Entrevista com Alicia Maldonado sobre a organização do feminismo comunitário no Bairro Cano em Mendoza Argentina

Poderia começar se apresentando?

Primeiro de tudo, obrigado pelo interesse e pela entrevista tão paciente e agradável, poder compartilhar com companheiros e companheiras essa experiência é muito bonito. Eu sou geógrafa, nasci no Chile e vivi 12 anos em Mendoza na Argentina com meu filho. Lá pude fazer parte da luta feminista e participei muito ativamente de uma experiência comunitária de cunho feminista no Bairro Cano, lugar em que vivi até 2018. Pertencer a esta organização transformou a vida de quem foi parte e foi um processo de aprendizagem e construção coletiva que permitiu incorporar a nossa vida práticas políticas não neoliberais, que pessoalmente me permitiram construir uma visão distinta a que trazia do Chile produto do meu pertencimento a espaços políticos de tradição marxista-leninista. Graças a esta experiências pude repensar e experimentar em uma comunidade um que fazer político radicalmente distinto, ao assumir o desafio coletivo de pensar a despatriarcalização de estruturas organizativas e a autogestão do território que habitava, mas sobretudo legitimar uma forma de fazer político que circulava em outra sintonia, outra sensibilidade.

Como surgiu a experiência ?

Começamos com apenas uma dúzia de mulheres que trocavam roupa em desuso, para nos converter na Feira Ameri-Cano, organização de mais de 300 mulheres e dissidências sexuais que cada sábado se instala no Parque do Bairro Cano e que se envolveram coletivamente na recomposição do tecido social e comunitário em perspectiva feminista. Para fins de 2018, último ano em que participei como feirante, antes de começar uma vida nômade junto a outras companheiras feministas da organização, a quantidade de atividades e participantes seguia crescendo.

O Bairro Cano corresponde a um projeto de habitações coletivas de princípios do século XX declarado Patrimônio Cultural da Capital que  conta com um grande parque florestal de quase 100 anos e que com o passar do tempo e o crescimento urbano da cidade, ficou localizado como pulmão verde e ponto estratégico em meio a duas localidades iconicamente antagônicos na capital mendocina. Como limite tem o Bairro San Martín, setor que carrega com todo o estigma social a precariedade econômica, habitacional, sanitária e racialização de seus habitantes, e como limite oriente se encontra o Bairro La Sexta, região tradicionalmente acomodado, de habitações de grande valor e lugar de residência de autoridades políticas, intelectuais, artistas e que possui um cuidado estético urbano típico de Mendoza. Nosso lugar de encontro foi assim transformando-se em um oásis espaço-tempo, uma pausa que nos colocava a sentir e nos pensar coletivamente em meio de dois extremos que se mostravam frágeis e que estávamos transformando mediante um tecido que enlaça nossas vidas em uma rede de apoio mútuo,um corpo  coletivo, que apesar de todas as diferenças que nos constituíam eram capazes de identificar-se como um corpo território vivo, desejante, dissidentes, emancipatório.

O conflito permanente com as autoridades políticas do governo da Capital devido a seus interesses em nos despejar do espaço público e os diversos ataques que recebemos dos setores fascistas da população que olhava com espanto nossas atividades e discursos, foram um inimigo comum que implicou um exercício político complexo para a defesa da nossa organização. A grande diversidade de identidades, vozes e corporalidades que nos compunham sempre criando debates que enfrentavam posições e revelavam as distintas maneiras de olhar a vida e a relação com o Estado, mas isso não foi de maneira conflituosa ou antagônica, se não desde uma verdadeira abertura e aceitação ao diferente, que terminou cristalizando em uma bateria de estratégias, que somadas, se potencializavam e eram mais eficazes que seguir “uma só linha”. Foi muito interessante e enriquecedor o processo que foi criando a necessidade de estar se esquivando de formas verticalistas e caudilhistas para que a organização se mantivera fiel a seu espírito horizontal, assembleário, inclusivo e aberto. 

Obviamente havia lideranças e distintos níveis de responsabilidade, mas era muito livre todos estes esses espaços, nos organizávamos em comissões as quais cada qual entrava e saia quando quisesse, e em cada tempo alguém parava para descansar e depois voltava. Durante o ano de 2017, a meu ver o de maior plenitude e criatividade destacada em todo o território, foi Florência Urzúa quem assumiu como presidente do bairro, a verdade é que passamos bons momentos e nossas vidas transcorríam nas aulas noturnas de tango que organizávamos no parque, as reuniões de leitura feminista, assembleias e festas do bairro, fazíamos de tudo sem uma moeda. (1)

(1)  https://www.youtube.com/watch?v=VaovidjbFg4

No foram poucas as vezes que candidatos, referentes políticos de prestígio e organizações partidárias se viram tentados em operar politicamente no interior da organização para capitalizar de alguma maneira o que ali se gestava, entretanto esta situação foi fortalecendo uma forte identidade de rechaço a tais práticas e decidimos assim escrever nossos princípios que declaravam uma série de definições que fomos construindo mediante o consenso que se nutriu do debate permanente que mantivemos durante anos de assembleias semanais ininterruptas. Proibir a participação de igrejas, partidos, organizações políticas, instituições estatais e ONG´s  nos permitiu respeitar e fazer respeitar as identidades sexo-genéricas,  políticas e religiosas de cada pessoa, assim como gestionar sempre com recursos próprios cada novo projetos que desenvolvíamos. Desta maneira conseguimos ter completa independência e autonomia a respeito de nossos posicionamentos políticos frente à conjuntura. Quando necessitávamos de recursos, simplesmente fazíamos um chamado aberto a comunidade e dessa maneira conseguíamos sustentar uma quantidade inumerável de espaços como rádio aberta, distribuição de comida, biblioteca e espaços para capacitação de trabalho. Muitas Companheiras que militavam em partidos, coletivos ou trabalhavam na administração do Estado ou na universidade, desejavam buscar esse espaço de pertencimento de cuidar da autonomia da nossa organização se tratava, assim mesmo, moviam milhares de fios para gestionar a resolução de algum conflito que nos afetava. A única vez que abertamente todas apoiamos uma candidatura foi a da atual deputada nacional Marisa Uceda, ela era nossa vizinha e durante muitos anos, antes de ser candidata, entregava de maneira gratuita assistência jurídica para as companheiras da organização, vizinhes e clientes da feira, ela era parte da nossa organização e quando foi nomeada candidata foi uma grande alegria para todas.

De uma maneira disforme, sempre alcançamos por o melhor de cada uma para potencializar nossos projetos coletivos… desde nos fazer amigas dos inspetores que nos enviavam para fiscalizar, até mover contatos na televisão, sempre conseguimos reverter as tentativas de controle e discriminação contra nós. Me Lembro que chegamos a concluir que cada vez que nos davam um golpe saíamos mais fortalecidas. O orgulho de pertencer nos moveu cada fibra do corpo.

