Entrevista com Aldo Cordeiro Sauda para Quilombo Invisível
Aldo Cordeiro Sauda, que concedeu entrevista desde Cuba, dirige a Contrabando Editorial, plataforma voltada à difusão de inquéritos operários e à tradução de antagonismos de classe contemporâneos no Sul Global. Em Havana, esteve em contato com organizadores do livro CUBA 11J.
Imagens por Daniela Fajer
Introdução:
Aldo Cordeiro Sauda é jornalista e advogado, mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e um observador engajado nas dinâmicas revolucionárias e conflitos sociais globais. Possui experiência em coberturas de campo, incluindo seu trabalho no Egito, Palestina, Líbano e norte da Síria durante a Primavera Árabe. Atualmente, dirige a Contrabando Editorial, uma plataforma de publicações, como descrito em seu site, “dedicada à difusão de enquetes operárias e à tradução de antagonismos contemporâneos no Sul Global”.
Conversando conosco ao longo e depois de sua viagem à Havana, em meio ao turbilhão de contradições de um dos últimos flancos do “socialismo real” no mundo, Aldo Sauda compartilha sua experiência com ativistas e organizadores do livro CUBA 11J. Oferece um olhar sem amarras sobre a complexa encruzilhada política e social em que a ilha caribenha se encontra nos dias de hoje. Longe de um olhar pretensamente imparcial, Sauda oferece uma lente analítica favorável a um socialismo democrático, herdeiro das vertentes da quarta internacional.
A atual situação de Cuba é marcada por uma crise multidimensional severa, que castiga o cotidiano de sua população com insegurança alimentar, apagões elétricos exaustivos e uma inflação galopante. Esse cenário de estrangulamento tem raízes históricas no brutal e longevo embargo imposto pelos Estados Unidos — radicalizado por mecanismos de jurisdição extraterritorial como o Helms-Burton Act (devidamente explicado ao longo da entrevista). Se os problemas são históricos e enraizados no imperialismo estadunidense, foram, por outro lado, drasticamente agravados ao longo desta década. A queda brusca nas receitas do turismo em decorrência da pandemia de Covid-19 e a diminuição no fornecimento de combustível venezuelano – recentemente, ainda mais agravada, após o sequestro ilegal pelos Estados Unidos do presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, país principal fornecedor de petróleo para a ilha – expuseram a fragilidade da infraestrutura nacional e os gargalos de um planejamento estatal burocrático há muito questionado.

Na tentativa de mitigar o colapso econômico, o governo cubano implementou ao longo dos últimos anos uma série de reformas. Estas, na prática, levaram a uma dolarização não oficial da economia diária e a abertura para o capital privado através de Pequenas e Médias Empresas (Pymes). O impacto dessas medidas tem sido devastadoramente desigual. A dependência de lojas que operam em torno de compras em dólares, e das remessas financeiras enviadas por familiares no exterior, intensificou as disparidades sociais e raciais históricas. Tais reformas tendem a beneficiar parcelas brancas da população e setores vinculados à burocracia do Partido Comunista, enquanto as camadas mais empobrecidas, frequentemente negras e periféricas, enfrentam uma drástica perda do poder de compra e o sucateamento das redes de proteção do Estado.
O descontentamento diante desse sufocamento econômico culminou nas históricas manifestações de 11 de julho de 2021 (11J), um levante popular massivo impulsionado pela exaustão e pela busca por melhores condições de vida. A resposta do regime consistiu em uma dura repressão, resultando em centenas de prisões, incluindo as de militantes de movimentos negros, artistas e intelectuais da própria esquerda crítica. O isolamento e a criminalização dessas dissidências socialistas, anarquistas e independentes, geram um vácuo político perigoso: ao calar os setores progressistas, o governo empurra uma juventude frustrada, assolada pela falta de perspectivas e por uma onda migratória sem precedentes, para os braços de discursos conservadores e pró-intervenção estadunidense.
É nesse contexto de urgência e tensões que a presente entrevista procura debater os rumos de Cuba, longe dos binarismos superficiais da Guerra Fria. A conversa a seguir, conduzida com Aldo Sauda, convida a uma reflexão crítica sobre qual deve ser o papel da esquerda latino-americana diante da crise na ilha. O diálogo aponta para a necessidade de construir uma solidariedade dupla e incontornável: um combate intransigente contra o imperialismo e o criminoso bloqueio econômico de Washington, acompanhado de um apoio irrestrito aos anseios dos trabalhadores cubanos por direitos civis, liberdade de associação e uma alternativa de poder que seja, de fato, socialista e democrática.
