O que queremos

Quem somos e o que queremos?

Somos um grupo de pessoas diferentes entre si, com trajetórias distintas e, no entanto, nos juntamos porque o que nos falta nos uniu. Não é à toa que nos aproximamos justamente no momento político em que quase toda esquerda radical voltou a se alinhar ao petismo – momento em que distintas experiências críticas à institucionalização das esquerdas passaram a reproduzir o que criticavam. 2018 foi um ano em que os limites de organizações e processos em que acreditamos, que reivindicamos ou contribuímos se fizeram evidentes.

Diante disso, nós temos objetivos comuns e particulares.

Alguns de nós buscam a possibilidade de integrar uma prática política com continuidade e enraizamento na construção desde baixo – o que faz falta num cenário de atuações eventuais, sazonais ou superestruturais.

Outros desejam a possibilidade de elaboração programática mais ampla do que seus espaços são capazes de promover, dado que a pressão das organizações institucionais – mesmo quando honestamente combativas – as leva a fazer coro com as práticas que arrastam a sublevação outra vez para dentro dos marcos da ordem.

Buscamos também que o espaço que integre estas necessidades tenha uma composição de classe que expresse aquilo que carregamos como perspectiva: que pobres, negrxs, indígenas, LGBTTs, periféricxs, trabalhadorxs, operárixs e mulheres sejam majoritárixs. Dito isso, a possibilidade de construir com camaradas de outras origens e trajetórias existe desde que rompam com sua situação de classe e privilégios. Além disso, estes não devem ser o perfil hegemônico e majoritário e nem assumir o lugar de quem elabora sobre as intempéries que atravessam a vida da classe trabalhadora sem estar pressionados objetivamente por elas.

Assim, a soma destas necessidades poderia se configurar como o conteúdo de uma organização política ou como um espaço de elaboração teórica e política indissociável de uma prática que pode ser motor e destinatário destas elaborações. Mas aqui se evidencia que a nossa comunidade é o que nos falta e, portanto, a nossa unidade é coesa, capaz de agir unificada e sincronizadamente mas não pretende guardar homogeneidade de opiniões, hegemonias hierarquizantes e segredo sobre diferenças entre nós. Da mesma forma, não pretendemos construir uma síntese geral que englobe a totalidade de nossa classe e seus desafios históricos ou conjunturais. Neste momento, mais importante que certa categorização da forma organizativa, é necessário desenhar seu conteúdo em processo e dinâmica, para não incorrer em erros já conhecidos.

O horizonte de ruptura radical com o capital está posto, assim como a necessária unidade do conjunto da classe para que tal ruptura possa se dar. No entanto, não acreditamos que qualquer grupo seja individualmente capaz de promovê-la: somente a unidade de nossa atividade orgânica com a classe que pretendemos pode permitir isso e, portanto, atuamos como classe em busca de nossa unidade com outras frações de classe. Neste sentido, a perspectiva de unidade não é exterior. Ela é endógena e só pode existir em movimento, posto que é a luta de classes que pode permitir a unidade da classe.

O que nossas críticas dizem sobre o que queremos?

Porque de nada adianta criticar nos outros aquilo que nós mesmos reproduzimos por outras vias

a) Criticamos a  composição de classe majoritariamente pequeno-burguesa ou mesmo burguesa das cúpulas de vários espaços militantes. Essa crítica nos leva a ter uma perspectiva de construção organizativa com enraizamento em processos impulsionados pelos setores explorados e oprimidos. Portanto, pendendo quase sempre pela polarização do capital, movendo-se no sentido dos mais explorados entre os explorados e dos mais oprimidos dentre os oprimidos.

Essa perspectiva de composição não pode resolver-se apenas no âmbito jurídico (das regras e critérios), ela precisa estar desenhada no próprio DNA do que somos e de como pensamos, atuamos e nos conduzimos. A participação de pequeno-burgueses ou burgueses rompidos com suas classes pode acontecer desde que esteja bastante nítido que o papel de tais companheiros – à medida que enxergam seus próprios privilégios – seja o de integrar sem reproduzir estes mesmos privilégios. Isso significa atuar para que outros e outras, dos setores explorados e oprimidos, assumam o papel protagonista dos processos políticos, dispondo de tais privilégios a serviço do fortalecimento de ativistas de classes diferentes daquela com a qual romperam.

Na prática, este tema pressupõe que pensemos todas as tarefas a partir daqueles e daquelas que teriam mais dificuldades de realizá-las, marcando o passo e o ritmo a partir das fórmulas que se apresentarem como mais eficientes para que qualquer um de nós possa compreender e realizar tudo que nos pareça essencial do projeto coletiva e permanentemente construído.

Isso significa, por exemplo, que quanto mais confortável seja a condição sob a qual um militante vive, maior é sua responsabilidade em assumir tarefas sem esperar por isso reconhecimento maior. Portanto, a possibilidade de debater, decidir, realizar e construir juntxs não acontece baseada numa lógica comparativa da quantidade de tarefas que cada pessoa realiza. Dadas as circunstâncias de classe, nos importará muito manter entre nós companheirxs que tenham dificuldades com as tarefas justamente pela vida difícil que levam, ainda que isso implique que outros precisam fazer um pouco mais. O caminho inverso do privilégio, para uma tentativa mínima de equilíbrio.