Nosso rechaço em relação a burocratização de nosso fazer foi um rasgo distintivo que nos permitiu nos arriscar juntas a fazer as coisas de maneira diferente ao que as tradições políticas levantavam, aqui peronistas, anarquistas e evangélicas, crianças, aposentados e adolescentes podiam olhar nos olhos e encontrar um abraço quente para fazer frente a nossa feridas mais profundas e sistemicamente comuns.  As situações de violência de gênero, por exemplo, não eram abordadas desde uma perspectiva assistencialista, senão que nos apoiávamos emocionalmente e dávamos juntas, em um ritmo próprio, o difícil passo de decidir mudar nossas vidas para sair da violência,e a precariedade económica que quase sempre acompanhava a decisão de deixar o agressor. Muitas companheiras a partir de prestar ajuda a outra tomavam a consciência de seu próprio cárcere, ou eram capazes de falar pela primeira vez sobre as dores carregadas em solidão, muitas decidiram deixar seus  maridos e ir alugar juntas  uma casa e iniciaram empreendimentos econômicos. Se foi armando uma bateria de ferramentas para fazer frente a violência que cada vez mais profundamente íamos problematizando. Ver o sofrimento na outra, nos animava a ter mais consciência de autocuidado e não cair em juízos moralistas ou protocolos institucionalizantes.

O compartir e nos sentir em rede nos fez desenvolver outra sensibilidade, muitas passaram a se autodefinir conservadoras em reconhecer que se sentiam atraídas sexualmente por mulheres. Experimentamos algo assim como uma saída coletiva do closet homofóbico e xenofóbico, assim que cada feira era uma festa em que nos disfarçávamos, dançávamos, debatíamos, fazíamos rádio aberta, oficinas de autodefesa, grupos de estudos e leituras, esporte e um monte de atividades que se nos iam dando vontade, além disso de ter um posicionamento claro frente a conjuntura política nacional, que sob o governo de Macri esteve marcado pelo desaparecimento de Santiago Maldonado, o assassinato de Rafael Nahuel e a precarização da vida. Nós armamos um micromundo que tirava o melhor de nós para pôr à disposição do coletivo, e assim mulheres pobres, travestis, aposentadas, putas, artistas, crianças, homesexuais, indígenas, intelectuais escritoras, viciadas, donas de casa, discapacitadas, adolescentes e quanto variedade se pode imaginar, nos acercávamos mutuamente para habilitar a transformação que cada uma buscava para sua emancipação. Muito micropolíticamente, sem mais ambição que alimentar esse pequeno mundo, nos definimos como espaço separatista, e é que, se bem que nunca foi nosso objetivo ser-lo, as relações que nos união não davam lugar para que machistas, adulto centristas, o militantes da hierarquia e o individualismo puderam sentir-se cômodos, se marginalizavam eles mesmos e os escrachados nem o nariz metiam, quando se criava alguma situação de risco ou conflito, com só uma visão cúmplice e sincronicidade automática conseguíamos ter controle da situação.

Para nós era muito importante valorizar o que a linguagem patriarcal invisibilizava em nossas vivências. Durante muito tempo desenvolvemos um espaço que se chamou de “Rebelión de Saberes”, ali qualquer companheira entregava seus conhecimentos e os colocava à disposição de outras mulheres. Quem sentia orgulho de de sua receita de pão ou acreditava ter a melhor receita de empanadas  ía e ensinava ao resto, outras que estudavam nos apresentavam suas pesquisas e teses, outras ensinavam eletricidade, costuras, e assim intercambiávamos conhecimento que se iam desprendendo da desvalorização que constantemente se exerce desde os discursos hegemônicos sobre nossos saberes.

O Bairro Cano e a feira foram transformando-se  em uma pedra no sapato para a polícia e as autoridades políticas, viam com desconfiança e incômodo o protagonismo cultural e político que se estava gestando em um setor que para eles era um pólo eleitoral do radicalismo mendocino. Além disso, como nos associávamos com outras organizações de promoção e defesa dos direitos de maneira permanente, nos articulamos para denunciar as más práticas da delegacia e fiscalização se encontram ao interior do bairro, e prestávamos apoio às vítimas de violência institucional de gênero que viam aí violados seus direitos. Levantávamos a voz frente aos atropelos e práticas de corrupção do governo provincial, municipal que chegaram aos nossos ouvidos. A feira já não só transmitia através da rádio um discurso contestatório, radical, e contra hegemônico graças a colaboração de diversas agrupações organizações nos ámbitos sindical, feministas, indígenas e meio ambientais, senão que além íamos desenvolvendo toda uma série de iniciativas culturais que  fazia massivo qualquer chamado para a ação frente a alguma conjuntura que considerávamos relevante.

Desde 2013 que foi quando começou a feira, se foi recompondo o tecido social e paulatinamente fomos participando na gestão do bairro, desta maneira se colocou fim a 20 anos sem eleições do Consórcio (associação de proprietários das  habitações que compõem o bairro, regulada pela Lei de Propriedade Horizontal que tem como fim a administração e legislação). No ano de 2017 conseguimos levantar um corpo de delegades em todas as torres que compõem o bairro de quase 2.500 habitantes. Este passo teve um grande impacto não só para a feira que viu potencializado seu fazer graças a ação conjunta, senão que todo o bairro entrou em um processo de restauração do patrimônio histórico e arquitetônico em colaboração com a Universidade Nacional de Cuyo. Professores, tesistas, investigadores e estudantes chegaram em grande quantidade para somar-se e a cátedra de patrimônio decidiu trabalhar todo um semestre exclusivamente ali, foi um período muito lindo, restauramos com trabalhos voluntários a sede do consórcio, expusemos livros de atas, planos e elementos restaurados da década de 30 e se realizaram muitas investigações que nos levaram inclusive a ser postulados como patrimônio arquitetônico nacional. Me Lembro de interessantes debates sobre se queríamos ou não ser patrimônio, a verdade é que de tudo se armava um debate, foi muito enriquecedor esse processo com xs vezinhes e abrir pontos de fuga para a autogestão do território.

Quando um grupo de nós junto os vizinhos do bairro passamos a ser autoridades locais amparados na lei de propriedade horizontal, assumimos o desafio de despatriarcalizar a gestão do território. Colaboravam muitas organizações companheiras e nos inventávamos mecanismos para mediar conflitos entre vezinhes, incentivar boas práticas e assim estávamos toda a semana entre reuniões, oficinas, cinema ao ar livre, atividades para crianças , lançamentos de livros e festivais musicais noturnos. Este foi um período de muita potência, mas que também nos fez alvo de muitos inimigos, principalmente a polícia, o intendente e grupos militantes pró-vida (antiaborto). Em Mendoza há organizações de direita que só existem ali, acredito que junto a Córdoba devem ser as províncias mais conservadoras da Argentina.  Me lembro que nos acusavam de dançar nuas na praça, de consumir drogas, de ser todas putas, loucas, enfim… a verdade é que o tomávamos com muito humor porque as histórias sobre nós eram cada vez mais descabeladas e delirantes.