Entrevista:
Ano passado, o congresso cubano aprovou uma série de reformas econômicas. Entre elas, destacam-se a dolarização parcial da economia e a expansão das situações em que cubanos poderiam ser detentores de mais de uma propriedade. Pelo seu contato, como essas mudanças foram recebidas pela população? Quem mais tende a se beneficiar com elas?
A grande maioria das relações econômicas de Havana com o resto do mundo é influenciada pelo chamado Helms-Burton Act, uma legislação aprovada no Congresso norte-americano em 1996, durante o governo Clinton. Essa lei radicalizou, intensificou e institucionalizou a agressão norte-americana a Cuba. Ela deu a Washington os chamados mecanismos de aplicação extraterritorial do direito estadunidense – ou, se você quiser, uma forma de jurisdição imperial – na qual a lei americana é imposta a Cuba para reverter as expropriações de refinarias, fábricas, hotéis e latifúndios rurais ou urbanos nacionalizados após a Revolução de 1959.
Isso significa que, se você mora em Miami e seu avô teve lá atrás uma empresa, um prédio ou outra propriedade expropriada na Revolução de 1959, você pode entrar com um processo nos Estados Unidos para reclamar essa propriedade em Cuba. Isso criou um nó nas relações de propriedade em Cuba e o sistema jurídico norte-americano, difícil de superar e que, na prática, trava as relações econômicas cubanas com o resto do mundo.
Um bom exemplo é o caso da rede de hotéis Meliá, com presença em Varadero. Os cubanos atraíram o hotel, de capital espanhol, para investir na indústria do turismo cubano. Os EUA responderam processando o Meliá porque o hotel foi supostamente construído em um terreno que era uma propriedade privada expropriada em 1959. Como existe um processo nos Estados Unidos de reintegração dessa propriedade, a estrutura financeira do grupo Meliá, dentro ou fora de Cuba, passa a ter suas transações em dólares dificultadas, travando o acesso a capital norte-americano. Essa questão da jurisdição internacional dificulta qualquer tipo de processo de abertura da economia cubana.
Esses mecanismos de jurisdição extraterritorial, na verdade, representam o elemento mais extremo de um amplo complexo jurídico imperial norte-americano. Esse extremismo em relação a Cuba está presente quando Trump fala que vai assumir o controle absoluto da ilha. Isso em parte se explica por motivos temporais, durante o colapso da União Soviética, não existia uma legislação norte-americana que delimitasse a questão da propriedade naqueles países equivalente a Helms-Burton Act, com jurisdição extraterritorial. Inclusive, se você pega o caso chinês, os Estados Unidos, em 1979, basicamente resolvem esse problema com as relações de propriedade na China com um acordo rápido e pragmático. Portanto há um excepcionalismo no caso cubano, talvez ligado a necessidade de combater a esquerda na América Latina independente da Guerra Fria.
Quando você pega o caso das propriedades na União Soviética, houve todo um processo de privatização, mas ninguém falou em restaurar as propriedades anteriores da Revolução de 1917. Se houve, foi algo mais concentrado na questão da Igreja Ortodoxa, mas não existia uma mobilização para trazer os proprietários anteriores, inclusive porque eles não estavam geograficamente concentrados como estão os proprietários do período pré-revolução cubana em Miami, com relações com os políticos na Flórida, com relações aprofundadas com o governo norte-americano.
Então, essas relações fazem com que qualquer projeto maior de abertura por parte dos cubanos acabe caindo nessa barreira. De novo, é algo que não se teve, por exemplo, nos países do Leste Europeu como Polônia ou Tchecoslováquia, onde, mesmo tendo havido alguns casos de restauração de propriedades anteriores ou compensação, foram processos com uma certa maleabilidade. Em muitos desses lugares, a propriedade continuou estatal ou foi privatizada, mas não se retornou aos proprietários do período anterior.
Essa é a grande barreira, porque basicamente os americanos querem retomar a propriedade das usinas de açúcar, das refinarias de petróleo, dos bancos e, principalmente, as propriedades urbanas e rurais. No caso de propriedades urbanas, isso se relaciona diretamente aos interesses da família Trump. Você pega Havana, uma das cidades mais bonitas da América Latina, se não a cidade mais bonita, exatamente porque não existe especulação imobiliária. Havana Vieja tem aqueles prédios lindos, antigos, que a despeito da degradação dão todo um charme à cidade e que, provavelmente, quando houver de fato uma invasão do capital norte-americano, vão virar edifícios gentrificados, mercadoria a serviço da especulação imobiliária, fenômeno que, na prática, é dissuadida através da restrição ao grande capital pelo Estado.
