28 anos do massacre do Carandiru: álbum da luta por memória e justiça

Apresentamos aqui um álbum com fotos, vídeos e alguns links da luta por justiça e memória pelo massacre do Carandiru que diversos movimentos sociais tem pautado com manifestações na data do massacre, em 02 de Outubro.  Essa é uma pesquisa feita por militantes com a intenção de resgatar a memória dessa luta, visando sobretudo trazer informações sobre esse processo para os novos militantes que estão começando a se interessar pelas lutas abolicionistas penais, assim como para nos ajudar a olhar para o passado para refletir sobre os dilemas táticos e organizativos em que estamos envolvidos nessa luta hoje. 

Essa não é uma pesquisa exaustiva sobre a história das mobilizações em torno do massacre do Carandiru, sabemos que ela deixa lacunas importantes, escolhemos não tratar sobre os processos e posicionamentos institucionais sobre o tema mas nos focar exclusivamente nas mobilizações de rua e vídeos ou registro de debates públicos envolvidos em perspectivas de mobilização com pretensão de ajudar a organizar o movimento para essa luta.  Se alguém tiver informações que faltam aqui sobre mobilizações de anos anteriores ficaríamos muito felizes se entrasse em contato conosco. As imagens que listamos foram obtidas com pesquisas na internet, são imagens que já haviam sido divulgadas anteriormente, todas elas foram encontradas em páginas online das próprias organizações envolvidas ou em sites de notícias jornalísticas.

Não encontramos notícias de mobilizações em torno do massacre do Carandiru na época em que ele ocorreu, também não sabemos sobre mobilizações que possam ter ocorrido na década de 90. A primeira mobilização que encontramos notícia de ato 02 de Outubro pautando o massacre do Carandiru é de 2002 quando houve um ato de rua e outras atividades públicas reivindicando justiça nos 10 anos do massacre

O ciclo dessa luta que temos notícias começa em 2011, com uma mobilização em 02 de outubro convocada por diversas organizações como as Mães de Maio e representantes da Igreja Católica, essa mobilização deu origem a Rede 02 de Outubro que existiu de 2011 até 2016 (aqui blog e site da Rede 02 de Outubro), que realizava atividades de educação popular e ação direta pautando o fim das prisões e a luta contra a violência do Estado, essa articulação convocou atos 02 de Outubro durante todo o seu período de existência. Ao encerrar suas atividades os seus membros anunciaram a fundação do coletivo autônomo Herzer. Que direciona suas atividades para a luta contra o encarceramento juvenil, o coletivo teve um ciclo bastante intenso de atividades em 2017. 

Em outubro em 2018, foi lançada a Frente Estadual Pelo Desencarceramento de São Paulo (FED-SP), seu lançamento também pautou a luta por justiça e memória ao massacre do Carandiru. E em 2019 a FED-SP que convocou o ato de 02 de Outubro, tendo realizado também atividades de debate na periferia e panfletagens junto aos familiares de presos.

Em 2020 a FED-SP esta convocando um ato online por causa da restrições impostas pela pandemia, tendo lançado um vídeo de convocação com cenas de diversos atos de familiares ou de vítimas da violência policial que ocorreram nos últimos meses. Também há um ato sendo convocado pelas redes sociais marcado para acontecer no parque Carandiru em 02 de Outubro, não temos informações precisas sobre a organização deste ato mas sabemos que ele conta com significativo respaldo de familiares de presos. A pandemia tem provocado um intenso acirramento das lutas em torno do cárcere internacionalmente, no Brasil ocorreram até agora uma longa série de atos e rebeliões em presídios em diferentes estados. De forma que o momento atual se apresenta como uma inflexão nos movimentos em torno do cárcere. A Agenda Nacional Pelo Desencarceramento e as Frentes Estaduais Pelo Desencarceramento tem sido os principais canais a divulgar as lutas dos presos e seus familiares por condições de saúde na pandemia, por desencarceramento, contra tortura e outras de suas pautas especificas. O momento da pandemia tem dividido as organizações em apoiar ou não a demanda por retorno das visitas.