Logo qualquer atividade que realizávamos era reportada pelas rádios de Mendoza, jornais, televisão e tínhamos intelectuais de grande trajetória participando de atividade e lançamentos de livros junto a nós, como Silvia Rivera Cusicanqui, Diego Stulwark, Verónica Gago, Luci Cavallero y Horacio Verbitsky. Me lembro quando formamos um grupo de leituras feministas e enquanto líamos o Calibã e a Bruxa, em meio do impacto que gerou em nossas vidas sua obra, dizíamos: “ se imagina poder conversar alguma vez em pessoa com Silvia Federici? Seria incrível!” kkkk e no ano seguinte a tínhamos na plaça de nosso bairro participando de uma assembleia feminista junto a quase 600 companheiras! Ficamos 5 horas debatendo com ela, com perguntas e contra perguntas, falando de temas polémicos como o trabalho sexual ou a dissolução do Estado e da Igreja, foi realmente memorável para nós. Além do mais permitiu enriquecer muito o debate feminista em Mendoza porque foi incrível a oportunidade de participar de um diálogo entre muitas companheiras, referências políticas, intelectuais e organizações feministas. Estivemos desde a hora do almoço até que nos caiu a noite em meio a um debate de grande conteúdo teórico e sobretudo sustentado por uma experiência de corpo militantes feminista.

Houve alguma conexão com a discussão do  feminismo comunitário que se desenvolveu na Bolívia?

Acredito que todos os debates nos alimentam e conectam permitindo ver as particularidades que de cada contexto vai emanando e configurando as práticas e estratégias que uma “comunidade” define para si mesma. Nós nunca nos colocamos um nome, nem nos identificamos com um tipo de feminismo em particular, entretanto o caráter territorial e comunitário de nossas experiências nos fazia pôr no centro do nosso debate a questão da autogestão como um mecanismo que nos permitia esquivar da ação totalizante do Estado que mercantiliza o território para pôr à disposição do controle, a segregação espacial, a extração do valor de nossos corpos e a otimização dos fluxos de capital. A precarização de nossas vidas mediante a privatização encoberta dos espaços públicos e a mercantilização absoluta da natureza, são os rasgos predominantes da gestão estatal do território, então para nós resultava de maneira muito admirável o processo das companheiras bolivianas, mas nossas relação e visão para o Estado era muito diferente, nós fugíamos do Estado, preferíamos inclusive perder a possibilidade de optar por fundos de ajuda econômica com para não ter que iniciar um trámite de personalidade jurídica ou entregar os dados pessoais das nossas companheiras a alguma instituição governamental. Desde a institucionalidade só vimos impedimento e amputação das possibilidades de autodeterminação e planificação participativa e coletiva de território

Pode a organização comunitária das mulheres avançar de forma mais fluida e coletiva que espaços muito machistas e masculinos como o sindicalismo?

Acredito que sem dúvidas as mulheres e as dissidências podem fluir muito mais alegremente em espaços comunitários. Eu apenas regularizei minhas situação migratória na Argentina e comecei a trabajar como docente, iniciei minha participação no Sindicato de Docentes de Escolas Privadas (SADOP) e logo também fui Delegada Gremial em Escolas Públicas (SUTE), a verdade é que me apareceram espaços super violentos, pouco criativos, funcionais e interesses pouco transparentes e verticalistas, com um nível de burocratização impressionante.  A verdade é que admiro muito as companheiras feministas que estão fazendo batalhas no interior do sindicalismo, me parece que é um espaço fundamental que historicamente nos foi negado, segundo minha experiência ali  o patriarcado caminha a passos largos e a competência está completamente naturalizada.

Partindo de minha experiência, pude sentir muito mais liberdade e potência em espaços comunitários, quando empreendemos um novo projeto, tínhamos como premisa passar bem, nos sentir cuidadas e queridas.

A organização continua hoje?

Sim, continua, e segue se transformando de acordo com necessidades que vão aparecendo. Sempre assumimos que os problemas, de perseguição e conflitos seriam permanentes, porque ao estar usando o espaço público somos uma cara visível para fazer chegar qualquer queixa, por mais descabelada que esta seja, assim que sem medo de errar, se provam novas estratégias organizativas, para logo retroceder ou avançar segundo a avaliação da conjuntura.

Há experiências como esta em toda Argentina?

Participamos de vários encontros sobre cidade, feminismo e território e conhecemos muitas experiências feministas de caráter comunitário e territorial, nenhuma igual a outra e tanto urbanas como rurais.

Como está a organização hoje com a pandemia?

As atividades estão suspensas devido a pandemia, entretanto as redes de apoio mútuo seguem articuladas e as vendas pela internet estão ativas.

Como evoluiu a relação com o feminismo e o Estado nos últimos años?

Na Argentina o único setor que saiu para a rua massivamente durante o macrismo foi o feminismo e o movimento de direitos humanos. Nem os sindicatos, nem ninguém levantou se com determinação ante os desastres que fez Macri durante seu mandato. Graças a luta feminista se construiu e massificou uma linha argumentativa muito sólida e pedagógica para visibilizar como opera o patriarcado na precarização da vida e das esferas econômicas que criam nossa obediência ao capital. Existe um poder de copulação da rua que é muito importante, mas tenho a sensação que essa mesma rua feminista tende a uma institucionalização permanente de demandas. O presidente Alberto Fernández inclusive disse em cadeia nacional que “A Argentina ia sair da crise, da pandemia e do patriarcado”, a verdade é que me surpreendeu muito tal afirmação. Acredito que o trauma da gestão macrista, tira de cena certos debates que criámos já óbvios, estes dizeres não foram nem questionados por setores do feminismo que têm peso suficiente  para sair e pôr em questão tal afirmação, isso me pareceu, como poderia dizer, medo de polemizar com quem prometeu ser aliado?

Neste momento tendo a pensar que durante o governo de Alberto, o feminismo que enche as ruas de glitter e instala debates nacionais, estará em uma posição muito menos contestatória. As vezes, eu gosto de ver o feminismo como uma chave ou uma janela: nos permite por um lado ampliar nossos horizontes libertários mais para lá de certas categorias que nos ofereceram as esquerdas e as tradições de pensamento europeias e coloniais, e além disso apaga margens desenhadas pelo patriarcado, consegue conectar lutas muito rapidamente em uma sintonia completamente diferente, se legitima outra linguagem e fazer político… assim, apesar dos tempos legislativos e políticos do governo, sempre se vai ampliando a visão, e Argentina é um lugar no qual permanentemente se estão formando núcleos de pensamento crítico com grande capacidade de difusão. Espero ansiosa, a legalização do aborto livre, seguro e gratuito, e que seja normalizada e aplicada em todas as províncias a atual lei de cota laboral trans-travesti para o setor da administração pública nacional, e tantas outras leis que não fazem mais que fazer-se cargo minimamente das violações flagrantes aos direitos humanos mais elementares. Portanto acredito que a delegação permanente no Estado das aspirações de igualdade e o caráter altamente punitivista da sociedade, fortalecem as hierarquias e portanto o lugar subalterno do feminino e a crescente violência machista, e me refiro tanto a organizada, como a do nascente grupo Patriarcado Unido Argentino, como a que opera no interior de nossos lares e bairros graças a alianças conservadoras entre grupos militantes antiaborto e a polícia. Estas alianças invisíveis operam sob a mesma lógica que o narco: poder de morte e impunidade assegurada. A negativa sistemática das polícias ao acolher as denúncias de vítimas de violência machista, assim como a impunidade que sustenta a extrema violência com a que atuam as direitas civis, são em parte graças a essa aliança invisível que se nutre da promulgação religiosa e das redes de advogados da Opus Dei, evangélicos, ex-funcionários das forças armadas, policiais, fiscais e juízes.