Isto estará impresso desde as menores decisões (lugar em que as coisas acontecem, ordenamento dos debates, divisão de tarefas, etc.) até as aparentemente mais complexas (formas de comunicação, demandas prioritárias, projeção de figuras públicas, etc). O lugar onde uma reunião ocorre, por exemplo, sempre deve privilegiar a facilidade de quem mora mais longe, de quem trabalha mais tempo, de quem tem filhos, das mulheres, etc. A transformação de cada posicionamento numa célula que guarda nossos mais profundos princípios é a coerência entre prática e projeto, entre o que dizemos que somos e queremos ser e aquilo que de fato somos e fazemos em todas as dimensões.

b) Nossas críticas em relação a uma leitura fechada e mecanicista do que é a classe neste lugar e tempo nos leva a atuar integrando as questões de gênero, étnico-racial, das identidades afetivas e da demarcação territorial como elementos fundamentais a serem lidos pela ótica da luta entre classes. Assim como no tema dos privilégios de classe, a prática deve se postular sempre desde o lugar dos explorados e oprimidos, tendendo sempre a buscar o olhar desde os mais explorados dentre os explorados e mais oprimidos dentre os oprimidos.

Aqui se insere também como perspectiva a possibilidade de organização de trabalhadores, não necessariamente como organização sindical – ou melhor dizendo, preferivelmente por caminhos que não remetam à organização sindical tal como essa se institucionalizou: marcada pelo corporativismo de categorias, instituída a partir de aparatos incorporados ao estado e por dentro das lógicas hegemônicas de representatividade.

c) Há bastante tempo criticamos a prática universitária paralisante de fazer análises sistemáticas da sociedade de forma desconectada de intervenções na realidade, de forma individualista e distanciada das práticas coletivas. Nossa crítica nos levou a necessidade de compreender a prática teórica como práxis. Isso significa que, para a perspectiva revolucionária – que se posiciona no interior das contradições, atuando nelas – nenhum debate pode esgotar-se sem que os elementos da realidade nos inundem por completo e sem que testes e experiências sejam realizados, buscando coletar aquilo que a elaboração sempre deixa escapar ou formula de maneira idealizada ou incompleta.

Isso leva a que nossa elaboração sempre esteja associada àquilo que fazemos, ao tempo em que tudo o que fazemos esteja dentro de nossa pretensão de elaborar. Dessa forma, todas as nossas conclusões teóricas são permanentemente reformuladas a partir da riqueza dos elementos extraídos da nossa prática na realidade, desde as mais simples até as mais complexas decisões e posicionamentos.

Portanto, nenhuma crítica ou adesão a linhas de pensamento crítico – comunista, anarquista, autonomista, libertário ou indigenista – pode ser total. Nos relacionamos com todas elas em conteúdo, o exprimindo em práticas que podem exigir que bebamos de todas as fontes, independente dos rótulos. Sem ecletismo mas tampouco sem ser sectários ou dogmáticos, tanto em relação a como nos movemos como em relação à nossa maneira de atuar conjuntamente com outros setores, organizações, movimentos e coletivos.

Disso decorre também que não haverá entre nós uma divisão de tarefas em que alguns ocupam o lugar da elaboração e outros o lugar da execução: será sempre mais potente a elaboração de quem executa na prática e a execução prática de quem elabora.

d) Criticamos também as formas organizativas extremamente rígidas que não comportam a complexidade contraditória do real ou que reproduzem mecanicamente respostas formuladas como verdades totais e universalizantes. Essa crítica deve nos levar a compreender a lógica dinâmica e o ritmo fluido de cada espaço militante onde nos inserimos. Isso significa nos irmanar com eles em elaboração e práticas que possam acolher estes ritmos e lógicas sem, no entanto, deixar de posicionar os princípios políticos que norteiam nossa perspectiva revolucionária para além do capital.

Nossa maneira de nos conduzir individualmente, nossa relação entre nós e com outros, bem como nossa forma de funcionamento coletivo devem responder a estas necessidades. A forma da nossa intervenção deve ter o passo marcado pelas exigências do real, também buscando – desde o interior das experiências – combater o que delas promova conservadorismo e fortalecer o que nelas promova insurgências.

Daí que nossa territorialização não é localista.

Daí que nosso classismo não é obreirista.

Daí que nosso feminismo e antirracismo não são pós-modernos.

Daí que nosso enraizamento não é basista.

Daí que nossa perspectiva revolucionária não é superestrutural.

Daí que nossa unidade não é homogênea.

Daí que, embora não seja homogênea, nossa unidade está comprometida com a execução comum daquilo que elaboramos.

Daí que nosso posicionamento geral não é desconectado de temporalidades e contextos.

e) Nossa crítica à descontinuidade, efemeridade e sazonalidade das práticas políticas nos leva a eleger práticas e espaços onde seja possível enraizar-se e ampliar-se. As ações e intervenções devem se conectar de forma a alimentar a um projeto que se sustenta continuamente e que pode ser avaliado e revisto sempre.

Nenhuma ação de impacto ou conflitiva e proposição deve estar acomodada como camadas que se justapõem, mas sim como múltiplas determinações que se influenciam e se transformam. Assim, por exemplo, atos e grandes manifestações interessam quando articulados com construções cotidianas, questionando a lógica superestrutural e espetacular com que parte da esquerda realiza suas atividades.Todo processo deve ser capaz de envolver as pessoas com quem construímos, cada qual segundo suas necessidades e possibilidades. Portanto, os termos de avaliação e proposição da prática individual dos militantes, bem como da própria atuação política são variáveis. Eles se organizam em arranjos distintos, permitindo-nos avançar em ritmos e formas diferentes, acolhendo o que é particular e entrelaçando com perspectivas gerais mas, por ser assim, não universalizantes.