Breve reflexão sobre as mobilizações de 02 de Outubro em São Paulo no período de 2011 a 2020:

Olhando as convocações dos atos de 02 de outubro de 2011 para cá, vemos uma grande variedade de organizações assinando suas convocatórias, com uma marcada descontinuidade dos grupos envolvidos em diferentes anos. Aparentemente, os três setores a se manterem mais constantes nessa mobilização foram organizações ligadas a Igreja Católica, coletivos autonomistas/anarquistas e movimentos de familiares de vitimas da violência do Estado ou de presos. As Mães de Maio e a Rede 02 de Outubro se impõem como duas das grandes referências nessa construção. Além desses atores, também esteve bastante presente a participação de setores do movimento negro, movimentos de moradores em situação de rua, movimentos por moradia, movimentos estudantis e ONGs que atuam com direitos humanos.

Também é marcante notar como boa parte das organizações que assinam as convocatórios de anos anteriores já não existem mais hoje, e como vários coletivos que existem hoje atuando nesta pauta não existiam a poucos anos atrás. Essa dinâmica de rápidas mudanças organizativas aparece como um fenômeno de geração desse período, o que permitiu a esse processo muitos elementos de experimentação, no sentido de não estar fortemente preso a um formato ou forma organizativa especifica. Apesar de essa dinâmica trazer a sensação de que muitas das pessoas que atuam durante esse processo sejam as mesmas só mudando os nomes de suas organizações, isso também não parece ser verdade pois de fato houve grandes mudanças no quadro de ativistas envolvidos.

A principal pauta do 02 de Outubro no período foi por memória e justiça pelo Massacre do Carandiru, colocada junto com o horizonte abolicionista penal de fim das prisões, porém a cada ano o ato e as atividades em torno dele pautaram diversas outras situações conforme a conjuntura. Pautas como o fim da violência policial contra as manifestações, a desmilitarização das polícias, por memória as chacinas ocorridas na periferia, contra a redução da maioridade penal, justiça pelos crimes de maio de 2006, pelo fim das revistas vexatórias, em solidariedade a luta das mães dos 43 jovens desaparecidos em Ayotzinapa no México, entre outras, também estiveram presentes congregando coletivos diversos que incorporaram suas pautas.

A reivindicação por justiça e pelo fim do sistema prisional podemos dizer que não só não obteve conquistas concretas como tem sido marcada por constantes retrocessos, havendo uma crescente ininterrupta do encarceramento em massa e a continuidade dos massacres no cárcere no Brasil de 2011 a 2019, também houveram poucas conquistas em relação as condições desumanas do cárcere. Porém, podemos dizer que houve um avanço significativo no que diz respeito a popularidade da proposta abolicionista penal no Brasil. Se a proposta de desencarceramento ou fim das prisões soava completamente delirante e fora da realidade em 2011, em 2019 esse tema já é levado muito mais a sério, estando presente inclusive em falas de representantes do judiciário e de políticos. Também podemos ver um crescimento desse debate, menor do que o desejável mas inegável, dentro das universidades, do movimento feminista, do movimento negro e dos movimentos sociais, apesar do tema ainda ser negligenciado pela maioria da esquerda. A Agenda Nacional pelo Desencarceramento e as Frentes Estaduais pelo desencarceramento parecem apontar para um avanço organizativo concreto em torno dessa luta nos últimos anos. 

Portanto, acredito que podemos dizer que as mobilizações em torno do 02 de Outubro tiveram um papel muito importante no sentido de fomentar o debate, fortalecer e articular as organizações que atuam na luta contra o cárcere no Brasil. Tendo cumprido um papel organizativo e propagandístico de grande valor.

Precisamos fortalecer ainda mais essa luta contra a violência do Estado, e continuar fortalecendo as mobilizações por memória. Que 02 de Outubro fique marcado na história como dia de mobilizações em memória dos nossos mortos e contra o Estado, como parte da construção de um mundo onde as prisões estejam abolidas e sejam apenas uma lembrança dos horrores de um passado longínquo.

Imagens da mobilização por memória e justiça pelo Massacre do Carandiru em 2011:

Imagens da mobilização em 2012, panfleto de convocação e um curta metragem sobre a situação carcerária muito qualitativo realizado pela Rede 02 de Outubro:

Integrantes da Rede 2 de Outubro realizam ato ecumênico na Catedral da Sé para lembrar massacre

Imagens da mobilização em 02 de Outubro de 2013, aqui há uma nota da Rede deste ano.