Agora que me encontro novamente no Chile, pude observar alguns dados, como por exemplo que no Chile durante o período de janeiro – junho de 2020, por 1 milhão de habitantes   se registraram 1,2 feminicídios, e na Argentina para o mesmo período, por 1 milhão de habitante se registraram 4,8 feminicídios! Isso segundo os dados revelados pelas organizações feministas: Red Chilena Contra Violencia Hacia Las Mujeres e El Observatorio Ahora Que Si Nos Ven de Argentina. Quando revisamos os dados dos últimos 10 anos, podemos ver que mantém a mesma tendência. Acredito que é muito importante pensar o porquê, se bem Argentina conta com uma legislação de avançado respeito de políticos que promovem a igualdade de gênero e a inclusão, isto não reduz nem um pouco os feminicídios nem outras expressões de violência machista, e portanto nem mesmo o lugar subalterno que ocupamos as mulheres na sociedade e na família, e nem sequer as altíssimas taxas de travesticídio! Que reflete o fascismo mais puro e duro. Na verdade, acredito que é urgente abrir a pergunta a respeito de como desmantelar as violências machistas nos espaços mais íntimos e deter esses crimes que nos condenam a viver com o medo em alerta permanente. Basicamente nosso habitar está atravessado pelo medo ou pelo treinamento físico para repelir um ataque, mas temos plena consciência de que se atacamos nosso agressor, o mais provável é que terminemos presas. Sobre isso já temos uma grande experiência, ao Estado encanta dar lições aos nossos corpos quando nos atrevemos a fazer uso da violência para defender nossa autonomia.

Acredito que a baixa quantidade de feminicídios que há no Chile em comparação com a Argentina, tem relação com a legitimidade simbólica que tem o Estado. No Chile em fevereiro deste ano se conheceu o Estudio Nacional de Transparencia y Protección de Datos Personales, e do Consejo para la Transparencia, este revela que só 23% das pessoas confiavam no Estado, que 84% o consideram distante, e 76% ruim. Aqui o normal é desconfiar do Estado” E isso está muito enraizado nas análises políticas que fazem qualquer pessoa, e que desde outubro se tem problematizado nos debates assemblearios que se abriram em todos os território. (2)

(2) https://ciperchile.cl/2020/02/14/yo-me-organizo-en-la-plaza-las-cientos-de-asambleas-que-surgieron-tras-el-estallido-social/

Outro elemento revelador é a baixa participação nas eleições. Nas últimas eleições municipais ocorridas no Chile, segundo os dados do Servicio Nacional Electoral, a participação média das comunidades mais precarizadas alcançava apenas 20% do padrão eleitoral, chegando algumas inclusive a 17%. Bairros emblemáticos estigmatizados pela pobreza como El Bosque, La Granja, La Pintana ou Puente Alto são os que menos participam das eleições. Entretanto, este dado não deve ser confundido com apatia ou despolitização, já que como ficou demonstrado desde que se iniciou a Revolta de Outubro, é desde estes bairros que vem a maioria dos que hoje constituem a Primeira Linha, e é de lá que vem a maioria dos presos e presas políticos que hoje somam mais de 2500 pessoas nas prisões chilenas. Desde estes bairros provêm além do mais grande parte das vítimas de trauma ocular e as e os assassinados pelas mãos da repressão estatal durante as manifestações. Em meu parecer este dado é revelador para compreender o risco que temos de morrer a mãos de um feminicida em um território no qual se pretende desmantelar a violência machista a partir das políticas públicas, sem assumir a matriz colonial e patriarcal do Estado e assumir uma atitude de obediência em troca de proteção. Acredito que temos um grande desafio para pensar como construímos as transformações estruturais da nossa sociedade, não só através das mudanças legislativas, senão também, pelas costas do Estado. No Chile, talvez, ao não haver registro na memória coletiva de um Estado que te proteja e ajude, existe uma visão menos maquiada sobre ele. Para além das densas redes de solidariedade e apoio mútuo que se fez produto da indiferença estatal para a proteção  da vida, colocam a mulher em um lugar de reconhecimento e prestígio social nas organizações barriais como nas ollas comunes (doação de alimentos), juntas de vecinos e outras de caráter territorial. Isso se pode observar claramente durante as últimas catástrofes sísmicas, tsunamis e a atual pandemia. A olla comùn é um lugar de prestígio político em um espaço público historicamente feminino e Chile come de uma olla comùn faz 200 anos, ainda que geralmente esquecido. No Chile existe uma forte tradição de luta que vê com desconfiança hierarquias e caudilhismo e em geral estruturas verticais de representação, e nesta mesma sintonia acredito que circula o protagonismo simbólico que cobrou a bandeira e causa mapuche desde que começou a Revolta de Outubro de 2019 por gerações em luta mais jovens, é dizer, quem saltou as catracas, estudantes entre 12 a 16 anos que passaram pelo maio feminista de 2018 e que sentem certeza de que não há futuro possível sob esse regime (3). Eles negam ainda com maior radicalidade e consciência as ficções políticas que nos mantém atados a delegação e a obediência, isso é muito esperançador em termos da configuração de uma nova ética política que nos permite fazer frente ao avanço repressivo do Estado chileno e a pensar outras estratégias possíveis para abrir fissuras no sistema e ir imaginando e construindo as mudanças estruturais que necessitamos para reverter a violência, a precariedade e a ação totalizante da subjetividade capitalista, neoliberal e colonial. 

(3)  http://lobosuelto.com/emancipacion-calle-aliciamaldonado-chile/

Documentário Bairro Cano: https://www.youtube.com/watch?v=BR7vCTjTHvs

Livro de Verónica Gago sobre a dívida feminista: http://lamosquitera.org/deuda-y-feminismo-eso-que-suena-tan-lejano-y-lo-tenemos-en-nuestras-vidas-cotidianas/

ESPAÑOL:

Entrevista com Alicia Maldonado sobre la experiencia de organización del feminismo comunitario en el Barrio Cano en Mendoza Argentina

Podrías empezar presentándote?

Primero que todo, gracias por el interés y la entrevista tan paciente y amena de Quilombo Invisible, poder compartir con compañeros y compañeras esta experiencia es muy lindo. Yo soy geógrafa, nací en Chile y viví durante 12 años en Mendoza Argentina junto a mi hijo. Allí pude ser parte de la lucha feminista y participé muy activamente de una experiencia comunitaria en clave feminista en el barrio Cano, lugar en el que viví hasta el año 2018. Pertenecer a esta organización transformó la vida de quienes fuimos parte y significó un proceso de aprendizaje y construcción colectiva que permitió incorporar a nuestras vida prácticas políticas no neoliberales, que en lo personal me permitieron construir una mirada muy distinta a la que traía desde Chile. Gracias a esta experiencia pude re pensar y experimentar en una comunidad un quehacer político radicalmente distinto, al asumir el desafío colectivo de pensar la despatriarcalizaciòn de estructuras organizativas y la autogestión del territorio que habitaba, pero sobre todo legitimar una forma de hacer política que circulaba en otra sintonía, otra sensibilidad.