Dito isso, a abertura que se tem, que é de novo uma abertura lenta, travada e pautada pelo Helms-Burton Act, em geral beneficia a burocracia, seus filhos e seus netos, os chamados ‘nepo babies’. A abertura do mercado é, em geral, isso: quem se beneficia são aqueles vinculados ao Partido Comunista. Uma figura muito mencionada aqui em Havana é “O Cangrejo”, neto do Raúl Castro, descrito como um playboy que virou dono dos empreendimentos de turismo e de uma série de empresas privadas. Ele é odiado aqui em Havana; todos falam dele. São críticas baseadas certamente em relatos jornalísticos, sem claro lastro documental, mas me parece inevitável que essas figuras acabem surgindo. Ao mesmo tempo, a dolarização da economia acaba empurrando para isso, porque a dolarização foi acompanhada de uma enorme crise: as cadernetas – aquilo que garantia a alimentação pelo Estado – vão tendo cada vez menos alimentos à disposição, e passa a haver cada vez mais alimentos à disposição de quem tem acesso a esses mercados privados em dólar, o que aumenta brutalmente a desigualdade no próprio acesso à comida.
Isso também está ligado ao fato de que, desde os anos 90, mas muito mais agora, principalmente desde a Covid, milhões de cubanos saíram do país e mandam dinheiro de volta às suas famílias. O envio de remessas, junto com o turismo e, em alguns sentidos, a exportação de missões médicas, são as três grandes fontes de capital estrangeiro aqui em Cuba. Elas acabam sempre beneficiando alguns em detrimento de outros, em geral os brancos em detrimento dos negros, porque quem é imigrante, quem está fora do país, consegue melhores empregos e depois consegue mandar esse dinheiro com facilidade, são na maioria das vezes as pessoas brancas. Isso acaba tendo um recorte racializado, a centralidade que ocupa a economia dolarizada. Portanto, a dolarização da economia aumenta a desigualdade racial.
Vale mencionar também que a questão da restauração dos direitos de propriedade no caso de Cuba é, em alguns sentidos, mais complexa do que na Venezuela. As grandes estatizações que ocorreram durante o governo Chávez foram de duas grandes empresas norte-americanas, a Exxon Mobil e a Conocophillips, que tinham participado das privatizações neoliberais dos anos 90, do setor petroleiro venezuelano e que foram expropriadas depois por Caracas. É relativamente fácil restaurar os direitos de propriedade anteriores, primeiro porque eles ocorreram nos anos 90. Existe toda uma estrutura legal internacional vinculada ao Banco Mundial e a tribunais internacionais que garantem esses direitos de propriedade ao grande capital estrangeiro principalmente a partir dos anos 90. Essa questão se resolve com os americanos retomando para si o petróleo venezuelano da PDVSA, algo que na prática já está acontecendo.
Em Cuba, não. Em Cuba, você tem particulares individuais que não são grandes empresas petroleiras norte-americanas, com quem você resolve por meio de um acordo imposto pela agressão imperial norte-americana ocorrida esse ano. No caso de Cuba, você tem milhares e milhares de processos que correm na justiça norte-americana para restaurar a propriedade em todos os níveis. Portanto, a violência do que será a reintrodução do capital norte-americano e dos interesses norte-americanos em Cuba vai perpassar centralmente a restauração desses direitos individuais.
Por isso, a restauração aqui em Cuba vai ser provavelmente mais violenta do que qualquer outra, mais violenta no sentido da expropriação dos direitos de moradia e dos direitos sociais do que talvez na Rússia ou Leste Europeu. Provavelmente, alguma fração da burocracia do Partido Comunista vai continuar com o domínio sobre alguns setores da propriedade hoje estatal, mas isso vai ter que se dar em por meio de um acordo com essas frações burguesas cubanas que estão na Flórida querendo reclamar sua propriedade como um todo, o que, de novo, não ocorreu na União Soviética. No caso cubano, é isso o que eles querem, e é isso o que cria essa situação em que o Trump fala com algum grau de verdade que vai voltar a ser “dono” de Cuba se seu plano der certo.
Diante da inflação severa, dos apagões exaustivos e do sistema de lojas em Moeda Livremente Conversível (MLC), como as pessoas nas ruas interpretam a raiz da crise? A quem a população costuma atribuir a culpa pela escassez diária?
A questão das reformas na política monetária de 2021 é algo que todos os cubanos criticam. A primeira questão é o fim daquela moeda chamada CUC, que era uma espécie de dólar oficial, um câmbio oficial controlado pelo Estado que controlava o dinheiro vindo do exterior. Com a reforma do governo Díaz-Canel o dólar oficial foi abandonado e a CUP, o peso cubano, passou a oscilar de forma livre em relação à moeda norte-americana. Essa política liberou a utilização do dólar, na prática, dolarizando a economia local. De novo, isso remete àquela questão das remessas financeiras enviadas pelos imigrantes a quem ainda está dentro do país. A questão das remessas é uma parte estrutural da economia, não só de Cuba, mas de diversos países do Caribe e da América Central: Guatemala, o próprio El Salvador, o Haiti.
