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21 nov 2025

TRANSTORNOS MENTAIS “TRATADOS” À BALA: ASSASSINATOS DE “INDÍGENAS EM SURTO” PELA POLÍCIA MILITAR DO MATO GROSSO DO SUL

Maria Ignacia Montero

21 de novembro de 2025

Alexandre Claro (27 anos), Rodrigo Gonçalves (29 anos) e Junior Severino (25 anos) são três jovens indígenas pertencentes aos povos Guarani e Kaiowá de Mato Grosso do Sul (MS) que possuem a vida (e morte, no caso dos dois últimos) marcadas e interrompidas pela ação da Polícia Militar do Mato Grosso do Sul (PMMS) em ocasiões de supostos “surtos”.

O primeiro caso, de Alexandre, ocorreu no ano de 2017, na cidade de Caarapó. As narrativas midiáticas informam que, no dia 05 de janeiro, a PMMS foi acionada com o intuito de “conter um surto de Alexandre, que teria apresentado comportamento violento, atacando pessoas no centro da cidade, viaturas da polícia e os policiais, com um ‘tacape’ – pedaço de madeira”. O método utilizado para a contenção foram dois tiros “projetados por uma arma calibre .[ponto]40 -, um na perna e outro na região do quadril”, ocasionando a necessidade de intervenção cirúrgica em Alexandre para evitar um desfecho ainda mais trágico de morte.

O próprio delegado da cidade responsável pela diligência afirmou à mídia ter obtido informações da população local, não indígena, de que Alexandre “não é alguém violento”, sendo uma “pessoa tranquila, mas que ontem estava mesmo muito agressivo” e que “toma umas medicações controladas”. Apesar disso, o delegado declara também que “os policiais não sabiam, quando foram atender a ocorrência, de que se tratava de um índio e não tinham conhecimento sobre os supostos transtornos mentais sofridos por Alexandre”, e que “os policiais mesmo quando chegaram não tinham conhecimento de que ele tinha algum problema, algum eventual problema mental, essa informação era inexistente pros policiais. Eles fizeram primeiro um disparo de advertência, essa pessoa [Alexandre] continou (sic) com as agressões e um dos policiais efetuou os dois disparos pra tentar contê-lo”.

Mesmo nessas circunstâncias, o chefe da Polícia informou que “Alexandre foi preso em flagrante e pode até ser indiciado por tentativa de homicídio, pela agressão aos policiais militares”. O indiciamento de Alexandre, que de fato aconteceu, estaria calcado na compreensão de ele “danificou uma viatura da polícia militar, acertou golpes de tacape na viatura e isso é enquadrado como dano qualificado ao patrimônio público. Nós ainda tínhamos a desobediência, a resistência, e ele foi fichado também por tentativa de homicídio, autuado em flagrante por tentativa de homicídio contra o policial militar”.

Enquanto que, ao ser questionado sobre a ação policial, declarou que “não descarta a possibilidade de ‘excesso’ na tentativa dos policiais de controlar Alexandre”, tendo sido “instaurado o inquérito” e que “não pode discorrer sobre os procedimentos adotados pelo comando da polícia militar”, e que o mesmo serviria para avaliar “se foi proporcional ou não a ação da polícia militar”. Mesmo tendo sido alvejado com dois tiros e apresentar quadro diagnóstico de esquizofrenia, Alexandre Claro ficou encarcerado por 6 meses na Penitenciária Estadual de Dourados (PED), sendo revitimizado com violências por parte de policiais e outros encarcerados1.

Rodrigo Gonçalves, então morador da Reserva Indígena Jaguapiru, localizada na cidade de Dourados, com distância de 53 km de Caarapó, foi alvejado e morto pela PMMS no dia 23 de dezembro de 2024, às vésperas das celebrações de Natal. Diferente do caso anterior, Rodrigo foi interpelado em sua residência no território indígena. Outra distinção é que a ação fatal protagonizada pela Polícia ocorreu a partir do acionamento realizado pela equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), que havia sido solicitada para prestar o atendimento em saúde para o jovem que supostamente estava em suposto “surto psicótico”.