Cómo surge esta experiencia?

Empezamos siendo apenas una docena de mujeres que intercambiaban su ropa en desuso y artesanías, para convertirnos en la feria Ameri-Cano, organización de más de trescientas mujeres y disidencias sexuales que provenian de difeferentes puntos de Mendoza y que cada sábado se instala con puestos de venta, música en vivo, talleres, biblioteca feminista, merendero infantil y radio abierta en el Parque del Barrio Cano, y que embarcandose además colectivamente en la recomposición del tejido social y comunitario en clave feminista, se transformó en un importante epicentro de la cultural popular y lugar de reunión e intercambio de diversas organización en lucha. Para fines del 2018, último año en que participé, antes de comenzar una vida nómade junto a otras compañeras feministas de la organización, la cantidad de actividades y participantes seguía creciendo.

  El lugar donde se desarrolla esta experiencia es el Barrio Cano, que corresponde a un proyecto de viviendas colectivas de principios del siglo XX declarado Patrimonio Cultural de la Capital que  cuenta con un gran parque forestal de casi 100 años y que con el pasar del tiempo y el crecimiento urbano de la ciudad, quedó localizado como pùlmon verde y punto estratégico en medio de las dos localidades icónicamente antagónicas en la capital mendocina. Como límite poniente tiene  al Barrio San Martín, sector que carga con todo el estigma social de la precariedad económica, habitacional, sanitaria y racialización de sus habitantes, y como límite oriente se encuentra el barrio La Sexta, sector tradicionalmente acomodado, de viviendas de gran valor y lugar de residencia de autoridades políticas, intelectuales, artistas y que posee una muy cuidada estética urbana típica mendocina. Nuestro lugar de encuentro fue así transformándose en un oasis espacio-tiempo, una pausa que nos arrojaba a pensarnos colectivamente en medio de dos extremos que se mostraban crudamente y que estábamos transformando mediante un tejido que enlazaba nuestras vidas en una red de apoyo mutuo, un cuerpo colectivo, que a  pesar de todas las diferencias que nos constituían eran capaces de identificarse como un cuerpo-territorio vivo, deseante, disidente y emancipatorio.

El conflicto permanente con las autoridades políticas del gobierno de la Capital debido a su interés en desalojarnos del espacio público y los diversos ataques que recibimos desde sectores fascistas de la población que miraban con espanto nuestras actividades, cuerpos y discursos, fueron un enemigo común que implicó un ejercicio político complejo para la defensa de nuestra organización. La gran diversidad de identidades, voces y corporalidades que nos componían siempre generaron debates que enfrentaban posiciones y develaban las distintas manera de mirar la vida y la relación con el gobierno y el Estado, más esto no fue de manera conflictiva o antagónica, sino desde una verdadera apertura y aceptación a lo diferente, que terminó cristalizando en una batería de estrategias, que sumadas, se potenciaban y eran más eficaces que seguir “un sola línea” . Fue muy interesante y enriquecedor el proceso que se fue dando al tener que estar esquivando formas verticalistas para que la organización se mantuviera fiel a su espíritu horizontal, asambleario, inclusivo y abierto. Obviamente habían liderazgos y distintos niveles de responsabilidad, pero eran muy libres todos esos espacios, nos organizábamos en comisiones en la que cada cual entraba y salía cuando quisiera, y cada tanto una se tomaba un descanso y luego volvía. Durante el año 2017, a mi entender el de mayor plenitud y creatividad desplegada en todo ese territorio, fue Florencia Urzúa quien asumió como Presidenta del barrio, la verdad es que la pasamos increíble y nuestras vidas transcurrían entre las clases nocturnas de tango  que organizábamos en el parque, las tertulias de lecturas feministas, asambleas y fiestas barriales, hacíamos de todo sin un solo peso (1).

(1)  https://www.youtube.com/watch?v=VaovidjbFg4

No fueron pocas las veces que organizaciones partidistas se vieran tentadas en operar políticamente al interior de la organización para capitalizar de alguna manera lo que allí se gestaba, sin embargo esta situación fue fortaleciendo una fuerte identidad de rechazo a tales prácticas y decidimos así redactar nuestros principios que declaraban una serie de definiciones que fuimos construyendo mediante el consenso que se nutrió del debate permanente que mantuvimos durante años de asambleas semanales ininterrumpidas. Prohibir la participación de iglesias, partidos, organizaciones políticas, instituciones estatales y ONG´s  nos permitió respetar y hacer respetar las identidades sexo-genéricas,  políticas y religiosas de cada persona, así como gestionar siempre con recursos propios cada nuevo proyecto que se nos ocurría. De esa manera logramos tener completa independencia y autonomía respecto de nuestros posicionamientos políticos frente a la coyuntura. Cuando necesitábamos recursos, simplemente hacíamos un llamado abierto a la comunidad y de esa manera logramos sostener una cantidad innumerable de espacios como los que antes mencionaba, además de  la conformación de cooperativas de trabajo, capacitaciones laborales, ollas populares, cine al aire libre y apoyo a compañeras que atravesaran alguna situación de emergencia. Muchas compañeras que militaban en partidos, colectivos o trabajaban en la administración del Estado o la Universidad, dejaban atrás ese espacio de pertenencia cuando de cuidar la autonomía de nuestra organización se trataba, asimismo, se movían miles de hilos para gestionar la resolución de algún conflicto que nos afectara. La única vez que abiertamente todas apoyamos una candidatura fue la de la actual diputada nacional Marisa Uceda, ella era vecina y durante muchos años, antes de ser candidata, entregaba de manera gratuita asistencia jurídica  a las compañeras de la organizaciòn, vecines y clientes de la feria, ella era parte de nuestra organizaciòn y cuando fue nominada candidata fue una inmensa alegría para todas.

De una manera deforme, siempre logramos poner lo mejor de cada una para potenciar nuestro proyecto colectivo… desde persuadir amistosamente a los inspectores que nos enviaban para fiscalizarnos y controlarnos, hasta mover contactos en televisión; siempre logramos revertir los intentos de control y discriminación hacia nosotras. Recuerdo que solíamos concluir que cada vez que nos daban un golpe salíamos más fortalecidas. El orgullo de pertenencia nos movió cada fibra del cuerpo.

