trechos de livros de literatura.

Apresentação gentilmente escrita pelxs invisíveis:

Gabriel Silva, Heloisa Yoshioka, Helena Silvestre, João Vitor Seixas e Nathália Ract