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15 nov 2019

Tais Silveira, militante pela legalização da maconha

Entrevista realizada em 14/03/2019.

Tais tem 35 anos, é auxiliar administrativa, mãe de dois filhos e moradora da periferia da zona sul de São Paulo.

Como você começou a militar pela legalização da maconha?

Foi quando eu vi a propaganda da marcha da maconha em 2014 pelo facebook, daí eu fui na marcha pela primeira vez. Antes disso nunca tinha ouvido falar da marcha, dai pensei, caraca! Tem pessoas que também pensam como eu! Então eu fui. Nisso eu passei a postar as minhas fotos da marcha nas redes sociais e passei a organizar grupos no facebook pela legalização da maconha.  

Em 2015, um pouco depois da minha segunda marcha da maconha eu terminei meu casamento, depois em setembro meu ex-marido, por vingança, mostrou minhas fotos na marcha da maconha para minha mãe. Ele me acusou de ser viciada, de militar pela legalização e que se minha mãe não fizesse nada eu iria ser presa por apologia. Foi então que a minha mãe me mandou para uma internação involuntária.

Como você foi ser internada?

Minha mãe ligou pra mim, me chamando para jantar, falou – filha, a mãe te pega no ponto, vem jantar comigo! – então quando eu entrei no carro estava o meu pai e meus dois filhos, fomos jantar na casa dela, ela me deu de presente um conjunto de calcinha e sutiã, era umas 19 horas da noite mais ou menos quando chegamos em casa, pouco depois escutei um barulinho no portão, dai eu levantei e fui olhar, vi que estava entrando dois homens grandes, quando me dei conta os dois já estavam segurando meus braços me imobilizando, eu não tava entendendo nada, me avisaram que eu ia ser internada.

Nisso eu só ficava falando “mas eu moro sozinha, eu não dependendo da minha mãe, eu trabalho!” mas eles me disseram que quem tinha mandado me levar era meu marido e minha mãe, me ameaçaram para eu não fazer escândalo e que na clinica eu tinha até 48 horas para provar para os médicos e psicólogos que eu tinha sanidade mental.

Nisso minha mãe meio de cabeça baixa trouxe uma mala com coisas minhas, eu gritei que não queria levar nada que ia voltar em dois dias e que queria falar com os meus filhos. Minha mãe me disse que era para o meu bem, que era como um hotel-fazenda, que ela tinha pesquisado com meu pai. Gritei pedindo pra ver meus filhos, os homens não queriam deixar mas minha mãe mandou eles deixarem, dai com eles segurando meus braços a gente foi para o quarto onde estava meu filho, Pedro então com 3 anos, e o Vinicius, que ainda tinha 13 anos. Eu beijei eles, falei que a mamãe ja voltava, gritei com os caras para deixarem eu abraçar meus filhos, minha mãe insistiu e eles soltaram  meus braços pra eu conseguir abraçar eles. Meu filho mais novo não tinha noção do que estava acontecendo, mas o Vinicius tinha, estava chorando muito.

Como foi ficar internada?

Foi um cu. A clínica pertencia ao vereador Valter Lattanzio e ficava em Araçoiaba da Serra, interior de São Paulo. A história das 48 horas era mentira, eles riram da minha cara. Eu fiquei internada por 1 ano e 9 dias. A minha sorte foi que eu não tomava remédio, meus pais avisaram eles que não era pra me dar nenhum remédio. Mas a maior parte da galera lá ficava dopada, de rivoltril, diasepam, clonasepam, fernegam, eu não lembro os nomes, tinha um coquetel de drogas que eles chamavam de danoninho que davam quando alguém se revoltava, que a pessoa desmaiava e ficava dormindo o dia todo, por vezes ficava derrubada por até três dias. A maior parte das pessoas recebia doses de medicação de manhã, de tarde e a noite. Éramos forçados a trabalhar, submetidos a uma disciplina total de comportamento e humilhados diariamente.

Eles não deixavam eu me comunicar com o mundo exterior, todas as cartas eram censuradas pela psicóloga, que não enviava qualquer coisa que não agradassem eles ou falasse mal da clínica. Para me visitar meus pais tinham que fazer um curso do amor exigente, que ensinava a eles que eu era uma drogada, que tudo que eu dizia era mentira, que eles não podiam confiar em mim.