Nuestro rechazo hacia la burocratización de nuestro quehacer fue un rasgo distintivo que nos permitió arriesgarnos juntas a hacer las cosas de manera diferente a lo que las tradiciones políticas planteaban, aquí peronistas, anarquistas y evangélicas, niñas, jubiladas, trabajadoras sexuales y adolescentes nos podíamos mirar a los ojos y encontrar un abrazo cálido para hacer frente a nuestras heridas más profundas y sistémicamente comunes.  Las situaciones de violencia de género, por ejemplo, no eran abordadas desde una perspectiva asistencialista, sino que nos conteníamos emocionalmente y dábamos juntas, a un ritmo propio, el difícil paso de decidir cambiar nuestras vidas para salir de la violencia, y la precariedad económica que casi siempre acompañaba la decisión de dejar al agresor. Muchas compañeras a partir de brindar ayuda a otra tomaban conciencia de su propia cárcel, o eran capaces de hablar por primera vez sobre dolores cargados en soledad, muchas decidieron dejar a sus maridos e irse a alquilar juntas  e iniciaron emprendimientos económicos. Se fue armando una batería de herramientas para hacer frente a la violencia que cada vez más profundamente íbamos problematizando. Ver el sufrimiento en la otra, nos animaba a tener más conciencia del autocuidado y no caer en juicios moralistas o protocolos institucionalizantes. 

El compartir y sentirnos en red nos hizo desarrollar otra sensibilidad, muchas pasaron de autodefinirse conservadoras a reconocer que se sentían atraídas sexualmente por mujeres. Experimentamos algo así como una salida colectiva del closet homofóbico y xenofóbico, así que cada feria era una fiesta en que nos disfrazábamos, bailábamos, debatíamos, hacíamos radio abierta, talleres de autodefensa, grupos de estudio y lecturas, deporte y un sinfín de actividades que se nos iban ocurriendo, además de tener un posicionamiento claro frente a la coyuntura política nacional, que bajo el gobierno de Macri estuvo marcada por la desaparición de Santiago Maldonado, el asesinato de Rafael Nahuel y la precarización de la vida. Nos armamos un micromundo que sacaba lo mejor de nosotras para ponerlo a disposición del colectivo, y así mujeres pobres, travestis, jubiladas, putas, artistas, niñes, maricas, indígenas, intelectuales, escritoras, adictas, dueñas de casa, discapacitadas, adolescentes y cuanta variedad se te pueda ocurrir, nos potenciamos mutuamente para habilitar la transformación que cada una buscaba para su propia emancipación. Muy micro políticamente, sin más ambición que alimentar ese pequeño mundo, devenimos en espacio separatista, y es que, si bien nunca fue nuestro objetivo serlo, las relaciones que nos unían no daban lugar para que machistas, adulto centristas, o militantes de la jerarquía y el individualismo pudieran sentirse cómodos, se marginaban ellos mismos, cuando se daba alguna situación de riesgo o conflicto, con solo una mirada cómplice y de sincronicidad automática lográbamos controlar la situación.

Para nosotras era muy importante valorar todo lo que el lenguaje patriarcal invisibilizaba en nuestras vivencias. Durante mucho tiempo desarrollamos un espacio que se llamó la Rebelión de Saberes, ahí  cualquier compañera entregaba sus conocimientos y los ponían a disposición de otras mujeres. Quien sentía orgullo de su receta de pan o creía tener la mejor receta de empanadas  iba y se las enseñaba al resto, otras que estudiaban nos exponían sus investigaciones y tesis, otras enseñaban electricidad, costuras, y así intercambiábamos conocimientos que se iban despojando del ninguneo y devaluación  que constantemente se ejerce desde los discursos hegemónicos sobre nuestros saberes.

El barrio Cano y la feria se fueron transformando en una piedra en el zapato para la policía y las autoridades políticas, veían con desconfianza y molestia el protagonismo cultural y político que se estaba gestando en un sector que para ellos era su bastión electoral conservador. Además como nos asociábamos con muchas organizaciones de promoción y defensa de derechos de manera permanente, nos articulamos para denunciar las malas prácticas en la comisaria y fiscalía que se encuentran al interior del barrio, y prestábamos apoyo y asistencia legal a víctimas de violencia institucional o de género que veían ahí vulnerados sus derechos. Alzabamos la voz frente a los atropellos y hechos de corrupción del gobierno provincial y municipal que llegara a nuestros oídos. La feria ya no solo transmitía a través de su radio un discurso contestatario, radical, y contrahegemónico gracias a la colaboración de diversas agrupaciones y organizaciones en lucha de ámbitos sindicales, feministas, indígenas y medioambientales, sino que además íbamos desplegando toda una serie de iniciativas culturales que  hacían masivo cualquier llamado a la acción frente a alguna coyuntura que consideráramos relevante.

Desde el año 2013 que comenzó la feria, se fue recomponiendo el tejido social y paulatinamente fuimos participando en la gestión del barrio, de esa manera se puso fin a 20 años sin elecciones de Consorcio (asociación de propietarios de las viviendas que componen el barrio ,que tiene como fin la administración y legislación de ese territorio, regulada por la Ley de Propiedad Horizontal). El año 2017 logramos levantar un cuerpo de delegades en todas las torres que componían el barrio de casi 2.700 habitantes. Este paso tuvo un gran impacto no solo para la feria que vio potenciado su quehacer gracias a la acción conjunta, sino que todo el barrio entró en un proceso de restauración del patrimonio histórico y arquitectónico en colaboración con la Universidad Nacional de Cuyo. Profesores, tesistas, investigadores y estudiantes llegaron en gran cantidad para sumarse y la cátedra de patrimonio decidió trabajar todo un semestre exclusivamente ahí, fue un periodo muy lindo, restauramos con trabajos voluntarios la sede del consorcio, expusimos libros de actas, planos y elementos restaurados de la década del 30 y se realizaron muchas investigaciones que coincidieron con la postulación del barrio a  patrimonio arquitectónico nacional. Recuerdo interesantísimos debates sobre si queríamos o no ser patrimonio, fue muy enriquecedor ese proceso con les vecines y se abrieron puntos de fuga para habilitar la autogestión del territorio.

Cuando un grupo de nosotras junto a vecinos del barrio pasamos a ser autoridades barriales amparados en la ley de propiedad horizontal, asumimos el desafío de despatriarcalizar la gestión del territorio. Nos colaboraban muchas organizaciones compañeras y nos inventábamos mecanismo para mediar conflictos entre vecines, incentivar buenas prácticas y así estábamos toda la semana entre reuniones, talleres, actividades para niñes, lanzamientos de libros y festivales musicales nocturnos, la pasábamos estupendo! nos apañabamos en cualquier idea que surgiera. Este fue un periodo de mucha potencia, pero que también nos hizo blanco de muchos enemigos, principalmente la policía, el intendente y grupos militantes pro-vida (antiaborto). En Mendoza hay organizaciones de derecha que solo existen allí, creo que junto a Córdoba deben ser las provincias más conservadoras de Argentina.  Recuerdo que nos acusaban de bailar desnudas en la plaza, de consumir drogas, de ser todas putas, locas, en fin… la verdad es que lo tomábamos con mucho humor, porque estas historias sobre nosotras eran cada vez más descabelladas y delirantes, y en cierta forma nos ayudaron a que más personas que compartían nuestro discurso nos apoyaran y se sumaran a la organización. 