Na prática, a política de sanções energéticas do governo Trump entrou para quebrar as pernas da economia do turismo, dando às remessas em dólar um papel ainda maior. Uma das principais consequências dos apagões é que a maior fonte de recursos, a fonte de dólares que era o turismo, secou, entre outros motivos por conta da dificuldade dos voos estrangeiros para chegar em Havana.
Eu vim através do Panamá, por exemplo, que ainda mantém os voos a Havana, mas voos diretos que vinham de lugares como Canadá, Rússia, com turistas que vinham aqui com moeda estrangeira, consumiam e injetavam dólares na economia, isso quase secou por conta da falta de combustível.
Mas, ao mesmo tempo, existe uma crise aqui em Cuba que vem basicamente desde a Covid, quando a indústria do turismo toma o seu primeiro golpe, e agora, digamos, com a crise venezuelana, tomou o segundo golpe, e o golpe agora é ainda mais forte. Mas desde o período da Covid, há uma crise na qual se estima que mais de um milhão de cubanos saíram, deixaram o país. A consequência disso é que cerca de 10% da população foi embora. Tem lugares que estão esvaziados de gente, principalmente de gente jovem, porque quem é jovem e tem algum recurso, saiu do país.
A questão dos apagões e da escassez, a mesmo tempo, não é nova: obviamente, são intensificadas pela situação atual, mas houve também uma redução na vinda de petróleo venezuelano para cá desde o período da COVID. Desde 2020 os venezuelanos aumentaram a exportação de petróleo para países como China, e em um grau menor para os Estados Unidos, reduzindo o envio de petróleo para cá. Então, a crise energética é anterior ao sequestro de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, porém foi acelerada por ela.
É nesse cenário que vai se abolir o CUC, um processo acompanhado por aumentos nos preços de quase todos os serviços públicos e pela redução no acesso a alimentos disponíveis pelas cadernetas. A caderneta é basicamente um instrumento para se ter acesso à comida distribuída pelo governo. Os salários são muito baixos comparados ao dólar. Isso era compensado pela caderneta e por um acesso a uma certa quantidade de alimentos, como farinha, óleo, feijão e carne de porco, que agora vem sumindo das prateleiras. Por conta da situação atual, a comida que se conseguia acessar antes ficou escassa. E isso é uma coisa que é comentada o tempo inteiro nas ruas.




Por conta dos problemas de planificação, também causados pela falta de gasolina para os carros, de diesel para os caminhões, a distribuição dos alimentos subsidiados, em particular no interior, antes acessíveis pelas cadernetas, secou. Ao mesmo tempo, a dolarização da economia, mesmo que tenha em parte expandido o acesso a bens de consumo e uma pluralidade maior de alimentos industrializados, não é democratizadora. Ela barra, ela impede: os preços de alimentos se tornam proibitivos para quem não tem acesso a dólar. Na verdade, o que se tem é uma desigualdade acelerada e intensificada no acesso a alimentos, porque quem tem acesso a dólar consegue superar a falta de alimentos que se teria antes no acesso pela caderneta. Só que e quem não tem dólar? São pessoas que muitas vezes estão no interior. É aí onde entra a questão da fome.
Nós viemos aqui em Havana com uma mala de medicamentos para distribuir para as famílias, enviados por alguns companheiros no Brasil. O que mais nos impressionou foi que, conversando com as pessoas, elas faziam questão de sempre falar: “olha, agora existe fome em Cuba”. Porque existe essa ilusão na esquerda brasileira de que não existe fome em Cuba, e principalmente desde essa crise, há uma situação realmente de insegurança alimentar.
Acompanhada da dolarização, houve uma enorme alta inflacionária e também uma série de políticas antipopulares, de introdução de princípios da economia de mercado, incluindo aumento exponencial no custo da eletricidade, da água e do transporte.
Muitos ganhos da revolução vêm sendo mais ou menos perdidos pela expansão do mercado, pela expansão de relações capitalistas de propriedade. Só que, ao mesmo tempo, ainda são processos mercadológicos muito limitados porque ocorrem por fora do acesso ao grande capital estrangeiro por conta das medidas do Helms-Burton Act.
Qualquer integração ao mercado acaba sendo limitada por isso. Ao mesmo tempo, desde 2021 você tem as chamadas Pymes (Pequenas e Médias Empresas), que são as empresas particulares em processo de expansão. Isso retorna àquilo que eu tinha colocado: quem tem acesso às Pymes são muitas vezes os filhos e os netos da burocracia, e também vem com um recorte racial: são frequentemente brancos.
