Reproduzimos um artigo do The Polar Bl@st, portal anarcocomunista de Aotearoa / Nova Zelândia, publicado originalmente em 22 de novembro de 2025: The liberal capture of anarchism. Tradução para Regeneración Libertaria.
Nos últimos anos, uma corrente peculiar percorreu partes do milieu — o mundinho anarquista —, sobretudo os setores mais próximos do mundo acadêmico, do aparato das ONGs e dos amplos ecossistemas da “justiça social” da esquerda liberal. Ela diz, mais ou menos, o seguinte: “não vivemos em tempos revolucionários”. A frase é sempre pronunciada em tom de cansada resignação, como se quem a diz tivesse se tornado sofisticado demais, mundano demais, traumatizado demais ou profissional demais para continuar acreditando nos velhos princípios.
Dizem-nos que os anarquistas não podem rejeitar o eleitoralismo porque isso seria “dogmático” ou “purista”. Que não podemos manter um antimilitarismo de princípios diante dos alinhamentos imperiais e dos tabuleiros geopolíticos porque seria “ingênuo”, “privilegiado” ou, simplesmente, “não é assim que o mundo funciona”. Que não podemos questionar o nacionalismo porque, ao que parece, até os anarquistas devem se ajoelhar diante do altar das bandeiras quando estoura a guerra adequada. E em Aotearoa, cada vez mais se nos diz com insistência que os anarquistas — precisamente os anarquistas — deveriam se alinhar atrás do Partido Trabalhista, dos Verdes ou do Te Pāti Māori, e que qualquer outra postura equivale a apoiar a direita, a favorecer o fascismo ou a não levar a sério as “consequências no mundo real”.
É uma contorção ideológica notável, que transformou grande parte dos que se autodenominam anarquistas em apêndices do liberalismo, em sócios menores da esquerda parlamentar e, em alguns casos, em ruidosos defensores do poder militar estatal. Esse desmoronamento não é apenas uma deriva política; é uma renúncia profunda a defender os princípios mais básicos do anarquismo. É uma capitulação disfarçada de realismo, uma rendição vestida de nuance e um medo de parecer politicamente incômodo reembalado como maturidade.
Mas, no fundo, esse discurso expressa algo simples e corrosivo: a crença de que o anarquismo é incapaz de agir por si mesmo como força revolucionária e que, portanto, deve delegar sua capacidade de ação às instituições liberais.
Da luta ao escritório: como se fabrica a dependência
Não se pode entender o atual colapso da independência anarquista sem compreender o ecossistema cultural que hoje habita boa parte da esquerda. Em Aotearoa, como em todo o Ocidente, a energia política foi sistematicamente reconduzida para ONGs, consultorias, departamentos acadêmicos e instituições “progressistas” financiadas com fundos públicos, que operam confortavelmente dentro da infraestrutura do capitalismo. Esses espaços falam a linguagem da radicalidade, mas se comportam segundo os incentivos da burocracia.
Muitos jovens anarquistas já não se radicalizam através da luta, das ocupações, da organização no local de trabalho, da resistência antimilitarista, das lutas por moradia ou da ação contra a polícia. Em vez disso, socializam-se numa esfera profissional onde o objetivo principal é conseguir contratos, manter capital social e evitar riscos políticos. O resultado é previsível: o anarquismo se torna uma mera imagem de marca, mais do que um compromisso com a ação revolucionária.
Dentro desses espaços institucionais, rejeitar o eleitoralismo é apresentado como atitude infantil. Criticar os partidos de esquerda é apresentado como sabotagem ao “progresso”. Manter princípios antimilitaristas é apresentado como idealismo perigoso. Recusar-se a integrar o bloco eleitoral trabalhista-verde-Te Pāti Māori é visto como traição à “comunidade”.
Mas não se trata de juízos morais, e sim de cálculos de sobrevivência profissional. Os anarquistas que trabalham em redes de ONGs e no mundo acadêmico internalizam rapidamente que sua sobrevivência material depende de se alinhar ao consenso da esquerda branda. Criticar o eleitoralismo põe em risco os contratos. O antimilitarismo põe em perigo a reputação. A política antiestatal complica as relações com quem financia.
Assim se impõe uma nova norma: os anarquistas deveriam evitar ser anarquistas demais. Permite-se, e até se incentiva, a retórica radical, desde que ela termine reforçando a esquerda parlamentar. Tudo o que ameace o monopólio de legitimidade do Estado torna-se tabu.