De pronto cualquier actividad que realizábamos era reporteada por las radios de Mendoza, periódicos, televisión y teníamos intelectuales de gran trayectoria realizando lanzamientos de libros y participando de actividades junto a nosotras, visitaron nuestra feria Silvia Rivera Cusicanqui y participaron de interesantísimos debates, normalmente confinados a la academia, Diego Stulwark, Verónica Gago, Luci Cavallero y Horacio Verbitsky. Debatir sobre neoliberalismo, deuda y derechos humanos en un barrio, con cientos de personas que se encuentran completamente excluidas, dota ese intercambio de una implicancia política que para nosotras fue super estimulante y potente. Recuerdo cuando formamos un grupo de lecturas feministas y mientras leíamos el Calibán y la Bruja, y en medio del impacto que generó en nuestras vidas su obra, dijimos: “se imaginan poder charlar alguna vez en persona con Silvia Federici? Sería increíble!” jajaja y al otro año la teníamos en la plaza de nuestro barrio participando de una asamblea feminista junto a casi 600 compañeras! estuvimos horas debatiendo con ella, con preguntas y contrapreguntas, urgando en temas polémicos que dividian al feminismo como el trabajo sexual o la cuestion del Estado y la Iglesia, fue realmente memorable! además permitió enriquecer muchísimo el debate feminista en Mendoza porque fue una increible oportunidad de participar de un dialogo entre muchas compañeras, referentes politicas, intelectuales y organizaciones feministas. Estuvimos desde la hora del almuerzo hasta que nos cayó la noche dando un debate de gran contenido teórico y sobretodo sostenido por la experiencia del cuerpo militante feminista.

Hubo alguna conexión entre su discusión con el feminismo comunitario que se desarrolló en Bolivia?

Creo que todos los debates nos nutren y conectan permitiendo ver las particularidades que de cada contexto van emanando y configurando las prácticas y estrategias que una “comunidad” define para sí misma. Nosotras nunca nos pusimos apellido, ni nos identificamos con un tipo de feminismo en particular, sin embargo el carácter territorial y comunitario de nuestra experiencia nos hacía poner en el centro de nuestros debates la cuestión de la autogestión como una mecanismo que nos permitía esquivar la acción totalizante del Estado que mercantiliza el territorio para ponerlo a disposición del control, la segregación espacial, la extracción de valor de nuestros cuerpos  y la optimización de los flujos de capital. La precarización de nuestras vidas mediante la privatización encubierta de los espacios públicos y la mercantilización absoluta de la naturaleza, son los rasgos predominantes en la gestión estatal del territorio, entonces para nosotras resultaba muy admirable el proceso de las compañeras bolivianas, pero nuestra relación y mirada hacia el Estado era muy diferente, nosotras huíamos del Estado, preferíamos incluso perder la posibilidad de optar a fondos de ayuda económica con tal de no tener que iniciar un trámite de personalidad jurídica o entregar nuestros datos personales a alguna institución gubernamental. Desde la institucionalidad solo vimos despojo y amputación de las posibilidades de autodeterminación y planificación participativa y colectiva del territorio.

 Puede la organización comunitaria de mujeres avanzar de forma más fluida y colectiva que espacios muy machistas y masculinos como el sindicalismo?

 Creo que sin dudas las mujeres y las disidencias podemos fluir mucho más alegremente en espacios comunitarios. Yo apenas regularicé mi situación migratoria en Argentina y comencé a trabajar como docente, inicié mi participación en el sindicato de docentes de escuelas privadas (SADOP) y luego también fui delegada sindical en escuelas públicas (SUTE), la verdad es que me parecieron espacios super violentos, poco creativos, funcionales a intereses poco transparentes y verticalistas, con un nivel de burocratización impresionante. Sinceramente admiro muchísimo a las compañeras feministas que están dando batallas al interior del sindicalismo, me parece que es un espacio fundamental que históricamente nos ha sido negado, según mi experiencia ahí el patriarcado camina a sus anchas y la competencia está completamente naturalizada.

Desde mi experiencia, pude sentir muchísima más libertad y potencia en espacios comunitarios, cuando emprendíamos un nuevo proyecto la premisa pasarla bien, sentirnos cuidadas y queridas.

La organización continúa hoy?

Sí, continúa , y sigue transformándose de acuerdo a las necesidades que van surgiendo. Siempre se asumió que los problemas, hostigamientos y conflictos serían permanentes, porque al estar usando el espacio público somos una cara visible para hacer llegar cualquier queja, por más descabellada que esta sea,  así que sin miedo a equivocarse, se prueba una estrategia organizativa, para luego retroceder o avanzar según la evaluación de la coyuntura. El espacio del Consorcio de dejamos, debido a que varias fuimos agredidas físicamente por parte de grupos militantes pro-vida y el hostigamiento de la policía puso en riesgo nuestra vida y la de nuestros hijos. Pero la organización continúa y las actividades siguen siendo muy diversas.

Hay experiencias como esta en toda Argentina?

Hemos participado de varios encuentros sobre ciudad, feminismo y territorio y conocimos muchas experiencias feministas de carácter comunitario y territorial, ninguna igual a la otra y tanto urbanas como rurales. Gracias a estos encuentros se colectivizan  saberes y estrategias, se abren debates y se tienden redes de apoyo mutuo. Además se van gestando distintos espacios que conectan y visibilizan luchas.

Cómo está la organización hoy con la pandemia?

Las actividades están suspendidas debido a la pandemia, sin embargo las redes de apoyo mutuo siguen articuladas y las ventas por internet están activas

Cómo ha evolucionado la relación con el feminismo y el Estado en los últimos años?

En Argentina el único sector que salió a la calle masivamente durante el macrismo fue el feminismo y el movimiento de derechos humanos. Ni los sindicatos, ni nadie se plantó con determinación ante los desastres que hizo Macri durante su mandato.Gracias a la lucha feminista se ha construido y masificado una linea argumentativa muy sólida y pedagógica para visibilizar cómo opera el patriarcado en la precarizaciòn de la vida y las esferas economicas que entrejen nuestra obediencia al capital. Existe un poder de copamiento de la calle que es muy importante, pero tengo la sensación que esa misma calle feminista tiende a una institucionalización permanente de demandas.  El presidente Alberto Fernández incluso dijo en cadena nacional que “Argentina iba a salir de default, de la pandemia Y DEL PATRIARCADO”, la verdad es que me sorprendió muchísimo tal grandilocuente aseveración. Creo que el trauma de la gestión macrista, saca de escena ciertos debates que creíamos ya obvios, estos dichos no fueron ni cuestionados por sectores del feminismo que tienen la tribuna suficiente para salir a poner en cuestión tal aseveración, eso me pareció, cómo decirlo, miedo a polemizar con quien ha prometido ser aliado?