Quem tem capacidade de empreender através das Pymes, quem tem acesso a atravessar as limitações burocráticas, são os filhos e netos daqueles que encabeçaram a Revolução de 59. As Pymes são em geral celebradas pela população. A abertura econômica, por motivos pragmáticos, parece ser quase consensual, o que é algo em muitos sentidos perverso, porque parece, principalmente entre os jovens, existir uma ideia de que o capitalismo e a entrada do capital norte-americano vão resolver todos os problemas da ilha. Mas a restauração de direitos de propriedade anteriores a 59 tende a intensificar a desigualdade social, e não a reverter aos padrões anteriores aos anos 1990.
Só que isso é um pouco ignorado. As pessoas querem mudança, elas não aguentam mais o estado das coisas. Quando as pessoas te explicam a situação econômica e você responde falando “ah, mas o bloqueio”, elas falam: “bom, bloqueio já tem 60 anos, quase 70 anos. Não deu tempo de resolver essas questões?” Basicamente, a abertura econômica é vista com bons olhos, é celebrada e vista como uma necessidade cubana. Há uma leitura de que desde os anos 1990, do período especial, a vida só piora. De fato, é compreensível o desespero, porém ignora que países como Haiti, a Guatemala e El Salvador estão plenamente integrados no capitalismo mundial, e ao mesmo tempo em uma condição de vida muito pior que Cuba.
O apagão recente afetou a ilha inteira. No Brasil, quando apagões acontecem, bairros mais pobres, e com maior presença de populações negras, costumam ser mais afetados, e demorar mais para ter a energia restaurada. Em Cuba, há algum paralelo com a situação no Brasil?
O que dita o apagão, além de atingir mais as populações negras, é o recorte Havana versus interior. Quando estive no interior, quase sempre a única fonte de eletricidade eram os painéis solares. Existe mais acesso à eletricidade na capital, inclusive em Havana Vieja e Centro Habana, partes da cidade com uma grande população negra. Aqui a energia é mais preservada até porque os cabos são subterrâneos. Onde há cabo subterrâneo, eles evitam cortar a luz por conta da dificuldade de fazer o reparo que pode ser causado pelas sobrecargas nas variações de tensão. Onde o cabo é aéreo, há mais crise de energia.
Enquanto o principal responsável pela crise de energia é o bloqueio norte-americano, não se pode ignorar as consequências destrutivas da planificação burocrática. Segundo pesquisa da Universidade de Columbia, em Nova York, a reestruturação do sistema elétrico cubano está estimada em 10 bilhões de dólares, porém o governo cubano gastou uma quantidade de dinheiro ainda mais elevada em novos hotéis nos últimos 15 anos, negligenciando a importância do sistema elétrico. Os mega investimentos em grandes hotéis 5 estrelas são destacados pela população como um símbolo de desperdício, em particular porque a política se acentuou durante a crise da COVID enquanto a taxa de turismo no país despencou. A taxa de ocupação nos hotéis hoje está estimada em 20%. Conheci o caso de um casal de brasileiros que foram transferidos de seu hotel para um com maior ocupação por uma questão de excesso de vagas, porém, as construções de novos edifícios hoteleiros continuam. A isso se soma a questão da força de trabalho, que segundo relatos de moradores vem em grande parte trazida de países como Índia e Paquistão, substituindo a mão de obra local.
Agora, a questão da luz é importante lembrar que ela vem de antes do sequestro de Maduro, porque já desde a Covid os venezuelanos reduziram o envio de combustível para cá, e as crises energéticas têm ocorrido desde a Covid, sendo um dos elementos que motivaram o 11J, o movimento de massas que tomou as ruas em Júlio de 2021, cuja palavra de ordem era Pátria y Vida, uma ideia de se opor ao slogan do regime, Pátria ou Muerte. E aí, sim, essa mobilização tem uma grande participação negra, e os rappers associados aos protestos, ligados ao Movimiento San Isidro (MSI), também são rappers negros. Existe esse recorte de que as pessoas que foram às ruas, que foram às ruas em rejeição ao regime, tiveram uma forte presença da comunidade negra cubana.
O melhor balanço que conheço sobre as mobilizações do 11 de julho, é um livro chamado Cuba 11J, perspectivas contrahegemónicas de las protestas sociales. Ele mostra os diferentes ângulos os protestos de uma perspectiva crítica marxista, organizado por um jovem militante socialista do movimento negro.
Alguns relatos elogiosos sobre Cuba destacam o cultivo de alimentos em cidades (agricultura urbana) como estratégia de superação da escassez de alimentos. Pelo seu contato, como a população cubana se relaciona com a produção de alimentos? E como isso se relaciona com a burocracia estatal do país?
