O serviço penitenciário argentino brinca de roleta russa com os encarcerados. Encerrados e amontoados nos pavilhões. Com tetos que pingam água quando chove, e molham seus poucos (e, por isso, valiosos) pertences dos presos, assim como os cabos de eletricidade desencapados. Com vários dias em que, simplesmente, não tem água, mas a umidade corrói as paredes. Com pátios para as horas de sol nos que não há acesso aos banheiros, e por isso o chão está coberto de merda e urina. Todo isso conjugado com o frio patagônico de outono a primavera. E, agora, não se pode ocultar o surto de tuberculose em alguns pavilhões. Nessas condições, recentemente houve um suicídio e, duas semanas atrás, um preso tentou botar fogo em si mesmo. Muitos preferem a morte a essa meia vida que é o encarceramento.
Nós, da Rede de Apoio ao Povo Mapuche-Tehuelche que estamos acompanhando ao Lonko Facundo Jones Huala, com prisão preventiva, desde junho do ano passado, sem acusação formal, e em greve de fome desde a última segunda-feira, tememos por sua saúde e a de todos os presos da penitenciária. Todos presos pobres de Argentina, muitos são mapuches ainda não sabendo. Os ricos não estão ali.

A greve de fome levanta reivindicações do povo mapuche, usurpado de suas terras desde fim do século XIX. Territórios que são objeto do extrativismo destrutivo. A ex-ministra de (in)Segurança, Patricia Bullrich, hoje senadora que mantém o controle sobre o Sistema Penitenciário Nacional, colocou ele nessa cadeia de segurança máxima para afastá-lo do cotidiano de seu povo e para configurar o inimigo interno que justifique a crescente militarização da Patagônia, objeto da cobiça mineira, florestal, turística e pecuária.
Esta é a terceira greve de fome que o lonko leva adiante. E já sufriu neumonia em outras ocasiões. Além do mais, o serviço penitenciário põe barreiras para o ingresso de lawen (remédio mapuche). Por isso, e por razões da cultura mapuche, queremos que seja trasladado imediatamente para a unidade de Esquel, onde poderia fazer cerimônias que lhe competem como lonko mapuche. Enquanto lutamos para obter sua liberdade.
Ao mesmo tempo, repudiamos as condições em que o encarceramento submete aos pobres, sejam eles mapuche, argentinos, ou de qualquer outra nacionalidade. Somos conscientes de que a terra está encarcerada, os rios, os mares, as montanhas, as planícies, com todos os seres que a habitam, para servir a sede insaciável do capital.
Liberdade ao Lonko Facundo Jones Huala!
Marichiwew!
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