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23 nov 2025

Balas do Estado, balas dos pistoleiros: o cenário de terror vivido pelos Guarani e Kaiowá de Guyraroká e Pyelito Kue, no Mato Grosso do Sul, no contexto de COP 30 no Brasil

Maria Ignacia Montero

21 de novembro de 2025

No dia 21 de outubro a comunidade indígena Guarani e Kaiowá do território de Guyraroká decidiram avançar na retomada de suas terras originárias, já que aguardam há mais de 30 anos por providências demarcatórias por parte do Estado, que até então não ocorreu. Além da displicência estatal, motivam o avanço da recuperação territorial as constantes pulverizações de agrotóxicos na região, por vezes de forma criminosa, que contaminam o ambiente, atingindo as pessoas e as plantações indígenas.

Mulheres mães denunciam a intoxicação de seus filhos pelos agrotóxicos, gerando adoecimentos de saúde nas crianças que são acometidas por doenças diversas, sendo necessária a busca por atendimentos de saúde nem sempre com sucesso pela indisponibilidade de equipamentos públicos e da própria postura de profissionais contrários aos indígenas. A escola da comunidade é um dos lugares onde as crianças são atingidas pelos agrotóxicos. Relatos de trabalhadoras da escola denunciam que em algumas ocasiões as pulverizações ocorrem durante as refeições das crianças, contaminando a alimentação escolar consumida pelas(os) estudantes.

Além disso, as próprias roças (kokue) dos indígenas são atingidas nefastamente pelos agrotóxicos, que pelo fato das sementes e ramas cultivadas pelos indígenas serem de origem orgânica, não possuem a mesma resistência que o plantio transgênico dos fazendeiros, o que ocasiona a impossibilidade de colheita dos alimentos plantados pelos Guarani e Kaiowá.

A comunidade de Guyraroká relata que algumas plantas até crescem, mas não dão frutos, as raízes das mandiocas apodrecem, o milho não se desenvolve, e outras plantas não resistem aos agrotóxicos. Ou seja, a condição de Insegurança Alimentar e Nutricional é imposta à comunidade, tal como define seu Tito, ancião de 107 anos, ao mencionar que a cesta básica do governo não atende a necessidade e a “cesta básica indígena”, a roça, é inviabilizada pelas contaminações.

A resposta do Estado, imediatamente um dia após a ampliação da retomada, foi o envio da Polícia Militar do Mato Grosso do Sul, através do batalhão de Operações Especiais, para a realização do despejo forçado da comunidade. Os vídeos da operação policial registrados pelos indígenas em Guyraroká mostram um aparato bélico formado por policiais fortemente armados, com armas de fogo e bala de borracha, bombas, escudos, e até a mobilização de helicópteros, além de outros equipamentos de repressão militar.

Essa forma de agir segue o modus operandi do governo estadual de Eduardo Riedel, que vitimou fatalmente em 2022 o indígena Guarani e Kaiowá Vitor Fernandes, no território de Guapoy (município de Amambai), com disparo de arma de fogo, também durante ação de despejo forçado, e Neri Ramos (Guarani-Kaiowá), em 2024, na retoma de Ñande Ru Marangatu (Antônio João), em condições muito semelhantes à de Guapoy.

Um mês após o avanço de Guyraroka, no dia 03 de novembro, a comunidade de Pyelito Kue, localizada no município de Iguatemi, também realizou a ampliação da recuperação territorial, por motivações muito próximas à de Guyraroká, especialmente quanto a falta de providências do Estado na demarcação do território e as condições de miséria vivida pela comunidade em função dos limites impostos à comunidade. No dia seguinte, 04 de novembro, os Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue foram brutalmente atacados por disparos de arma de fogo e balas de borracha, supostamente, empunhadas por pistoleiros (cabe ressaltar que armas com balas de borracha são de uso restrito da Polícia).

Os pistoleiros realizaram a ofensiva durante a madrugada, montados à cavalo e em caminhonetes, característica dos latifundiários sul-mato-grossenses. O ataque ocorreu um dia após a publicação do Grupo de Trabalho Técnico (GTT) interministerial pelo governo federal, tendo como objetivo buscar soluções aos conflitos fundiários da região, especialmente mobilizado pelos acontecimentos em Guyraroka. As investidas violentas por parte dos pistoleiros seguiram nos dias posteriores contra a comunidade de Pyelito Kue, com providências ínfimas de contenção da violência por parte do Estado, a exemplo da mobilização da Força Nacional durante pequenos períodos do dia e sem a cobertura no período noturno, quando há maiores ataques da pistolagem.

A escalada da violência agromiliciana culminou com o assassianto de Vicente Fernandes, na madrugada do dia 16 de novembro, além de outras 3 pessoas Guarani e Kaiowá, sendo 2 adolescentes e uma mulher, atingidas por disparos de arma de fogo e bala de borracha nas regiões do braço e abdômen. A ação da agromilícia e omissão do Estado fizeram mais uma vítima fatal, entre tantas outras já assassinadas, em Mato Grosso do Sul. Esse cenário de terror e genocídio compõe historicamente a experiência dos Guarani e Kaiowá, que mais recentemente têm conseguido registrar em vídeo a brutalidade das ações, sejam elas da Polícia ou dos pistoleiros.

Vídeos gravados durante o ataque que assassinou Vicente Fernandes mostram o desespero de uma mulher indígena que se esconde e pede socorro dentro de sua residência. Socorro esse que não tem sido escutado, pelo contrário, tem sido silenciado pelas instâncias do governo, seja com repressão, como em Guyraroka, ou com ações insuficientes, localizadas e/ou temporárias, como o exposto sobre a presença da Força Nacional e a instituição do GTT.

Ainda, é importante destacar que nesse período há toda uma cúpula empresarial-governamental de diversos países do mundo reunida na Conferência das Partes (COP) 30, realizada entre os dias 10 e 21 de novembro, na cidade de Belém (PA), na região norte do Brasil, para, supostamente, discutirem as mudanças climáticas. Um dos slogans do governo brasileiro tem sido a participação indígena, extremamente questionável e contraditória pela exclusão de diferentes coletividades indígenas durante o evento, inclusive ao acesso às dependência da COP 30 e impedidas do direito à fala, sendo essa condição escancarada por múltiplos protestos das lideranças no próprio espaço do evento e nas redes sociais.

O assassinato de Vicente Fernandes acontece nesse contexto. Curiosamente, ou perversamente, um dia após a morte de Vicente, o governo brasileiro anunciou providências demarcatórias de 10 Terras Indígenas em todo o Brasil, das centenas de territórios reivindicados e paralisados. Cabe questionar a coincidência dessa divulgação logo após o grave acontecimento em Mato Grosso do Sul: seria essa ação uma forma de abafar e desviar o foco do terrível cenário vivido pelos Guarani e Kaiowá? Por que esse “Pacote COP 30” não foi anunciado antes? Essas são algumas perguntas inquietantes a serem feitas ao governo federal e sua política indigenista.

Ainda, vale dizer que no estado de Mato Grosso do Sul, dentre os vários territórios reivindicados, apenas um, Ypo’i, obteve providência demarcatória pelo Pacote COP 30, estando diversos outros sem avanços e resoluções a não ser aqueles produzidos pelos próprios Guarani e Kaiowá que tem colocado seus corpos em luta e risco. Enquanto isso, Guyraroká e Pyelito Kue seguem mobilizados, suscetíveis a novos ataques e pessoas feridas e/ou assassinadas, pela Polícia ou pelos pistoleiros, como tem sido a marca da história recente.

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