Essa é uma foto na Avenida Paulista pautando o massacre do Carandiru no contexto das grandes manifestações de junho de 2013

Fotos da mobilização do 02 de Outubro de 2014:

SÃO PAULO, SP – 02.10.2014: PROTESTO-SP – Cerca de 200 pessoas comparecem à praça da Luz, no centro da capital paulista, para o ato“Nossos Mortos tem Voz” em lembrança aos 22 anos do massacre do Carandiru, nesta quinta-feira. A manifestação segue em cortejo pelo centro de cidade. (Foto: Fernando Nascimento/Fotoarena/Folhapress)
SÃO PAULO,SP,02.10.2014:PROTESTO-MASSACRE-CARANDIRU – Ato contra o massacre no Carandiru no centro de São Paulo (SP), nesta quinta-feira (02), durante o 22º aniversário da morte de presos por policiais militares. (Foto: Alice Vergueiro/Futura Press/Folhapress)

Imagens da mobilização de 02 de Outubro de 2015 (mais noticias aqui):

Imagens da Mobilização de 02 de Outubro de 2016:

São Paulo – Ato organizado por movimentos sociais e vítimas da violência do estado lembra os 24 anos do massacre de 111 presos no Carandiru (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Em 2017 não houve manifestação de rua, mas ainda foram realizadas atividades importante no sentido de pautar a luta por memória e justiça, foi realizado o Seminário 25 anos do Massacre do Carandiru, pela PUC-SP e Coordenação Pastoral do Serviço da Caridade, Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo com a participação de figuras fundamentais nessa luta como o Padre Julio Lanceloti e as Mães de Maio. Também em memória dos 25 anos do Massacre do Carandiru, a agência Pavio e o Brasil de Fato publicam em 02/10 a série “Terra das Chacinas”, com três vídeo-reportagens: “Exceção Permanente”, “2 de Outubro” e “Inimigo Interno”. Vídeos que teriam uma boa repercussão chegando a ser utilizado em atividades sobre racismo, genocídio e cárcere em debates organizados em cursinhos e em periferias.

Terra das chacinas: Exceção permanente.

2 de Outubro:

Inimigo Interno:

Vídeo do primeiro dia de seminário:

Segundo dia de Seminário:

No ano de 2018 também não foi realizado manifestação de rua, mas houve em outubro também marcando a luta por justiça pelo massacre do Carandiru a atividade de lançamento da Frente Estadual Pelo Desencarceramento de São Paulo (leia aqui o manifesto de fundação), a atividade contou com a fala de representantes de diversas organizações e show do grupo Comunidade Carcerária, tendo sido realizada na ocupação da tenda do Viaduto Alcântara Machado. A frente tem sido um espaço importante no fortalecimento do debate e da luta abolicionista penal.

Fotos da mobilização do 02 de Outubro de 2019:

Movimentos sociais realizam protesto para lembrar do massacre do Carandiru ocorrido no ano de 1992 pela PM paulista. Data: 02/10/2019. Local: São Paulo. Foto: Sérgio Silva.
Movimentos sociais realizam protesto para lembrar do massacre do Carandiru ocorrido no ano de 1992 pela PM paulista. Data: 02/10/2019. Local: São Paulo. Foto: Sérgio Silva.
Movimentos sociais realizam protesto para lembrar do massacre do Carandiru ocorrido no ano de 1992 pela PM paulista. Data: 02/10/2019. Local: São Paulo. Foto: Sérgio Silva.
Movimentos sociais realizam protesto para lembrar do massacre do Carandiru ocorrido no ano de 1992 pela PM paulista. Data: 02/10/2019. Local: São Paulo. Foto: Sérgio Silva.
Movimentos sociais realizam protesto para lembrar do massacre do Carandiru ocorrido no ano de 1992 pela PM paulista. Data: 02/10/2019. Local: São Paulo. Foto: Sérgio Silva.

Em 2020 esta marcado um ato online da Frente Estadual pelo Desencarceramento de SP e outro no parque Carandiru:

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