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20 mar 2020

Chile se despertou: multidões saem às ruas por vida e dignidade.

(Foto tirada por Nara na Marcha 08 de Março)

Neste momento no Chile, está em andamento uma forte resistência à violência do Estado diante do projeto de colonização e exploração neoliberal dos povos chilenos. Que desde 1973, vivem um intenso projeto laboratorial de privatização que vai desde a educação até a distribuição de água. Desde outubro de 2019, as grandes mobilizações populares ocorrem diariamente nas ruas de todo Chile, sendo a maior concentração em Santiago na antiga Plaza Italia, renomeada depois da revolta como Plaza de la Dignidad. Também estão acontecendo ações conjuntas que constroem solidariedade desde os bairros e favelas, por meio das assembleias territoriais difundidas por diversos territórios.

Nesta semana já fazem 150 dias que se iniciaram os protestos de rua. A revolta teve início com os estudantes secundaristas principalmente do Liceu I, uma escola pública conhecida como um espaço de grande mobilização dos estudantes secundaristas no Chile. Depois do aumento da passagem a estratégia de luta dos estudantes foi organizada a partir das mochilazos, igual ao que chamamos de catracaços no Brasil, quando um grupo de pessoas não pagam a tarifa, saltando ou passando por baixo das catracas. Essas ações tiveram forte apoio popular e com pouco tempo as marchas deixaram de ser apenas dos estudantes passando a agregar desempregados, trabalhadores informais, indígenas, crianças, aposentados e diversos setores de trabalho. O dia 18 de outubro marcou o início da revolta contra o aumento da tarifa de 800 para 830 pesos na Alameda, principal avenida que tem sido ponto de aglomeração das marchas em Santiago, desde essa data surgiram múltiplas organizações de bases territoriais e coordenações de apoio aos presos políticos, de vítimas de traumas oculares, e a já existente coordenadora 8m.

As assembleias territoriais têm um papel fundamental na construção das pautas do movimento, e em sua articulação desde os territórios, são centenas de assembleias por todo o território chileno para além de Santiago. Elas são em sua maioria realizadas em praças públicas, que são ocupadas com faixas, cartazes e atividades das mais diversas, desde oficinas para crianças a debates políticos sobre a conjuntura. Essa força territorial mesmo que difusa tem descentralizado as ações, organizando marchas locais, cacerolazos (panelaços), e atividades culturais. 

Como parte da dinâmica neoliberal e de poder a resposta a revolta se canalizou na discussão do processo constituinte, como tentativa de absorver a insurreição nas ruas para um processo abstrato de elaboração constitucional. Mesmo se integrando a reforma da atual constituinte que vem do período da ditadura militar de Pinochet, as organizações sociais e assembleias territoriais não largaram as ruas e as ações de base, reivindicando as questões econômica que o governo tenta pôr de escanteio. Cada comuna (bairro) possui uma coordenação local de assembleias, e há uma coordenação maior em Santiago chamada CAT (Coordinadora de las Assembleas Territoriales) que reúne mais de  100 assembleias.

São inúmeras as organizações criadas depois da revolta, entre elas se encontram Coordinadora de victímas de traumas oculares, Coordinadora de 18 de octubre (presxs políticxs), Coordinadora de presos desaparecidos, e diversas Coordinadoras de secundários. Até agora já são mais de 400 pessoas com trauma ocular, mais de 200 perderam a visão de um olho, 34 perderam o globo ocular, e 2 foram totalmente cegadas. Não somente os equipamentos de repressão chilenos vêm de Israel, mas também a praticar de cegar os manifestantes. Mais de 9 mil manifestantes passaram pela prisão, 2500 estão presos, entre eles 150 secundários. Até agora são 41 mortos e 121 desaparecidos.

A coordenadora têm desempenhado importante papel de manter as vítimas de trauma ocular unidos na luta e de prestar solidariedade e apoio material. Para além disso agora estão travando uma batalha para criminalizar o Estado. Os olhos sangrando se converteram em um símbolo da revolta, que se encontra em todo tipo de manifestação. 