O resultado é um anarquismo que fala com fluência de “apoio mútuo”, mas esquece que o apoio mútuo não é um serviço social, e sim uma arma contra o mito de que o Estado é necessário. Um anarquismo que condena o racismo e o colonialismo, mas canaliza toda resistência para instituições alinhadas ao Estado. Um anarquismo que defende a descolonização, mas recua diante de qualquer desafio à autoridade parlamentar em Aotearoa. Um anarquismo que apoia lutas no exterior apenas quando elas se encaixam nas narrativas estratégicas ocidentais.
Em essência, é um anarquismo que perdeu o rumo e que depois racionaliza essa perda como sofisticação intelectual.
O voto como sintoma
A deriva para o raciocínio eleitoral é um sintoma-chave desse colapso. Assume várias formas.
Às vezes é explícita: “Devemos votar no Partido Trabalhista, nos Verdes ou no TPM para manter a direita fora”. Outras vezes se disfarça com retórica de justiça social: “As comunidades marginalizadas sofrem quando a direita vence, portanto os anarquistas têm a responsabilidade de votar”. Às vezes se envolve em fatalismo estratégico: “Votar não vai nos salvar, mas ajuda a ganhar tempo”.
Mas por baixo de tudo isso pulsa a mesma suposição central: que o Estado deve continuar sendo o veículo principal da mudança social e que os anarquistas devem ajustar sua política a essa suposta realidade.
É extraordinário o quão rápido se esquece que o Estado moderno, seja liberal ou conservador, é estruturalmente incapaz de abolir a exploração, as hierarquias e o aparato coercitivo que o definem. Mesmo quando governos de esquerda tentam reformas, fazem-no fortalecendo a maquinaria que os anarquistas querem desmantelar: polícia, prisões, exércitos, fronteiras, burocracias assistenciais, tecnologias de vigilância e sistemas de extração fiscal.
Em Aotearoa, o Partido Trabalhista é um exemplo de manual. Cada vez que volta ao poder, o mundinho anarquista se fractura. Os mais próximos das infraestruturas de ONGs começam a defender um apoio estratégico. A retórica da “redução de danos” é usada como arma para calar as críticas de quem lembra, com razão, que o Partido Trabalhista se mostrou um servidor confiável do capital, das alianças imperiais e do gerencialismo doméstico.
Essa dinâmica se intensificou durante a era Ardern [N. do T.: Jacinda Ardern foi primeira-ministra da Nova Zelândia entre 2017 e 2023 e líder do Partido Trabalhista, com uma linha progressista]. Muitos anarquistas que antes zombavam dos parlamentares ficaram reduzidos a críticas tímidas ou ao silêncio absoluto, porque o ambiente social de adoração liberal transformava o dissenso genuíno em tabu cultural. Nos círculos ativistas, o ardernismo era tratado como “suficientemente bom”, e quem discordava era tachado de arruaceiro, misógino ou purista irrealista.
Um movimento que se pretende revolucionário nunca deveria ser tão frágil. No entanto, o colapso foi generalizado e revelador: muitos anarquistas estavam mais comprometidos com a pertença social à classe cultural liberal do que com o próprio anarquismo.
Uma vez que essa mudança cultural ocorre, instala-se uma lógica fatal: os anarquistas não devem rejeitar o eleitoralismo porque seus aliados, que muitas vezes são seus empregadores, dependem dele. É assim que uma tradição revolucionária se transforma em grupo de pressão.
A capitulação mais perigosa: abandonar o antimilitarismo
A expressão mais alarmante dessa deriva foi o abandono do antimilitarismo anarquista. Durante mais de um século, os anarquistas insistiram que a guerra não é uma aberração, mas um resultado previsível do sistema estatal capitalista. O militarismo é a expressão mais pura do poder hierárquico, da extração de recursos, do nacionalismo e da obediência. É a máquina que devora a juventude trabalhadora para proteger os interesses de classes dominantes em conflito entre si.
No entanto, nos últimos anos, muitos autodenominados anarquistas adotaram uma lógica militar indistinguível do liberalismo ocidental. Incentivam a OTAN quando lhes convém. Falam com aprovação do envio de armas para conflitos entre potências. Amplificam a linguagem da “defesa”, da “segurança” e da “necessidade estratégica”. Envergonham os antimilitaristas por “não apoiar o lado correto”.
Esta é a capitulação mais perigosa de todas.
Uma vez que os anarquistas aceitam a legitimidade da guerra, renunciam à sua última distinção significativa diante da esquerda estatista. O resultado é um anarquismo que segue obedientemente os ritmos emocionais da mídia ocidental — indignado quando lhe é indicado, solidário quando lhe é indicado, silencioso quando lhe é indicado —, em vez de manter sua própria bússola antimilitarista.