Me parece que a questão do acesso a verduras, legumes e frutas não cítricas em Cuba não é o problema principal. O que falta é a comida industrializada, assim como a carne. Óbvio, o problema da carne também é o problema da falta de eletricidade. Se cai a energia, se você tem quatro, cinco, seis dias de apagão, você perde a carne nas geladeiras e nos freezers.
Sobre essa questão da agricultura urbana, existe o livro publicado pela editora Elefante, Entre a Utopia e o Cansaço, que tem um conjunto de textos muito interessantes, em particular o que trata da militarização da economia. A própria Joana Salem, especialista em Cuba, tem uma pesquisa muito rica sobre a questão agrária que merece ser lida. O trabalho dela, sobre Cuba e a América Latina em geral é bastante sério. Fabio Luís Barbosa dos Santos, professor de RI da Unifesp, um dos editores do livro junto com Aline Miglioli e Vanessa Oliveira, também é um pesquisador muito qualificado, com longa trajetória no tema. O trabalho organizado por ele tem textos muito interessantes, inclusive sobre o papel dos militares na economia, que hoje é preponderante.
A militarização da economia cubana, através do GAESA (Grupo de Administración Empresarial) segundo algumas cifras, atinge 40% dos empreendimentos. Então, você tem esse recorte, similar a países como Egito e Paquistão. A GAESA é em boa parte responsável pelos problemas burocráticos da planificação econômica.
Assim como no Brasil, em Cuba também há um discurso oficial de superação das discriminações raciais (a tal da “democracia racial”), usado como forma de impor uma unidade popular. No entanto, a quase totalidade dos comércios em Cuba seguem comandados por pessoas brancas. Na sua visão, o racismo em Cuba foi superado? De que forma o racismo se relaciona com as ações do Estado?
A questão do racismo, atenuada pelos ganhos sociais da revolução, é intensificada principalmente após ao Período Especial iniciada depois dos anos 90. É importante dizer, quando se fala da questão racial em Cuba, o papel central que Cuba teve na libertação no sul da África, em Angola, Guiné-Bissau, Moçambique. Cuba teve um papel muito importante no combate ao apartheid na África do Sul. Isso é um marco e algo que não pode ser esquecido quando a gente fala de Cuba, em particular o envio de tropas em apoio à MPLA na guerra anticolonial em Angola e o apoio à ANC de Nelson Mandela na África do Sul. Essa é uma marca do regime que faz parte da história cubana.
O problema é que a abertura aos mercados e o surgimento da desigualdade econômica atingem principalmente a população negra, em parte porque a direção inicial da revolução, a exceção de Juan Almeida Bosque, foi majoritariamente formada por intelectuais brancos de origem hispânica. Quando se inicia a restauração nos anos 90, serão os filhos e os netos da direção revolucionária que vão sair na frente, e isso significa que os negros tendem a ser mais afetados.


A isso se combina o papel da imigração: quem tem mais acesso à imigração na Europa e América do Norte, por redes familiares, são em geral os brancos. Portanto, as famílias de pessoas brancas vão ter mais acesso a passaportes e cidadanias europeias (espanhola e italiana), a dólares vindos do exterior, e a dolarização da economia afeta de forma muito desigual os brancos e os negros por isso. Segundo ativistas do movimento negro com quem conversei, há um aumento, pós-anos 90 na desigualdade racial. Desde o Período Especial, essa questão vem ganhando relevância.
É um bordão irônico e famoso, em apoio a Cuba, dizer que na ilha apenas três coisas funcionam: saúde, educação e segurança. Mas como a segurança é mantida na prática na ilha? A ação policial possuí contornos raciais? Algum grupo tende a ser mais emplacado pela polícia?
Cuba, segundo a Anistia Internacional, tem hoje centenas de presos políticos e, junto com isso, um alto índice de presos per capita. Existe uma análise do Instituto de Pesquisa em Política Criminal, do Birkbeck College, de Londres, que aponta Cuba entre os países com altos índices de encarceramento, porém muito abaixo que os EUA, Brasil e El Salvador. Tudo isso, possivelmente, acaba tendo um recorte racial.
Um dos grandes problemas, me parece, é que Cuba colocou nas negociações com os americanos a soltura de presos políticos. Isso é terrível, porque acaba entregando para os Estados Unidos a bandeira das liberdades civis, da liberdade de associação e expressão. Produz ilusões sobre os Estados Unidos como defensor da democracia. Isso apenas contribui para o problema que existe aqui, isto é: a geração que nasceu nos anos 80 e atravessou o Período Especial dos anos 90 na juventude só vê a piora da economia cubana, só vê Cuba piorar.
Isso faz surgir, principalmente entre os jovens, todo um setor que podemos dizer ser “pró-intervenção imperialista”, pró-Estados Unidos, na juventude, que vê a intervenção norte-americana como aquilo que vai resolver o problema de Cuba e a única alternativa para a atual conjuntura. Então, surge a possibilidade de setores pró-restauração capitalista entre a juventude trabalhadora.