A narrativa difundida pela maioria das mídias (quase a totalidade), que é a reprodução do discurso da PMMS, inclusive da nota oficial da corporação na íntegra, alega que “uma equipe foi acionada via 190, para dar apoio a uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência SAMU, que atendia um paciente que estaria em ‘Surto Psicótico’ na Aldeia Jaguapiru Dourados/MS” e que ao chegarem “foram recebidos de forma hostil” por Rodrigo, que, segundo as mídias, ameaçava as equipes com um martelo e um machado, o que teria sido a justificativa para a utilização dos “meios necessários para fazer cessar a agressão, com o indivíduo sendo imobilizado [leia-se, alvejado] e conduzido imediatamente ao Hospital da Vida, onde recebeu atendimentos médicos de urgência”.

É curioso, ao mesmo tempo que compreensível pelo alinhamento ideológico entre as mídias e a Polícia, que o discurso veiculado traz caracterizações de que o jovem indígena estava “armado com um machado (…) colocando todos em risco” e que diante da situação os policiais “acabaram baleando o indígena” que por sua vez “acabou morrendo”.

Essa narrativa fatalística caminha na direção de justificar um acontecimento circunstancial e inevitável por parte da ação policial, que se contrasta com a sistemática violência exercida contra os povos indígenas no Brasil, especialmente no estado de Mato Grosso do Sul, expressa na própria relação entre os casos aqui apresentados em que as vítimas nas ocorrências são única e exclusivamente os indígenas, tendo dois dos três jovens a vida ceifada pela atuação da Polícia. Ainda, no caso de Rodrigo, esse contraste se evidencia na redação da única mídia vinculado a um partido político, que descreve o caso, ao mencionar o contato com a família do jovem, da seguinte forma: “Doze policiais militares executaram com pelo menos dez tiros o índio que estava em surto dentro da sua própria residência, sendo um tiro na fatal na cabeça”.

Em condições muito parecidas e com o mesmo desfecho fatal de Rodrigo, o jovem Junior Severino, morador da Aldeia Panambizinho, foi assassinado pela PMMS no dia 16 de outubro deste ano (2025). Assim como no caso anterior, a intervenção da Polícia ocorreu a partir do acionamento alheio à solicitação da família, que havia demando um atendimento de saúde, mas que receberam a ação militar da Polícia. A narrativa midiática afirma que “Junior apresentava um surto psicótico e familiares acionaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) Indígena para prestar socorro” e que “Ao chegar ao local, os policiais também teriam sido atacados por Junior, momento em que um dos agentes efetuou um disparo”.

Esse discurso é contestado pela família de Junior em entrevista concedida ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e divulgada no site da organização. A mãe de Junior, a liderança Fineida Neusa Aquino Concianza, informou que teria ido “conversar com o pessoal do postinho [Unidade Básica de Saúde Indígena] para saber como ele seria medicado, tomar banho, cortar o cabelo. Então chamaram o Samu, mas eu até agora não entendi a razão”. Diferente do que foi veiculado pela maioria das mídias, Fineida afirma que Junior não estava em surto e sim que teria se agitado ao ver a viatura do Samu, tendo reagido com “medo, se tremendo todo”. Na avaliação da mãe, essa reação teria assustado os profissionais do Samu, que “foram embora. Na sequência, a Polícia Militar foi acionada”.

Fineida descreve a ação violenta da PMMS que matou o filho na sua frente e de seu marido: “A polícia chegou perto da (árvore de) manga, e não veio falar comigo ou o pai dele. Nem falou, polícia. Desceu correndo (policiais) e veio para cima do meu filho, na árvore (mangueira). Quando começou a jogar cacetada, deram um tiro no meio da barriga dele. Segundo que atirou, e ele (o jovem indígena) correndo ao redor da árvore. Quando cheguei perto, ouvi outro tiro e fiquei afastado. Se eu chegasse perto do meu filho, ia acertar bala em mim. Acertou bem no ombro dele, caiu bem aqui, nos meus pés, sem vida”.