En este momento tiendo a pensar que durante el gobierno de Alberto, el feminismo que llena calles de glitter e instala debates nacionales, estará en una posición mucho menos contestataria. A veces, me gusta ver el feminismo como una llave o una ventana: nos permite por un lado ampliar nuestros horizontes libertarios más allá de las categorías que nos han ofrecido las izquierdas y las tradiciones de pensamiento europeas y coloniales, y además borra márgenes dibujados por el patriarcado, logra conectar luchas muy rápidamente en una sintonìa completamente diferente,se legitima otro lenguaje y quehacer político… así que, a pesar de los tiempos legislativos y políticos del gobierno, siempre se va ampliando la mirada, y Argentina es un lugar donde permanentemente se están formando núcleos de pensamiento crítico con gran capacidad de difusión. Espero ansiosa, la pronta legalización del aborto libre, seguro, legal y gratuito, así como que sea normada y aplicada en todas las provincias la actual ley de cupo laboral trans-travesti para el sector de la administración pública nacional, y tantas otras leyes que no hacen más que hacerse cargo mínimamente  de las violaciones flagrantes a los derechos humanos más elementales. Sin embargo creo que la delegación permanente en el Estado de las aspiraciones de igualdad y el carácter altamente punitivista de su sociedad, fortalecen las jerarquías y por lo tanto el lugar subalterno de lo femenino y la creciente violencia machista, y me refiero tanto a la  organizada, como la del naciente grupo Patriarcado Unido Argentino, como la que opera al interior de nuestros hogares y barrios gracias a alianzas conservadoras entre grupos militantes antiaborto y las policias. Estas alianzas invisibles operan bajo la misma lógica que el narco: poder de muerte e impunidad asegurada. La negativa sistemática de las policías a acoger las denuncias de víctimas de violencia machista, así como la impunidad que sostiene la extrema violencia con la que actùan las derechas patoteras  civiles, son en parte gracias a esa alianza invisible que se nutre de la comulgaciòn religiosa  y la redes de abogados del opus dei, evangélicos, ex funcionarios de las fuerzas armadas, policías, fiscales y jueces.   

Ahora que me encuentro nuevamente en Chile, he podido observar algunos datos, como por ejemplo que en Chile durante el periodo enero – junio del 2020, c/1 millón de hab.se registraron 1,2 femicidios, y en Argentina para el mismo periodo, c/1 millón de hab.se registraron 4,8 femicidios! esto según datos relevados por las organizaciones feministas: Red Chilena Contra Violencia Hacia Las Mujeres y El Observatorio Ahora Que Si Nos Ven de Argentina. Cuando revisamos los datos de los últimos 10 años, podemos ver que se mantiene la misma tendencia. Creo que es muy importante pensar el porqué si bien Argentina cuenta con una legislación de avanzada respecto de políticas que promuevan la igualdad de género y la inclusión, esto no reduce ni un solo poco los femicidios ni otras expresiones de violencia machista, y por tanto tampoco el lugar subalterno que ocupamos las mujeres en la sociedad y la familia, y ni qué decir la altìsima tasa de travesticidios! que refleja el fascismo más puro y duro. La verdad, creo que es urgente abrir la pregunta respecto de cómo desmantelar las violencias machistas en los espacios más íntimos y detener estos crímenes que nos condenan a vivir con miedo o en alerta permanente. Básicamente nuestro habitar está atravesado por el miedo o por el entrenamiento físico para repeler un ataque, pero a sabiendas de que si lastimamos a nuestro agresor, lo más probable es que terminemos nosotras presas. De esto ya tenemos una amplia experiencia, al Estado le encanta  aleccionar nuestros cuerpos cuando nos atrevemos a hacer uso de la violencia para defender nuestra autonomía.. 

Creo que la baja cantidad de femicidios que hay en Chile en comparación a los de Argentina, tiene relación con la legitimidad simbólica que tiene el Estado. En Chile en febrero de este año se dio a conocer el Estudio Nacional de Transparencia y Protección de Datos Personales, del Consejo para la Transparencia, éste revelaba que sólo 23% de las personas  confían en el Estado, que un 84% lo considera distante, y un 76%, maltratador. Acá lo normal es desconfiar del Estado! y eso está muy arraigado en el análisis político que hace cualquier persona, y que desde octubre ha cobrado problematizaciòn en los debates asamblearios que se abrieron en todos los territorios.(2)

(2) https://ciperchile.cl/2020/02/14/yo-me-organizo-en-la-plaza-las-cientos-de-asambleas-que-surgieron-tras-el-estallido-social/

Otro elemento revelador es la baja participación en las elecciones. En las últimas elecciones municipales desarrolladas en Chile, según datos del Servicio Nacional Electoral, la participación promedio de las comunas más precarizadas alcanzaba apenas el 20% del padrón electoral, llegando algunas incluso al 17%. Comunas emblematicamente estigmatizados por la pobreza como El  Bosque, La Granja, La Pintana o Puente Alto son las que menos participan en las elecciones. Sin embargo, este dato no debe ser confundido con apatía o despolitización, ya que como ha quedado demostrado desde iniciada la Revuelta de octubre, es desde estos sectores de donde provienen la mayoría de que quienes constituyen hoy la Primera Línea, y allí viven la gran mayoría de las presas y presos políticos que hoy suman más de 2500 personas en las cárceles chilenas. Desde estas comunas provenían además gran parte de las víctimas de trauma ocular y las y los asesinados a manos de la represión estatal durante las manifestaciones . A mi parecer este dato es revelador para comprender el riesgo que tenemos de morir a manos de un femicida en un territorio donde se pretende desmantelar la violencia machista a partir de las políticas públicas, sin asumir la matriz colonial y patriarcal del Estado y asumir una actitud de obediencia a cambio de protección. Creo que tenemos un enorme desafío para pensar cómo construimos las transformaciones estructurales de nuestra sociedad, no solo a través de los cambios legislativos, sino a un costado,  a espaldas y a pesar del Estado. En Chile, tal vez, al no haber registro en la memoria colectiva de un Estado que te proteja o ayude, existe una mirada menos maquillada sobre él. Además las densas redes de solidaridad y apoyo mutuo que se han entretejido producto de la indiferencia estatal hacia la protección de la vida, colocan a la mujer en un lugar de reconocimiento y prestigio social en las organizaciones barriales como las ollas comunes, juntas de vecinos y otras de carácter territorial. Esto se pudo observar claramente durante la últimas catástrofes sísmicas, tsunamis y la actual pandemia. La olla comùn es un lugar de prestigio político en un espacio público históricamente femenino y Chile come de una olla comùn hace 200 años, aunque suele olvidarlo. En Chile existe una fuerte tradición de lucha que ve con desconfianza jerarquías y caudillismos y en general estructuras verticales de representación, y en esta misma sintonía creo que circula el protagonismo simbolismo que cobró la bandera y causa mapuche desde iniciada la Revuelta en octubre del 2019 por las generaciones en lucha más jóvenes, es decir, quienes saltaron el torniquete, estudiantes de entre 12 y 16 años que tienen el cuerpo el mayo feminista del 2018 y que sienten certeza de que no hay futuro posible bajo este régimen (3). Elles niegan aún con mayor radicalidad y conciencia las ficciones políticas que nos mantienen atados a la delegación y a la obediencia, eso es muy esperanzador en términos de la configuración de una nueva ética polìtica que nos permita hacer frente a la avanzada represiva del Estado chileno y a pensar otras estrategias posibles para abrir fisuras al sistema e ir imaginando y construyendo los cambios estructurales que necesitamos para revertir la violencia, la precariedad y la acciòn totalizante de la subjetividad capitalista, neoliberal y colonial.

(3) http://lobosuelto.com/emancipacion-calle-aliciamaldonado-chile/

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