Essa é a maior derrota que a política da burocracia impõe, principalmente entre os jovens. O fato de que a desigualdade e a pobreza só aumentam desde os anos 90 faz com que se culpam a revolução, a expropriação da burguesia, culpam figuras como o próprio Ernesto Che Guevara como responsáveis pela atual crise imposta pelo governo norte-americano, e que acaba sendo gerida por uma camada de profissionais técnicos e gestores cubanos cuja função acaba sendo gerir as consequências do bloqueio.
O fato de a revolução não ter expandido para além da própria ilha – assim como não se pode ter socialismo em um só país, como, em última instância, foi na derrota a revolução russa nos anos 20 e 30 – é ainda mais difícil manter uma revolução em uma só ilha. É isso que acaba alimentando as próprias divergências entre Fidel Castro de um lado e Che Guevara do outro, porque Che é muito crítico do que ele chama de “manuais soviéticos”, a adoção de políticas burocráticas e um modelo baseado na experiência soviética em Cuba, mas que acaba sendo a consequência inevitável de uma revolução que não consegue expandir.
Como sabemos, a América Latina enfrenta, em particular nos últimos meses, uma escalada do imperialismo estadunidense. Muitos na esquerda ficam em silêncio sobre os abusos do regime cubano por receio de que poderiam alimentar um imperialismo que, em última instância, poderia levar a uma piora nas condições na ilha. Na sua visão, como a esquerda latino americana pode contribuir para a superação da ditadura na ilha?
Toda ajuda, todo o apoio humanitário a Cuba é bem-vindo. Toda a esquerda que se esforça para combater o bloqueio cumpre um papel progressivo. Isso é algo que nós precisamos ter em mente. Ao mesmo tempo, é preciso diferenciar o que é solidariedade com o povo cubano do que é a solidariedade com o regime. Muitas vezes, vemos em muitas iniciativas, sejam elas de socialistas, maoistas, trotskistas ou autonomistas, uma confusão nesse sentido.
A iniciativa da flotilha a Cuba, para ajudar o país é muito positiva, mas uma questão que não podemos esquecer é a forma como ela é canalizada e inclusive interpretada pelos próprios cubanos. Sem os devidos cuidados os cubanos podem acabar criando desconfiança da esquerda mundial, que pode acabar sendo interpretada como legitimando o governo Diaz-Canel, sem esquecer que o governo usa isso como instrumento para legitimar suas reformas econômicas e sociais.
Essa solidariedade, que é necessária, precisa ser acompanhada – e que infelizmente não se vê isso entre as diferentes correntes da esquerda – de apoio aos presos políticos que foram detidos no 11 de julho. Um apoio às correntes marxistas dissidentes aqui em Cuba, uma oposição à repressão que existe à própria esquerda, aquilo que a gente pode chamar dos dissidentes entre os dissidentes. É preciso separar o que é a oposição “gusana” de Miami, pró-americana, dos anseios do povo cubano por democracia, liberdade de associação, liberdade de expressão.
Sem que haja essa diferenciação, colocar tudo que se opõe ao regime cubano como parte das iniciativas norte-americanas, enfraquece alternativas anticapitalistas no longo prazo. As pessoas podem achar que o que está colocado é dual, com apenas dois lados: ou você está com os Estados Unidos ou você está com o regime. O problema é que isso ignora o amplo desejo por mudança que vem dos trabalhadores cubanos. Ser cego a isso não ajuda ninguém.
O 11 de julho é um movimento de massas baseado num sentimento geral de necessidade de mudança, e que, por conta dos próprios problemas do regime – por conta da criminalização dos dissidentes, de empurrar para fora da ilha a esquerda crítica – os movimentos sociais da juventude acabam muito facilmente sendo manipulados e capturados pelas forças pró-americanas. A partir do momento que a esquerda mundial rechaça a oposição cubana de esquerda, a partir do momento que a esquerda internacional se associa de forma acrítica ao regime, e a partir do momento que não existem dissidentes cubanos que possam cumprir um papel organizacional progressivo em relação às mobilizações sociais, elas tendem a ir para a direita. E essa é a realidade. À medida que os movimentos sociais vão se radicalizando, elas tendem a ir mais e mais e mais para a direita, o que é um desastre, um desastre político para Cuba e toda a América Latina.