Como no caso de Rodrigo, o contraste entre a descrição da PMMS e da família é radicalmente diferente. Sobre o assassinato de Junior, “a Polícia Militar de Mato Grosso do Sul informou que foi acionada para garantir a segurança dos socorristas que atendiam o homem. O rapaz apresentava um quadro compatível com esquizofrenia e necessitava de atendimento urgente. Os policiais tentaram, inicialmente, acalmar o rapaz por meio de abordagem verbal, mas ele se recusou a obedecer (…) o policial disparou para tentar neutralizar”. Cabe destacar que, para além da condição de possível desorganização psíquica dos sujeitos indígenas nesses acontecimentos, os mesmos pertencem a um grupo étnico específico, sendo falantes de um idioma diferente do português, o que potencializa as barreiras da suposta “abordagem verbal” para além da condição de crise, que deveriam ser combinadas com outras formas de interpelação, idealmente de forma não militarizada e perpassada pela linguagem do cuidado e atenção à saúde, e não da violência e uso de arma de fogo.

A mãe de Junior afirma em desabafo: “Eu vou cobrar, não vou deixar barato. Por que tiraram a vida do meu filho assim? Ele é jovem ainda. Eu pedi pra salvar a vida dele. Ele tem a questão da saúde mental, é verdade, mas não é um bicho pra matar desse jeito […] Vou cobrar porque também não quero que aconteça com outros. Não podem nos tratar feito animais”.

ASSUNTO DE SAÚDE MENTAL OU VIOLÊNCIA POLICIAL? PONTOS EM COMUM ENTRE AS AÇÕES E ASSASSINATOS

Os três casos apresentados compõem a expressão de um contexto mais amplo e antigo da relação histórica do Estado, enquanto parte do sistema colonial, com os povos originários desse território nomeado colonialmente como Brasil. A estruturação desse sistema tem como uma de suas bases a negação da humanidade dos povos indígenas e negros, podendo ser compreendida também como “desumanização sistemática” dos povos colonizados, tal como recuperado por Rachel Gouveia Passos (2025).

Esse contexto instituído por múltiplas dimensões (histórica, econômica, social, político, ideológica, dentre outros) é o chão comum entre as experiências vividas por Alexandre, Rodrigo e Junior. O pertencimento étnico aos povos Guarani e Kaiowá também é uma determinação racial comum entre eles, assim como a condição etária de serem jovens com idades próximas (25, 27 e 29 anos). Outro marcador comum são os possíveis quadros de sofrimento psíquico, descrito pelas mídias por diferentes termos: “problema psiquiátrico”, “transtornos mentais”, “problema mental”, dentre outros, mas todos definidos como “surtos” e “tratados” com a intervenção policial violenta e militarizada.

Essa questão, a violência policial extrema, é o eixo central que motiva essa escrita. É a indignação e a revolta com o uso da violência policial em casos que deveriam – no máximo – serem tratadas no âmbito da atenção e assistência em saúde, pois, essa é a pactuação social, política e institucional conquistada pelas mobilizações de usuários, trabalhadoras(es) e familiares organizados nos movimentos da Luta Antimanicomial e Reforma Psiquiátrica na reivindicação do cuidado às pessoas em sofrimento, quando das críticas e rupturas (ainda em processo) com os modelos e instituições asilares-manicomiais.

Nesse sentido, é preciso fazer algumas perguntas-denúncias: por que e para quê a participação da Polícia Militar no atendimento dos indígenas em sofrimento? E a utilização de arma de fogo e os múltiplos disparos como forma de contenção? Por que as equipes de saúde não conseguem acolher e atender as demandas? Por que as equipes do Samu solicitam o acompanhamento da PM, mesmo de forma desnecessária pelo fato dos sujeitos não apresentarem nenhum risco, como no caso de Junior? As representações visuais e simbólicas das viaturas do Samu e da Polícia são a melhor forma de se atender os indígenas em supostas crises? Qual a necessidade de efetuar disparos de arma de fogo contra uma pessoa com um “tacape” (Alexandre Claro) ou totalmente desarmada (Junior), estando ela em “surto” ou não, sendo ela indígena ou não?

A desproporcionalidade da força e o “despreparo” (que também pode ser lido como expressão do ódio constituído pela ideologia colonial) é justificada descaradamente pela ampla maioria das mídias que descrevem de forma superficial e parcial os acontecimentos. Essa justificação é ideologicamente promovida nas definições de “surto psicóticos”, “problema psiquiátrico”, “descontrolado”, “armado”, “surto na aldeia”, “risco”, “agressivo”, e até “tipificação da ocorrência”.