Parte desse colapso é ideológica. Em parte é material. Mas uma parte significativa é psicológica. Muitos anarquistas hoje estão aterrorizados com a ideia de serem vistos como “irresponsáveis”. A cultura liberal-esquerdista enquadra a política através da lente do cumprimento, da segurança e da minimização de danos. Tudo o que desafie os marcos institucionais é considerado imprudente. Tudo o que perturbe a normalidade política é perigoso. Tudo o que mina a esquerda parlamentar “ajuda indiretamente a direita”.
Isso cria uma paisagem moral paralisante onde o pior pecado que um anarquista pode cometer é não apoiar o status quo com entusiasmo suficiente. O medo de ser culpado por uma vitória da direita se torna tão avassalador que muitos deixam de imaginar a política fora do estreito horizonte eleitoral. O medo de ser acusado de “não se importar” com as comunidades marginalizadas se torna uma arma para silenciar a política radical.
Em tal clima, o anarquismo se torna uma identidade, não uma práxis: uma forma de se sentir radical enquanto se age com segurança.
Essa política baseada na ansiedade produz um anarquista que:
· em privado aceita que o Estado não pode libertar ninguém, mas teme dizê-lo em público;
· em privado sabe que as eleições não mudam nada fundamental, mas vota e pressiona outros a fazer o mesmo;
· em privado se opõe à guerra, mas repete os argumentos liberais para não parecer insensível;
· em privado quer enfrentar diretamente o capitalismo, mas se conforma com ações simbólicas dentro do sistema.
O resultado é trágico: anarquistas que são radicais em toda parte, exceto onde importa.
Aotearoa: Tratado, biculturalismo e ONGs
A situação em Aotearoa intensifica esse colapso porque a esquerda liberal está estruturada em torno de marcos morais vinculados ao biculturalismo, ao discurso do Tratado [N. do T.: o Tratado de Waitangi, de 1840, entre a Coroa britânica e chefes maoris, eixo do debate sobre descolonização] e ao trabalho de justiça social baseado em ONGs. São terrenos de luta importantes, mas o Estado aprendeu a usá-los para manter sua legitimidade.
Isso produz um panorama político onde se pressiona os anarquistas a tratar os atores parlamentares — especialmente o Partido Trabalhista, os Verdes e o Te Pāti Māori — como veículos centrais do “progresso”, mesmo quando seu histórico está profundamente enredado com a administração colonial, a polícia, o capitalismo de mercado e a política externa militarizada.
O Estado liberal em Aotearoa tornou-se hábil em representar virtude moral enquanto intensifica sua violência estrutural. Usa kupu maori — palavras em língua maori — em sua lavagem de imagem enquanto expande as prisões. Financia “provedores comunitários” enquanto esmaga o padrão de vida da classe trabalhadora. Contrata consultores iwi — das tribos maoris — enquanto impulsiona a vigilância militarizada no Pacífico. Oferece reconhecimento simbólico enquanto evade a descolonização material.
No entanto, muitos anarquistas, imersos em ambientes de ONGs e em oficinas sobre o Tratado, têm dificuldade de criticar essa dinâmica sem serem acusados de ignorância cultural ou de política reacionária. O resultado é silêncio, cautela ou apologia — comportamentos totalmente incompatíveis com o compromisso anarquista de confrontar o poder estatal, todo poder estatal, independentemente da retórica com que se vista.
E assim volta o argumento: os anarquistas devem apoiar os partidos de esquerda; os anarquistas não devem rejeitar o eleitoralismo; os anarquistas não devem se opor a marcos nacionalistas ou militarizados quando se apresentam como protetores da soberania indígena ou das comunidades marginalizadas.
Tal raciocínio confunde o Estado com o povo, um erro contra o qual os anarquistas advertem há 150 anos.
A afirmação de que os anarquistas “não podem” rejeitar o eleitoralismo, ou “não podem” se opor aos partidos de esquerda, é, em última instância, uma afirmação sobre a impossibilidade da imaginação política. Toma por certo que o Estado é o único terreno disponível, que nada significativo pode ser feito fora dele e que os anarquistas devem se alinhar à esquerda gestora porque a alternativa é a irrelevância.