Eu sai da clínica depois que o coordenador tentou abusar sexualmente de mim, ele me agarrou e ficou me alisando, eu sai correndo e gritando, denunciei pra psicóloga, semanas depois quando meu pai ficou sabendo ele me tirou de lá.

O que é o amor exigente?

Nós, “adictos”, preferimos chamar de amor fode a gente. Eles se apresentam como um grupo de apoio a familiares de dependentes químicos, mas na realidade eles manipularam minha família para fazer com que eles pagassem para me deixar internada, meus pais tinham que frequentar reuniões semanais, nessas reuniões eles explicavam como eles deveriam agir com um dependente. Diziam que eu era uma adicta, que o termo vem do latim e que significava escravo da droga. Que o adicto mente, manipula, que ele não ama ninguém, só ama a droga, não se preocupa com ninguém, que ele rouba, que ele vai fazer de tudo para conseguir a droga. Por isso com o adicto você tem que ser firme e assertivo, sempre dizer não e manter ele sobre seu controle. Eles enchiam a cabeça dos meus pais com essas mentiras, fizeram meus pais fuderem com a minha vida.

Muito difícil a sua história! Depois de tudo isso por que você ainda continua lutando pela maconha?

Pra mim se tornou uma questão de honra, eu fiquei excluída da sociedade sabe. Eu brigo constantemente com meus pais. Eu quero a legalização para ter paz com a minha família e com os meus filhos. Meus pais bebem, vão a festa com um monte de gente que usa outras drogas escondido, mas fica nessa hipocrisia. Destruindo tudo por causa de uma visão errada sobre as drogas. Eu quero que seja legalizada pra molecada não ser presa por causa de um baseado.

E eu sou totalmente contra esse modelo de internação que tira totalmente os direitos das pessoas. Conheço casos na clínica de gente que ficou internada sem sequer ser realmente um usuário de drogas, quem dá esse direito de sua família mandar te internar desse jeito? Isso tem que acabar.

Como foi a experiência de organizar a marcha da maconha no Grajaú em 2018?

Foi uma experiência de muito aprendizado, foi a nossa primeira marcha. O Grajaú é muito grande e eu achei que ia ser lindo, por que a gente tem potencial pra ser uma grande marcha e acho que poderia ter sido, apesar do pouco tempo de divulgação. Mas isso se a policia não estivesse lá, dai teria sido tudo diferente. A opressão foi muito forte, enquadraram geral antes de dar o horário, prenderam alguns meninos, só pra intimidar a gente, depois soltaram todos. Foi a única marcha que teve repressão nesse ano. O que é proibido por que o STF já legalizou de fazer a marcha.

O que você acha sobre fazer a marcha da maconha na periferia?

Sem a periferia não tem marcha da maconha, a periferia já é hoje a maioria de quem vai na marcha da Paulista. A periferia é protagonista na marcha e tem que conseguir se organizar pra ser cada vez mais. Tem que ter mais periferia na organização da marcha da maconha. A periferia é quem mais tem que lutar pela legalização das drogas, não é o maconheiro playboy que vai sofrer enquadro, não é o maconheiro da usp que vai ser preso atoa, quem se fode é o muleque preto da quebrada. Se não existe marcha da maconha na sua quebrada, tem que organizar, tem que juntar os coletivos, tem que juntar as várias periferias que sofrem com a repressão pra conseguir legalizar.

Site do amor exigente: https://amorexigente.org.br

Clinica depois é fechada com denúncias diversas: https://www2.jornalcruzeiro.com.br/materia/414371/promotoria-apura-denuncias-contra-clinica-de-recuperacao

https://g1.globo.com/sao-paulo/sorocaba-jundiai/noticia/clinica-de-reabilitacao-e-fechada-pela-vigilancia-sanitaria-em-aracoiaba-da-serra.ghtml

Sobre a marcha da maconha no Grajaú que rolou em 2019:
https://quilomboinvisivel.com/2019/05/30/as-marchas-da-maconha-avancam-nas-periferias-de-sao-paulo/

0 Comentário

  • Doce disse:

    Vc é uma mulher incrível , fico triste pelo o que vc passou mas fico feliz pq passou parabéns pela luta da legalização da maconha . Tamo juntas tbm luto por isso . Só não participo de entrevistas pq sou bem tímida mas luto na Macha da maconha de Fortaleza-CE

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