Como se encontra em um grafite: viver em Chile custa um olho da cara

A Coordenadora 18 de outubro reúne pessoas solidárias aos presos e seus familiares, exigindo do Estado sua liberdade. Estão organizados em dar recursos básicos aos presos e denunciar os casos de tortura e violações. No dia 3 de março fizeram um grande ato pela liberdade dos presos políticos, articulados com a coordenadora de vítimas de trauma ocular, agora fazem chamado para uma outra marcha mais forte no dia 17.

No dia 21 de fevereiro de 2019,  aconteceu um grande ato que foi fortemente reprimido. Começamos a marchar desde o Metrô Universidad Católica a Plaza Dignidad, sua concentração foi chamada por movimentos sociais e sindicais de oposição a hegemônica CUT (Central Unitária dos trabalhadores do Chile). A marcha contava com trabalhadores, estudantes e uma fanfarra com mulheres e dissidências que conduziam a frente do ato com canções e coreografias. Chegando na Plaza Dignidad haviam 4 pontos de conflitos com os pacos, assim como estão sendo chamados os policiais chilenos. Semelhante a como chamamos a polícia de vermes. Em todos os pontos de conflito haviam grupos de combate encapuchados enfrentando a polícia com pedras, estilingues, fogos de artifício, barricadas e molotovs. Mas também com lazer e bombas de tintas para atrapalhar a visão dos pacos.

A primeira linha junto com o movimento de mulheres têm sido muito importante para sustentação da revolta. Os jovens combatentes da primeira linha garantem a segurança dos outros manifestantes e estão em conflito direto com o braço armado do Estado. E nesta conjuntura são a força popular da Revolta. Para demais disso estão organizados nas brigadas de socorro cuidando dos seus feridos. 

As mulheres estão organizadas desde os bairros e favelas a partir das dinâmicas de solidariedade, e impulsionando a luta desde os territórios com atividades e oficinas que garantem a participação dos vizinhos e da comunidade local. As mães dxs presxs politicxs e da primeira linha também estão organizadas denunciando a violência do Estado e garantindo recursos para respaldar a luta. 

A Primeira Linha é composta em sua maioria por jovens secundários, jovens do Sename (Serviço Nacional de Menores), mas também por trabalhadores de diversos ofícios, imigrantes e desempregados. Desde o início da revolta em outubro as táticas e equipamentos avançaram muito, os escudos já são feitos com solda, barricadas com mobília de prédios ocupados, e fios de aço, postes e miguelitos são usados para impedir os carros militares de avançar. O mais impressionante é que a violência é vista por todos como um instrumento de defesa a agressão policial, o que torna a primeira linha tão forte e heróica é sobretudo o apoio e consenso do conjunto do povo.

(Foto tirada por Nara, Primeira Línea mostra munição “não letal” dos Carabineiros do Chile)

Os principais ponto de conflito estão ao redor da Rua Carabineiros do Chile. Nesta rua que é uma paralela a Alameda, os carabineiros estão organizando a repressão que se concentra em 3 pontos de conflito com a primeira linha, 2  deles estão em esquinas com a Alameda, e o outro na esquina com a Vickuña Mackenna. Nos dias de mais forte mobilização nas ruas centrais, os carabineros não conseguem avançar muito adiante e tomar a Alameda, mas a polícia tem usado a estratégia de sair atropelando as pessoas por dentro do ato e cercar a primeira linha nas esquinas. Estratégia chamada de encerrona, situação que coloca os manifestantes a confrontar um ataque inesperado da polícia. Próximo dessas ruas estão localizadas as bases de socorro das brigadas independentes de saúde. As brigadas de socorro são formadas por voluntários independentes que em grande parte são bombeiros, enfermeiros, alguns médicos e pessoas com conhecimento em primeiros socorros, são diversas brigadas que se reúnem em um grupo maior que se chama Brigadas Independentes de Primeiros Auxílios (B.I.P.A). Têm desempenhado um papel fundamental atendendo os feridos com os protestos, pois a saúde chilena é privada, o que não dá a obrigação das ambulâncias atenderem a todos, e nem os hospitais, os quais são pagos e estão cobrando cerca de 150 reais para remover cada perdigón (bala de chumbo) alojado no corpo. Os policiais além de disparar perdigones e balines (bala de borracha), estão disparando objetos não identificados e de capacidades letais, sempre apontando nos olhos e na cabeça.   