Mas isso só é verdade se aceitarmos as premissas do fatalismo liberal. Toda a tradição anarquista existe porque gerações anteriores rejeitaram essas premissas. Emma Goldman, no início do século XX, não decidiu um dia que os anarquistas deveriam apoiar prefeitos progressistas. Kropotkin não concluiu que a classe trabalhadora deveria votar em reformistas liberais. Os radicais maoris dos anos setenta não decidiram que a libertação passava pelo Parlamento. A CNT espanhola não acreditava que a emancipação exigisse alianças com partidos burgueses [N. da R.: matizamos essa afirmação do autor: a CNT colaborou com o governo republicano e com a Generalitat em 1936-1937, participação que o anarquismo organizado criticou duramente como abandono de seus princípios].
O anarquismo sempre insistiu que a política vai muito além dos ciclos eleitorais. Se algo, as crises da nossa era — o colapso climático, a crise da moradia, os alinhamentos militares imperiais, o desmoronamento da infraestrutura social — demonstram que a organização anarquista não só é viável, mas necessária.
O Estado não é o único lugar de ação política. Nem sequer é o mais eficaz. É simplesmente o único que os liberais conseguem imaginar.
O que reafirmar para sair da captura
Se o anarquismo quer se recuperar da captura liberal, deve reafirmar algumas verdades básicas e intransigentes.
Os anarquistas devem rejeitar o eleitoralismo, não porque as eleições sejam moralmente impuras, mas porque a participação eleitoral mina ativamente o desenvolvimento do poder autônomo da classe trabalhadora. Cada hora dedicada a fazer campanha é uma hora não dedicada a organizar. Cada discussão sobre o voto estratégico desvia do trabalho real de construir alternativas. Cada segundo dedicado a defender partidos de esquerda normaliza a ideia de que a libertação flui de cima para baixo, do Parlamento, em vez de fluir de baixo para cima, da luta.
Os anarquistas devem se opor a todo militarismo, não de forma seletiva, não só quando se encaixa nos interesses ocidentais, não só quando os liberais o aprovam, porque toda guerra fortalece o Estado, intensifica o nacionalismo e expande o aparato repressivo que no fim será usado contra nós.
Os anarquistas devem rejeitar a noção de que os partidos de esquerda representam “a comunidade”. O Partido Trabalhista não representa os trabalhadores. Os Verdes não representam a resistência ecológica. O Te Pāti Māori não representa a descolonização. Os partidos representam a si mesmos: sua direção, seus financiadores, seus incentivos institucionais, suas carreiras profissionais.
Os anarquistas devem rejeitar a política liberal da culpa, essa ideia de que somos responsáveis pelas vitórias da direita se nos recusarmos a nos alinhar à esquerda parlamentar. Essa lógica é chantagem emocional para disciplinar o dissenso.
O mais importante: os anarquistas devem redescobrir a confiança de que podemos agir, podemos nos organizar e podemos construir poder político fora do Estado. Devemos parar de acreditar que a autonomia é impossível. O futuro não pertence aos eleitores, mas a quem assume o risco de criar algo fora dos marcos asfixiantes da governança capitalista.
O discurso liberal que infecta o anarquismo contemporâneo se reduz, em última instância, a uma frase patética:
“O anarquismo não pode fazer nada, então os anarquistas deveriam ajudar os liberais”.
É um credo derrotista disfarçado de pragmatismo. É o sussurro de um movimento que perdeu a fé em si mesmo. É a ideologia de um anarquismo que esqueceu sua própria história, suas próprias vitórias, sua própria capacidade de aterrorizar os poderosos.
Quando os anarquistas argumentam que não podem rejeitar o eleitoralismo, estão abandonando o princípio de que a libertação cresce de baixo. Quando argumentam que não podem se opor aos partidos de esquerda, estão entregando sua independência às mesmas instituições projetadas para neutralizar os movimentos sociais. Quando argumentam que não podem manter o antimilitarismo, estão aceitando a lógica do império. Quando argumentam que não podem agir sem a permissão do Estado, já não são anarquistas de forma alguma.
Estamos num momento em que o capitalismo se desmorona, o clima colapsa, o militarismo global se acelera e as velhas categorias políticas ruem. Este não é um momento para se retirar ao gasto pragmatismo da esquerda liberal. É um momento para reclamar a audácia e a clareza do anarquismo: a crença de que a classe trabalhadora pode se organizar por si mesma, de que as comunidades podem se governar a si mesmas, de que a solidariedade pode substituir a coerção e de que os Estados, todos os Estados, são obstáculos à liberdade, não veículos para ela.
Devemos ao mundo algo melhor do que nos tornarmos a ala auxiliar do liberalismo.
Observação: mantive as notas do tradutor original (N. do T. / N. da R.) e os termos em maori, pois fazem parte do texto.
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