Esses termos acionam representações relacionadas à periculosidade das pessoas em sofrimento (o medo dos loucos), que ambígua e contraditoriamente precisam ser contidas por meio da violência. E o mais contraditório, ou mais coerente com o pacto racista-colonial-capitalista, é que em todos os casos descritos as únicas pessoas lesadas, feridas e assassinadas são os sujeitos em sofrimento e suas famílias, marcadamente indígenas e pobres, enquanto que os supostos e imagináveis danos causados por estes são, quando há, em bens materiais, como viaturas e carros, sem nenhum agravo contra as pessoas e a vida deles próprios ou de terceiros.

Deve ser questionado o fato de que as mídias que justificam a violência policial se valem exclusivamente pelo discurso da Polícia Militar, se furtando da obrigação ética da imparcialidade que nestes casos consistiria na escuta e acolhimento das narrativas das pessoas indígenas (parentes e comunidades). Por essa atuação, é possível refletir a participação dos veículos midiáticos no encobrimento das violências e violações do Estado, de forma partícipe na formação, reprodução e cumplicidade com as noções ideológicas e práticas que efetivam a desumanização e morte da juventude indígena.

Em contraponto, as duas mídias populares (partidária e indigenista) que exercitam a escuta das famílias vitimadas permitem o acesso à narrativas radicalmente distintas daquelas expressas pelo discurso do poder policial-midiático, que ao serem comparados parecem tratar-se de acontecimentos e experiências completamente diferentes, como se não falassem das mesmas experiências. Essa aparente contradição pode ser compreendida pelo que Franz Fanon, ao analisar o contexto colonial, define como a cisão da realidade vivenciada pelos colonizados e colonizadores habitando um mesmo território.

O Mato Grosso do Sul foi o terceiro estado brasileiro com maior número de indígenas assassinados em contexto de conflito no ano de 2024, conforme mapeado pelo Cimi, estando a PMMS como uma das protagonistas desses crimes, como nos casos dos jovens Vitor Fernandes, no território de Guapoy Mirin (cidade de Amambai), em 2022, e de Neri Ramos, no território de Ñanderu Marangatu (Antônio João), em 2024. É inadmissível que a Polícia, com ordem e permissão do Estado, siga executando brutal e impunemente os povos originários dessas terras, principalmente os jovens, sejam eles/as pessoas com algum tipo de agravo em saúde ou que estão em luta por seus territórios.

Casos como o de Alexandre, Rodrigo, Junior, Vitor, Neri, e tantos outros, que por vezes não são nem nominados, não devem existir, muito menos se repetir. Precisamos coletivamente ser intolerantes à injustiça e a brutalidade contra os povos indígenas, ou seguiremos fadados a uma (des)humanidade da barbárie e do extermínio enquanto política e economia da (não) existência. Para isso, é preciso questionar os procedimentos e as ações do Estado diante da realidade e demanda dos Guarani e Kaiowá, principalmente no uso da repressão policial como protocolo, seja nas reivindicações territoriais ou atendimentos em saúde. É necessário compreender que todo esse cenário está associado aos conflitos pela terra que marcam a formação social brasileira, que no Mato Grosso do Sul é constituída pelo histórico de invasão e expropriação territorial das terras originariamente ocupada pelos indígenas, e pelos interesses econômicos e políticos do agronegócio na perpetuação dessa expropriação e exploração, que é consentida, legitimada e assegurada pelo Estado que age na contramão do seu dever constitucional de garantia do direito à terra, a vida e dignidade dos povos indígenas.

É preciso nos juntarmos em luta com mãe de Junior, e familiares das demais vítimas, quando afirma que: Vou cobrar porque também não quero que aconteça com outros.Não podem nos tratar feito animais”. O combate à animalização das pessoas e coletivos indígenas perpassa a mobilização necessária, urgente e inadiável de destruição do sistema colonial, como já antecipou Franz Fanon, o contrário disso é a permanência da violência brutal contra essas populações, responsável por vitimar Alexandre, Rodrigo, Junior, Vitor, Neri e tantos outros já tombados, e os que ainda podem vir a ser caso essa maquinaria de morte não seja combatida e desarticulada.

1 https://repositorio.ufgd.edu.br/jspui/bitstream/prefix/1590/1/FelipeMattosJohnson.pdf

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