O movimento teve um pico de radicalidade entre outubro e novembro que foi ultrapassado no final de janeiro, depois da morte de um torcedor do Colo-Colo chamado Neco, que foi atropelado por um furgão dos carabineros. O que provocou no dia 29 grande quantidade de saques e ataques às delegacias, bloqueos de diversas avenidas e rodovias, e grande mobilização por parte dos torcedores das torcidas organizadas. Jogos foram adiados, barricadas de fogo dentro de estádios foram erguidas, e protestos ao redor de estádios. Em fevereiro a intensidade foi bem menor, porque é marcado como mês de férias escolares e de parte dos trabalhadores. Mas no final de fevereiro já se sentia a retomada dos protestos, que em março voltaram com toda força com os secundários retomando os mochilazos e bloqueios, e a jornada feminista do 8 e 9 de março.

(Foto tirada por Nara na marcha pela liberdade dxs Presxs Políticxs)

Nos dias 8 e 9 de março foi construída a maior greve feminista da história do Chile. Com mais de 2 milhões de mulheres tomando as ruas de Santiago, e 1 milhão mobilizadas em outras regiões. O dia começou com um café coletivo de mulheres e dissidências, às 9 horas da manhã estava convocado uma intervenção nas escadas da biblioteca nacional para relembrar os lutadores e assassinados desde o início da revolta. Por volta das 12 horas foram mais de dois milhões de pessoas marchando na Alameda e ruas paralelas. Estudantes e professoras feministas combatentes contra o patriarcado e a educação de mercado, mulheres mapuches em defesa do direito a terra e a espiritualidade. Mulheres e dissidências em defesa da vida. Trabalhadoras que impulsionam a greve desde seus espaços de trabalho. 

 As mulheres em pouco tempo de protesto foram fortemente reprimidas, e criaram novas formas de munição contra a polícia. Na falta de pedras encheram  as garrafas pets com areia, assim as deixando pesadas para disparar nos carabineiros. A manifestação marcou o maior ato de rua da história no país. Foram articuladas centenas de atividades e intervenções pelos territórios, entre elas  mobilizações de crianças, que parte de um trabalho fundamental de cuidado coletivo e possibilita a participação de todas as companheiras. O movimento feminista está procurando alternativas plurais e anticapitalistas contra a crise, que vem intensificando ainda mais a violência patriarcal e racista, a precarização da saúde, além da crise ecológica global. 

Um dos gritos mais fortes e potentes cantado por muitas vozes: “agora que estamos juntas, agora que eles nos vêm, abaixo o patriarcado que vai cair, que vai cair! acima o feminismo que vai vencer, que vai vencer!”

Diferente do Brasil, o Chile foi marcado por um desenvolvimento neoliberal muito mais aberto com a privatização de quase todas empresas, com exceção da extração de cobre, que tem 30% de capital estatal. O país é o maior produtor de cobre do mundo, que vendido para China se importa as mercadorias tecnológicas compradas a menor preço, a infraestrutura urbana segue o mesmo passo da privatização e importação estrangeira. A principal fonte de riqueza da elite chilena vem do endividamento popular e da AFP (Associação de Fundos de Pensões), que junto aos bancos funciona como um ciclo vicioso, porque sendo os sistema de saúde e educação privados, os bancos fornecem facilitação para os empréstimos que são um costume social para virar o mês, e com os juros altos se triplica o endividamento dos trabalhadores. O recurso dos bancos vem da AFP, que corresponde a cerca 76% do PIB nacional, porque concentram todas as pensões sem devolvê-las em caso de morte, funcionam como uma caixa privada que paga a cada trabalhador cerca de 33% do que recebiam antes de se aposentar. 

Nesse contexto se articulou o movimento NO+AFP criado pelo bancários como frente contra a AFP, e logo a pauta da tarifa do transporte se expande para as pensões, saúde, educação, e moradia. Nesses termos as reivindicações deixam de estar entre os anéis e sim entre os dedos da elite. E agora a revolta passa pelo desafio de apontar essas pautas para além da convenção constituinte, e não deixar ser engolido por esse tema, continuar nas ruas e nos territórios para que se construa a verdadeira vitória que é a destruição do poder, e não sua renovação. Talvez isso ainda esteja longe, mas o Chile tem nos apontado esse caminho.

Por Nara e Seixas, relato de uma dupla de brasileiros no Chile.

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