As manifestações são legítimas, assim como a exigência pela substituição do governo. As pessoas estão cansadas, elas querem mudanças na política econômica que dolarizou o consumo, encarecendo a vida. A partir do momento que você não cria mecanismos para isso e quando você taxa toda a oposição de mercenários e agentes pró-americanos, a consequência disso é que você acaba fortalecendo exatamente esses setores. É óbvio que existem setores distintos dentro do movimento, como qualquer movimento de massas, o 11J é plural. Vai ter gente que é pró-americana, antiamericana, gente que só quer melhorar a sua própria vida. Mas o problema é que, na medida que os poucos socialistas críticos são presos e empurrados para fora da ilha, o que sobra é a direita.
Portanto, é muito difícil ser otimista em relação à realidade política cubana por conta do isolamento da esquerda cubana dissidente em escala nacional e internacional. Há muita gente de esquerda que foi presa em julho e que agora quer sair do país. É um sentimento natural.
Existe um problema demográfico grave em Cuba. Os jovens que têm capacidade financeira, pegam um avião até a Nicarágua e muitas vezes de lá, pela rota sul, vão para o Chile ou para o Brasil, quando não tentam, a partir da América Central, chegar de forma arriscada e clandestina aos Estados Unidos pela rota norte, um caminho perigoso agora dificultado ainda mais pelo governo Trump. Desde a crise da COVID, o número de jovens na ilha tem encolhido.
Há o problema demográfico também das pessoas terem poucos filhos. A população da ilha não para de cair, há poucas crianças, a população está envelhecendo, e os jovens estão saindo. Isso é um desastre de longo prazo.
A repressão do Estado aos manifestantes do 11J foi severa, chegando a 25 anos de prisão, e com órgãos internacionais denunciando a morte de vários dos detidos. Como esses presos são vistos pela população com que o senhor teve contato? A população estaria disposta a se arriscar em outras ondas de protesto?
Vale dizer que existe muito medo em relação aos protestos em massa, porque uma parte relevante da liderança de rua foi presa. O que eu vejo aqui em Cuba, conversando com as pessoas e com as próprias lideranças da ala esquerda dos protestos, é que existe muito medo, muito medo de sair para a rua. Não é que você não pode criticar o governo em Cuba. Você ouve as pessoas, elas são muito críticas do regime, atacam o governo, atacam o presidente o tempo inteiro quando você conversa com elas na rua. Não é que você não pode criticar o governo em Cuba, é como criticar o governo em Cuba. A mesma coisa com as redes sociais. Não é que você não pode falar mal do governo nas redes sociais, é o que você fala. Há forte repressão a protestos nas ruas. Aí, sim, é que vem o problema. Não que você não possa falar mal do governo, é por onde e como você fala mal do governo.
Você fala com as pessoas, em geral elas falam “apoio os protestos do dia 11”, mas, obviamente, a grande maioria não foi aos protestos do dia 11. Você pergunta e a resposta é: “não, não quero pegar 8, 10 anos de cana. Ninguém quer ir preso”. O regime é muito efetivo pelo fato de ser uma ilha, o controle político-social é mais fácil. Isso não significa que os protestos, de forma localizada, não seguem ocorrendo. Ontem, por exemplo, teve um panelaço na rua por onde havia passado algumas horas antes por conta da falta de energia. Também teve o caso, noticiado mundo a fora, do ataque a sede do PC em no interior do país. Então os protestos seguem, porém sem clara coordenação política.
Como a população comum reage às campanhas de propaganda da imprensa oficial? Elas ainda têm eficácia em jogar a população contra seus pares, ou o descrédito da mídia estatal já é generalizado?
Eu acho que o regime tem apoio cada vez menor na população. Existe uma ideia de que os anos 80 foi o período de auge, e de lá para cá a situação só piora. Existe um sentimento geral por inovação, de que é preciso mudar.
Acho que a nossa solidariedade a Cuba exige duas tarefas. A primeira é combater e ser solidário no combate ao bloqueio, e todas as iniciativas de combate ao bloqueio têm que ter nosso apoio. Nós temos que defender que a Petrobras envie petróleo para Cuba, de apoio energético brasileiro a Cuba. Mais que ajuda humanitária, Cuba precisa de gasolina, diesel, petróleo. Se você olha as ruas, as ruas estão quase vazias, não tem carro nas ruas, as estradas estão vazias, praticamente não tem caminhões nas estradas. O grande problema é a falta de combustível.
Portanto, o papel da esquerda internacional é se solidarizar, exigir de seus governos, exigir do governo Lula, exigir da esquerda, exigir também do governo mexicano – onde existe menos oposição interna a uma política pro-Cuba – exigir dos governos internacionais o apoio contra o bloqueio e principalmente o envio de petróleo a Havana. Essa é a primeira tarefa. A segunda tarefa é se opor à repressão da esquerda, de artistas críticos independente de suas posições ideológicas, se opor à repressão do movimento de massa e defender uma alternativa que seja ao mesmo tempo socialista e democrática.
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